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De Trump à AfD: como as redes sociais amplificam retórica anti-imigração

18 mai 2026 - 16h26
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Conta do governo dos EUA publica post sobre "remigração", termo típico da ultradireita alemã, que celebra sintonia com Trump. Entenda como narrativas extremistas estão sendo disseminadas através do Atlântico.Visualizada quase dez milhões de vezes, uma postagem do Departamento de Estado americano acusava as Nações Unidas de buscarem "facilitar a imigração de substituição para os Estados Unidos e nossos aliados ocidentais", acrescentando que, sob o governo do presidente Donald Trump, o órgão priorizaria a "remigração" em vez da mencionada "migração de substituição". O post rapidamente se espalhou pelas redes da extrema-direita na Alemanha.

AfD reforça retórica da "remigração" após Departamento de Estado dos EUA postar mensagem contra "substituição populacional"
AfD reforça retórica da "remigração" após Departamento de Estado dos EUA postar mensagem contra "substituição populacional"
Foto: DW / Deutsche Welle

Referências sobre "substituição" costumam fazer parte de uma teoria conspiratória propagada em círculos extremistas que descreve como supostas elites estariam agindo de maneira obscura para "substituir" as populações étnicas da Europa e dos Estados Unidos.

Em 13 de maio, a Casa Branca repetiu a mensagem com uma nova publicação, visualizada mais de 3,7 milhões de vezes. A reação na extrema-direita alemã foi de celebração.

"Para aqueles que tinham pouca ou nenhuma ligação com a política antes do presidente Trump: vocês provavelmente não têm ideia do quão monumental é este momento - o fato de o Departamento de Estado dos EUA usar o termo 'migração de substituição' - e anunciar a remigração para a América e todo o Ocidente", escreveu Eugen Andres, um político local do partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD).

Reação da ultradireita alemã

A DW monitorou um conjunto de dados com mais de 150 políticos e contas da AfD para acompanhar as suas reações. O Departamento de Estado publicou o seu tweet durante a madrugada na Europa. Por volta das 7h da manhã, no horário da Alemanha, o primeiro político da AfD já tinha notado a publicação e começado a partilhá-la.

Às 8h da manhã, um político local da AfD escreveu que "o fato de a 'migração de substituição', ou 'substituição populacional', ser oficialmente abordada por um governo ocidental pela primeira vez é um sucesso."

A comemoração rapidamente ultrapassou os limites da plataforma X. Buscas por palavras-chave em canais do Telegram em alemão revelaram capturas de tela da declaração original, juntamente com comentários comemorativos sobre a remigração.

Um tradutor baseado em Bruxelas compartilhou uma versão em alemão da notícia, que passou a circular amplamente entre os canais alemães do Telegram relacionados ao QAnon - teoria conspiratória surgida nos EUA que afirma a existência de uma elite secreta criminosa e de um plano oculto para combatê-la.

No início da tarde, a mensagem já havia chegado ao topo da liderança da AfD. Alice Weidel, co-líder do partido, escreveu no X: "exatamente o que a AfD vem alertando há anos. Conversa franca de Washington."

Por que o Departamento de Estado fez a postagem?

O governo Trump fez a publicação ao abordar a revisão do Pacto Global da ONU sobre Migração, que ocorria em meio a uma série de discussões e mesas-redondas em Nova York, entre 5 e 8 de maio.

Adotado em 2018, o pacto é uma estrutura voluntária e não vinculativa criada pelos Estados-membros da ONU. Desde a sua adoção, é bastante debatido se o pacto busca principalmente regular a migração ou se incentiva e facilita o aumento desse fenômeno social.

Mas as Nações Unidas afirmam explicitamente que o pacto não se destina a substituir as políticas migratórias nacionais de nenhum país ou a criar um "direito à migração". Em vez disso, contém uma lista de objetivos, focados em metas como minimizar os fatores que forçam as pessoas a migrar, criar mais vias legais para a migração e combater o tráfico de seres humanos.

O Pacto Global se tornou motivo de agitação na extrema-direita. Em 2018, grupos marginais argumentaram que o pacto era "prova" da conspiração da "grande substituição". O discurso chegou à AfD, que o levou ao Bundestag (Parlamento alemão).

"Isso foi um grande sucesso porque fontes confiáveis, parlamentares, de fato deram atenção a essa ideia", afirmou à DW Kilian Bühling, especialista em dinâmicas de redes entre grupos antidemocráticos e teóricos da conspiração na esfera digital, no Instituto Weizenbaum da Universidade de Berlim, na Alemanha.

"Isto está acontecendo agora: se houver mais ideias ou palavras marginais que sejam repetidas e recebam atenção de figuras como o presidente dos EUA ou sua administração, isso as torna mais legítimas."

"Remigração" na política convencional

A "remigração" é a resposta política para os adeptos da extrema-direita que alertam sobre a teoria da conspiração da "grande substituição". O termo implica enviar residentes não brancos de volta aos seus países de origem - desde migrantes recém-chegados até cidadãos com histórico de migração, dependendo de quem propaga a ideia.

Já foi uma palavra proibida na política alemã - a extrema-direita alemã se viu em apuros depois que jornalistas investigativos descobriram que políticos da AfD participaram de uma conferência em Potsdam sobre o tema "remigração".

A proposta debatida na conferência, segundo o Correctiv - um portal alemão de jornalismo investigativo independente -, incluía a deportação de cidadãos alemães com histórico de migração, o que é inconstitucional segundo a lei alemã.

O envolvimento da AfD na conferência levou centenas de milhares de pessoas às ruas em todo o país em protestos pró-democracia. Isso também gerou um debate sobre rotular o partido como extremista de direita e tentar impedi-lo de participar das eleições.

Desde então, a AfD dobrou a aposta na "remigração", mas esclareceu que sua política oficial não inclui cidadãos alemães. Apesar disso, algumas figuras do partido continuaram a usar retórica sobre remoções em massa e revogação da cidadania de determinados grupos.

"Quando as pessoas no discurso político alemão os acusam de serem anticonstitucionais, extremistas de direita e antidemocráticos, pode ser de grande ajuda se a liderança da maior e mais antiga democracia do Ocidente usar exatamente o mesmo termo", disse Bühling.

"Remigração" é um conceito defendido pelo ativista austríaco de extrema direita Martin Sellner. Após a reunião de Potsdam, a Alemanha o proibiu de entrar no país. Mas, nesta segunda-feira (18/05), a política que ele ajudou a popularizar recebeu um importante apoio de Trump.

"A Casa Branca publicou isso hoje", escreveu Sellner no Telegram para seus 74 mil seguidores, com um link para a postagem de Trump. "Ninguém poderá mais ignorar o assunto. A substituição populacional é real."

A cooperação entre a extrema-direita europeia e americana é bem organizada. Desde 1973, ativistas dos dois países se reúnem na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada anualmente nos EUA. Weidel, inclusive, foi a palestrante convidada do ano passado.

Embora haja um longo histórico de ideias de extrema-direita atravessando o Atlântico, segundo Bühling, "a velocidade e as possibilidades de conexão e fluxo de informações aumentaram com a internet e as plataformas de mídia social".

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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