Embraer tem prejuízo de R$ 1,3 bi no 1º trimestre, com pandemia e cancelamento de venda para Boeing
Resultado é quase sete vezes superior ao registrado no mesmo período do ano passado; apesar da crise, executivos veem cenário favorável para a empresa
A crise econômica causada pela covid-19 e as medidas adotadas para entregar sua divisão de aviação comercial à Boeing - venda cancelada pela empresa americana no fim de abril - levaram a Embraer a um resultado negativo no primeiro trimestre deste ano. A fabricante brasileira de aviões reportou prejuízo líquido de R$ 1,3 bilhão no período, quase sete vezes superior ao registrado nos três primeiros meses de 2019.
O impacto da crise do coronavírus veio pela queda de R$ 108,6 milhões no valor da companhia aérea americana Republic Airways Holdings, na qual a Embraer tem participação. A brasileira também precisou provisionar R$ 163 milhões para devedores duvidosos, pois adotou uma abordagem mais conservadora por causa da pandemia. Esses dois fatores reduziram o resultado operacional da empresa.
O choque decorrente do fim do acordo de venda do braço de aviação comercial para a Boeing ocorreu porque, em janeiro, a Embraer praticamente paralisou todas as suas atividades para fazer a separação dos sistemas que ficariam com a americana. Com isso, houve também uma redução no número de aviões entregues no primeiro trimestre: foram cinco aeronaves comerciais no período, enquanto, no ano passado, tinham sido 11.
O prejuízo líquido ajustado da empresa, que exclui imposto de renda e contribuição social diferidos, também aumentou de R$ 230 milhões, nos primeiros três meses de 2019, para R$ 434 milhões neste ano. Além da queda na receita operacional, perdas cambiais também fizeram com que as perdas aumentassem.
Apesar do resultado negativo, a Embraer destacou que sua posição de liquidez permanece "sólida" - tinha US$ 2,5 bilhões em caixa no fim de março. O dado é um indicador importante para a empresa, que tem de criar musculatura para enfrentar os efeitos na pandemia.
Em conferência com jornalistas nesta segunda-feira, 1.º, o vice-presidente executivo financeiro e relações com investidores da Embraer, Antonio Garcia, destacou que a empresa segue negociando novas linhas de financiamento como forma de proteger a liquidez do grupo durante a crise do coronavírus.
"Vamos ter novidades para compartilhar com o mercado nas próximas semanas sobre financiamentos", disse, sem dar mais detalhes sobre quais bancos ou instituições estão envolvidas na empreitada.
Segundo a agência de notícias Reuters, a Embraer deve obter em junho financiamento de US$ 600 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com bancos privados.
Garcia destacou que a empresa continua a discutir com clientes a postergação na entrega de aeronaves, na esteira da crise no setor decorrente da pandemia. "Até agora, desde o início da pandemia, não tivemos cancelamentos (na divisão comercial)", acrescentou.
Cenário favorável
Apesar da crise, Garcia traçou um cenário favorável para a empresa. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês) estima que a retomada no setor acontecerá pelo mercado de voos regionais, segmento em que as aeronaves da Embraer saem na frente. "A boa notícia é que o mercado de aviação da Europa e Estados Unidos está retomando com jatos menores, que deverão ganhar espaço no transporte aéreo", disse o executivo.
O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, disse, também na conferência com jornalistas, que os debates dentro da companhia envolvendo a revisão estratégica para os próximos cinco anos abrem espaço para diversas parcerias, entre elas possíveis acordos com outros grupos para a produção de aeronaves.
"Estamos revisando nesse momento nossa estratégia para os próximos cinco anos. E sem dúvida dentro dessa estratégia há espaço para parcerias via desenvolvimento de produtos, engenharia e eventualmente produção", disse. Ele destacou, entretanto, que ainda seria cedo para dar detalhes.
Na manhã desta segunda, a empresa informou ao mercado não há quaisquer tratativas no momento com a chinesa Comac ou com companhias da Índia ou da Rússia, mas que regularmente avalia potenciais parcerias e oportunidades de negócios. Na sexta-feira passada, as ações da Embraer saltaram mais de 15% com a notícia de que estaria sendo sondada por outras empresas. Segundo a Reuters, a Comac e a russa Irkut já teriam feito sondagens informais para uma possível cooperação. / COLABOROU FABIANA HOLTZ