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Como o Irã quer explorar vácuo deixado pela saída dos EUA do Iraque

6 out 2026 - 15h53
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Resumo
A saída militar dos EUA do Iraque gerou um vácuo de segurança que ameaça a autonomia do Curdistão iraquiano. O Irã busca explorar as rivalidades políticas internas da região e a presença de oposicionistas em seu território para enfraquecer o poder curdo, visando mantê-lo sob controle. Enquanto Washington passa a atuar como um regulador via pressão financeira, analistas alertam que a sobrevivência da autonomia curda dependerá da superação de suas próprias divisões contra a ingerência de Teerã.

Fim da missão militar americana deixa região do Curdistão diante de grave lacuna de segurança. Teerã se posiciona para obter ganhos estratégicos e explorar as profundas divisões internas na região curda do país vizinho.O fim da missão militar dos Estados Unidos no Iraque na semana passada criou um perigoso vácuo de segurança para a região curda semiautônoma no território iraquiano.

Políticos em Bagdá celebraram a retirada. O primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, declarou oficialmente o dia 1º de outubro como o Dia da Soberania e Independência.

Também saudaram a medida o governo iraniano, a Guarda Revolucionária Islâmica e milícias xiitas apoiadas por Teerã.

Mas em Erbil, a capital da Região do Curdistão do Iraque (KRI), o clima é visivelmente mais apreensivo.

Após depender da proteção de Washington por duas décadas, a região curda no território iraquiano enfrenta atualmente crises interligadas, incluindo a pressão crescente de Bagdá para centralizar o poder e ameaças militares cada vez maiores por parte de seus vizinhos, notadamente o Irã.

Estratégia de contenção

A ameaça imediata à região do Curdistão não é uma invasão militar em grande escala, mas sim uma erosão lenta e calculada de sua autonomia, afirmou Hesam Dastpish, analista do Oriente Médio baseado em Bruxelas. Ele descreve a estratégia geral de Teerã em relação a Erbil como hostil e fortemente voltada para a contenção.

Segundo o especialista, a República Islâmica quer, em última análise, retirar a influência política da KRI e reduzi-la a um órgão puramente administrativo.

"O objetivo de Teerã é transformar a região do Curdistão em uma instituição sem qualquer margem de manobra", afirmou Dastpish à DW, apontando para os recorrentes ataques iranianos na região, supostamente visando acampamentos de grupos de oposição curdos iranianos.

Salahuddin Khadiw, analista político baseado em Mahabad, na região curda do Irã, observou que os países vizinhos não querem necessariamente eliminar completamente a autonomia curda.

Em vez disso, Teerã vislumbra um Curdistão "controlado e fraco", afirmou.

Ao lidar separadamente com os centros de poder rivais em Erbil e Sulaymaniyah, o Irã manteve sua influência em toda a Região do Curdistão Iraquiano, ao mesmo tempo em que buscava impedir que qualquer autoridade curda isolada surgisse como potência dominante em sua fronteira ocidental.

Fragmentação interna, um erro fatal

Apesar dos desafios externos, a vulnerabilidade mais crítica da região curda do Iraque vem de dentro.

O legado da guerra civil da década de 1990 perdura na rivalidade profundamente enraizada entre as duas principais facções governantes, o Partido Democrático do Curdistão (KDP) e a União Patriótica do Curdistão (PUK).

Hiwa Mahmoud Osman, analista de assuntos iraquianos e curdos no Oriente Médio, ressaltou que Teerã tira grande proveito dessa disputa interna. "O Irã passou décadas aperfeiçoando sua influência política dentro do Iraque", afirmou o especialista à DW. "O maior obstáculo dos curdos é a sua própria fragmentação. Sem uma frente unida, as potências estrangeiras simplesmente têm mais espaço para atuar."

Ardeshir Pashang, pesquisador sobre o Oriente Médio radicado em Teerã, alertou que, se os líderes curdos não conseguirem superar suas disputas políticas, essa desunião poderá, em última análise, levar ao colapso da região do Curdistão como entidade política.

O dilema da oposição

Uma questão particularmente espinhosa é a presença de grupos de oposição curdos iranianos que buscam refúgio na Região do Curdistão do Iraque.

Esses grupos, que historicamente entraram em confronto com as forças estatais iranianas, estão sob imensa pressão para se desarmarem e se realocarem. A presença deles fornece ao Irã um pretexto conveniente para lançar ataques com drones e mísseis através da fronteira, pontuou Dastpish.

Ele, no entanto, não espera que Erbil ofereça uma rendição total, uma vez que manter o equilíbrio com esses grupos é crucial para a legitimidade interna e as relações exteriores da KRI.

Segundo Kasra Qaredaghi, pesquisador de ciência política radicado nos EUA, esses grupos estão agora mais vulneráveis do que nunca.

Se o Irã conseguiu atacar seus bastiões enquanto as forças dos EUA ainda estavam totalmente posicionadas - culminando no pacto de segurança de fronteiras de 2023 entre Bagdá e Teerã -, a capacidade de influência de Erbil é agora praticamente inexistente, conferindo a Teerã muito mais poder para forçar concessões, explicou Qaredaghi.

Diplomacia do dólar, a arma oculta dos EUA

Embora as tropas americanas tenham deixado o país, a influência de Washington no Iraque não desapareceu completamente. Ela simplesmente migrou para as redes financeiras globais, naquilo que Qaredaghi descreve como um "realinhamento de poder", dentro do qual os EUA, a Turquia e a Arábia Saudita atuam como contrapesos naturais à crescente influência do Irã.

Osman concorda com essa visão ao destacar a profunda dependência financeira do Iraque em relação ao dólar americano. Esse vínculo econômico permite que o Tesouro dos EUA influencie indiretamente os assuntos internos de Bagdá, chegando até a garantir o pagamento dos salários dos funcionários públicos da KRI.

De forma semelhante, Khadiw caracteriza essa mudança estratégica como uma transição dos EUA de um "agente de equilíbrio militar" para um "poderoso observador econômico".

No entanto, à medida que as pressões internas e externas aumentam, segundo os analistas, a região curda do Iraque pode não ter outra escolha a não ser superar suas divisões internas e apresentar uma frente unida para preservar sua autonomia e limitar os ganhos estratégicos do Irã na região.

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