Com guerra no Irã, Síria emerge como nova rota energética
Apontado como corredor alternativo a Ormuz, com transporte terrestre de petróleo, oleodutos e cabos de dados, país tenta se reposicionar na região. Porém, não consegue suprir nem sua própria demanda por energia.A guerra do Irã tem contribuído para mudar o posicionamento da Síria na região. Se há pouco mais de um ano, com a queda do ditador Bashar al-Assad, o país era visto como um Estado patrocinador do terrorismo, agora ele ganhou status de potencial polo energético, capaz de ligar Oriente Médio à Europa e mitigar os impactos inflacionários do bloqueio do Estreito de Ormuz.
O fechamento da via marítima interrompeu o transporte de petróleo bruto produzido no Iraque, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Sem perspectiva de normalização do tráfego na região, a Síria passou a se apresentar como alternativa para produtores de petróleo e gás que não têm como levar seus produtos ao mercado.
A localização do país no centro da região e uma política externa que deliberadamente o manteve fora do conflito com o Irã fizeram com que a ideia fosse recebida com entusiasmo.
A proposta já está sendo implementada. Em abril, Síria e Iraque reabriram fronteiras inativas há mais de uma década para que caminhões-tanque iraquianos pudessem seguir até portos no Mediterrâneo.
Em meados do mês, o veículo de mídia de propriedade saudita Al Majalla citou um documento vazado atribuído a Tom Barrack, enviado especial dos EUA para a Síria, no qual ele também defendia uma "ponte terrestre através da Síria". O americano se referia a milhares de quilômetros de oleodutos, alguns já abertos, outros projetados, que poderiam ligar os países do Golfo e o Iraque aos mercados europeus.
"Neutralidade estratégica"
Essa é apenas uma das formas pelas quais a Síria vem se beneficiando de uma posição que observadores descrevem como "neutralidade estratégica" na guerra com o Irã.
O governo interino da Síria é formado por grupos rebeldes liderados pelo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), que derrubaram Bashar al-Assad no fim de 2024. O Irã e vários grupos aliados na região, como o Hezbollah do Líbano, apoiavam o regime de Assad e lutaram contra esses movimentos.
"As novas autoridades em Damasco chegaram ao poder com uma preocupação central: evitar que a Síria volte a se tornar um frente de conflitos regionais", disse Kheder Khaddour, pesquisador do Carnegie Middle East Center, em Beirute, em um debate realizado em março. "É por isso que, desde o início do conflito com o Irã, as autoridades sírias têm se concentrado mais em administrar os efeitos colaterais dessa guerra do que em se envolver diretamente nela."
Desde que assumiu o poder, o atual presidente interino sírio Ahmad al-Sharaa se distanciou do Irã ao reforçar suas fronteiras e reprimir o contrabando de armas, dinheiro e drogas para grupos apoiados por Teerã no Iraque e no Líbano. Também se aproximou dos EUA, que antes classificava o HTS como um grupo terrorista.
Fruto da aproximação, ao contrário do Iraque, a Síria não apresentou uma queixa oficial na ONU sobre o uso de seu espaço aéreo por Estados Unidos e Israel para atacar o Irã, observou Samy Akil, pesquisador do Tahrir Institute for Middle East Policy, em uma análise publicada em março. Isso foi interpretado por como aprovação síria da campanha contra o Irã, segundo ele.
Mas a posição da Síria parece menos uma escolha do que uma necessidade, diz o pesquisador. "Sua reintegração internacional, o alívio de sanções e o financiamento da reconstrução dependem de manter a credibilidade junto a Washington e aos Estados do Golfo".
Al-Sharaa também vem conduzindo uma espécie de ofensiva diplomática, na qual tem ressaltado com frequência o quão útil seu país pode ser. Ele defende mecanismos regionais de coordenação de segurança e a criação de uma sala de operações conjunta com os Estados do Golfo.
"A Síria é um hub estratégico entre a Europa, os Estados do Golfo e o Indo-Pacífico", disse o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, após a visita de al-Sharaa a Berlim, em março.
No fim de abril, a Comissão Europeia propôs que a União Europeia retomasse seu acordo de cooperação de 1978 com a Síria. Em 11 de maio, o bloco deve realizar um diálogo político com as autoridades sírias.
"A campanha diplomática intensificada conduzida por al-Sharaa desde o início da guerra sugere um esforço para aproveitar o conflito e apresentar a Síria como um ator construtivo e valioso", confirmou Carmit Valensi, pesquisadora sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, no fim de março.
Oportunidades dependem de transição
Há também oportunidades econômicas. Além do plano para facilitar exportações de petróleo, a Síria está em negociações com grandes empresas internacionais de energia para a exploração de petróleo e gás. O tráfego rodoviário e ferroviário entre Iraque, Síria e Jordânia pode crescer, assim como corredores logísticos e redes de eletricidade.
A Síria também poderia desempenhar um papel importante na instalação de cabos terrestres de dados e telecomunicações.
Em abril, o Irã alertou que os cabos submarinos de telecomunicações que passam pelo Estreito de Ormuz poderiam ser alvo de ataques. Em fevereiro, a Arábia Saudita disse que preferiria instalar cabos de fibra óptica do chamado Corredor Leste-Mediterrâneo (EMC), com a Grécia, passando pela Síria em vez de por Israel, como havia sido planejado originalmente.
Embora o cenário soe otimista, observadores apontam que o sucesso do novo governo sírio dependerá se o país conseguirá fazer a transição da ditadura e da guerra civil.
"O interesse de investimento é real", escreveu o jornalista sírio Mazen Ezzi na semana passada para o The Amargi, um veículo online focado no Oriente Médio e sediado na cidade de Leipzig, no leste da Alemanha. "Mas ele permanece condicionado à estabilidade política, à clareza regulatória, a garantias de segurança e à reabilitação da infraestrutura básica."
Governança frágil e um sistema financeiro instável, ameaças à segurança decorrentes de tensões comunitárias na Síria ou de atores extremistas como o grupo Estado Islâmico podem causar problemas. Grande parte da infraestrutura necessária não existe ou precisa ser modernizada, dizem especialistas do setor. Além disso, há uma grande quantidade de minas terrestres não detonadas que ainda precisam ser removidas.
Fora do país, há pressão de Estados como Irã, Israel e Rússia, rivalidades geopolíticas maiores no mercado de energia e a possibilidade de que outros países de trânsito não cooperem com os planos sírios. Também há concorrência de rotas alternativas.
No momento, a Síria tem dificuldades até para gerar energia suficiente para sua própria população, muito menos para transportar petróleo e gás de forma eficiente para outros países, apontou a Karam Shaar Advisory, consultoria especializada na economia síria.
"O potencial da Síria como hub energético voltou a chamar atenção", escreveram os pesquisadores no fim de março. Mas, argumentaram, "é preciso fazer uma distinção crítica entre um hub de trânsito e um Estado de trânsito. Um hub molda rotas, preços e diversificação. Um Estado de trânsito apenas abriga infraestrutura determinada por atores externos. O discurso oficial [sírio] aspira ao primeiro. No entanto, as realidades atuais sugerem o segundo."
A guerra com o Irã certamente criou uma abertura estratégica para a Síria, concordou Haid Haid, pesquisador sênior não residente da Arab Reform Initiative, com sede em Paris, em uma análise publicada em abril. Mas não há garantias de que isso se concretize, argumentou. "Sem reformas sustentadas, melhoria da governança e um ambiente de investimento crível, o ressurgimento da Síria como corredor regional corre o risco de permanecer parcial e temporário", concluiu Haid.
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