Com atuação da família Bolsonaro nos EUA, Brasil torna-se definitivamente alvo de intervenções eleitorais externas
Quanto mais Flavio busca apoio nos EUA, mais reforça a narrativa de soberania do governo Lula. Mas se o governo não apresentar resultados concretos na segurança pública, a extrema direita transnacional terá um terreno fértil para influenciar a disputa presidencial
Está aberta a temporada de intervenções eleitorais externas no Brasil. O encontro de Flávio Bolsonaro com Trump, em 27 de maio de 2026, indica que atores nos Estados Unidos estão conduzindo — e continuarão a conduzir — ações voltadas a influenciar a disputa presidencial no Brasil.
Estas ações são uma continuação do que o governo Trump fez em outros casos, dos quais dois exemplos recentes foram o apoio a Javier Milei nas eleições legislativas na Argentina em outubro de 2025, e a Tito Asfura nas eleições presidenciais em Honduras em novembro de 2025.
O Brasil encontra-se em uma zona de risco. Contudo, permanecem em aberto diversas questões sobre a intensidade dessas intervenções, seus formatos, os atores envolvidos, seus impactos e quais devem ser as respostas do governo brasileiro. Entender os atores e mecanismos de influência é essencial para estimar a magnitude dos riscos e enfrentar o problema.
No momento, o governo brasileiro está em situação relativamente mais confortável do que há um ano. Desde então, passou a contar com três vantagens em relação à oposição: 1) a abertura de canais diplomáticos com o governo Trump, até então monopolizados pelo bolsonarismo; 2) a experiência acumulada sobre como lidar com o governo Trump; e 3) as perdas consideráveis enfrentadas pelo bolsonarismo, sobretudo a prisão de Bolsonaro.
Além disso, o governo dos Estados Unidos tem interesses permanentes no Brasil e, portanto, incentivos para não queimar pontes com o governo Lula, que possui grandes chances de permanecer como presidente do país.
Oposição criou rede de apoio nos EUA
No entanto, é importante ter em mente dois outros fatos. Primeiro, a família Bolsonaro e aliados construíram uma rede de apoio político nos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro está no país há mais de um ano e mantém conexões com o governo Trump e diversas redes conservadoras. Um exemplo é sua participação na Conservative Political Action Conference (CPAC), da qual ele é organizador no Brasil desde 2019.
Um outro exemplo são contatos na House Judiciary Committee (parte da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos), que possui funções parecidas às da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) no Brasil. O comitê é presidido pelo deputado republicano Jim Jordan, com quem Eduardo Bolsonaro se reuniu em janeiro de 2026 para tratar de liberdade de expressão e regulação de plataformas digitais no Brasil.
Em abril de 2026, este mesmo comitê publicou um relatório extenso sobre o que chamou de "censura" no Brasil.
Segundo, setores poderosos nos Estados Unidos possuem incentivos para apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, ainda que o presidente Trump não o faça diretamente. Flávio prometeu designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, abrir o mercado de terras raras aos Estados Unidos para que este reduza a dependência da China, reduzir a regulação das plataformas digitais, apoiar o intervencionismo na região e apoiar Israel. Com isso, agrada a diversos grupos de interesse nos Estados Unidos, incluindo grande parte do setor de segurança, várias das Big Techs, o lobby pró-Israel, os China hawks e grupos intervencionistas.
Apoio explícito de Trump é improvável, mas possível
O cenário dos sonhos para o bolsonarismo seria um apoio explícito de Trump a Flávio Bolsonaro. A probabilidade de que isso ocorra não é desprezível, mas diminuiu desde a remoção das tarifas adicionais pelo governo dos Estados Unidos e desde que Trump descobriu ter boa "química" com Lula.
Independentemente de um apoio explícito ocorrer, outros mecanismos de intervenção eleitoral externa podem ser operados por grupos ou indivíduos dentro do governo dos Estados Unidos (e.g., parlamentares, assessores, funcionários de segunda escalão) e/ou atores privados. Destaco aqui alguns deles, mas certamente há outros.
O mecanismo de maior risco para o governo brasileiro são temas de segurança pública, um dos elos mais frágeis das políticas públicas do atual governo. O governo tem enorme dificuldade em enfrentar a violência no país, enquanto a tradicional abordagem de linha dura contra o crime mantém apelo eleitoral.
Na coletiva de Flávio Bolsonaro, ele reiterou esses pontos diversas vezes. Ele foi a Washington com alguns pedidos, entre os quais o de que o governo dos Estados Unidos classificasse o PCC e o CV como organizações terroristas, o que ocorreu no dia seguinte.
Esta decisão cria um fato político interno no Brasil de enormes proporções: ele funciona como validação externa da abordagem bolsonarista sobre segurança pública e sinaliza que Flávio Bolsonaro poderia ter amplo apoio do governo Trump caso seja eleito.
Um outro mecanismo, relacionado ao anterior, é a internacionalização de questões domésticas. Diversos atores de variadas posições políticas buscam transformar questões internas no Brasil ou nos Estados Unidos em tópicos da agenda bilateral.
A extrema direita não é exceção. O exemplo mais claro até agora foi a imposição de tarifas em 2025, da qual um dos objetivos era o fim do processo judicial contra Bolsonaro. Outro exemplo é a conexão entre debates sobre liberdade de expressão e discussões sobre regulação das plataformas digitais.
Outro reforço: Aliança com Big Techs
Essa conexão ganhou uma importância desproporcional no Brasil em função de sua importância nos Estados Unidos. A proximidade entre várias das Big Techs e o governo Trump ampliou as ligações entre plataformas digitais e a extrema direita global. A família Bolsonaro abraça abertamente essa aliança, assim como promove a ideia no Brasil de que regulações mais restritivas de plataformas digitais são uma forma de censura.
Embora a possibilidade de imposição de novas tarifas seja pequena no momento, há lições importantes a extrair da sua imposição e posterior reversão em 2025. Em resposta às tarifas, o governo brasileiro adotou uma estratégia clássica de compartimentalização, separando três questões que o governo Trump havia tentado fundir: o rito de um processo penal no Brasil; a regulação das plataformas digitais; e a relação comercial Brasil-Estados Unidos. O resultado foi uma derrota significativa para o bolsonarismo.
Outra lição desse episódio é a importância de combinar posicionamentos incisivos para o público doméstico com diplomacia tradicional. No plano doméstico, transformar a interferência externa em um argumento de soberania provavelmente teve efeito positivo.
Há um longo histórico de respostas desse tipo. Na Argentina durante a campanha eleitoral de 1946, o embaixador dos Estados Unidos, Spruille Braden, se opôs abertamente a Juan Domingo Perón e endossou seus adversários. A intervenção, contudo, acabou fortalecendo o voto peronista. Padrão semelhante foi observado recentemente no Canadá e na Austrália, onde as candidaturas de Mark Carney e Anthony Albanese se fortaleceram para as eleições de 2025 após Trump apoiar seus adversários.
Nas relações bilaterais com os Estados Unidos, o governo brasileiro manteve o diálogo aberto, mas ao mesmo tempo foi firme, uma abordagem semelhante à de Claudia Sheinbaum no México. Esta abordagem consiste em comunicar ao governo dos Estados Unidos que certos movimentos não seriam aceitáveis, ao mesmo tempo em que enfatiza a importância da colaboração bilateral em diversas áreas. O encontro de Lula com Trump em maio cumpriu parte desse papel.
O encontro de Flávio Bolsonaro com Trump e a coletiva também indicam um outro mecanismo: o das performances midiáticas. A liderança bolsonarista está usando o encontro como demonstração de proximidade. Uma imagem vale mais que mil palavras. Contudo, há menos clareza quanto a quais palavras vão ressoar com mais força na sociedade. Não é difícil interpretar o encontro (e a foto) como evidência de subordinação.
A coletiva de imprensa de Flávio Bolsonaro revelou sua preocupação com este ponto: ele mencionou diversas vezes a importância de defender a soberania brasileira, indicando que sua campanha reconhece a força do discurso em torno da soberania adotado pelo governo Lula. Reconhece também o alto risco de suas propostas serem percebidas como entreguistas.
Uma política de concessões unilaterais ao governo Trump - ao que tudo indica - é uma peça central na sua estratégia eleitoral. Mas há neste caso uma contradição difícil de resolver: Flávio Bolsonaro precisa dos Estados Unidos para construir sua candidatura, mas esse mesmo vínculo pode ser um obstáculo à sua eleição. Quanto mais ele busca apoio nos Estados Unidos, mais reforça a narrativa de soberania do governo Lula. Cada concessão prometida aos Estados Unidos, como as terras raras e a regulação das plataformas digitais, se converte em material eleitoral para a campanha de Lula.
Os próximos meses trarão novos episódios. A campanha eleitoral ainda está em estágio inicial, e a interferência externa provavelmente vai continuar. O governo brasileiro precisará manter a estratégia que funcionou em 2025: compartimentalizar pressões externas, preservar os canais diplomáticos e transformar cada tentativa de interferência em argumento de soberania. Um limite dessa estratégia, porém, está na segurança pública: se o governo não apresentar resultados concretos, a extrema direita transnacional terá um terreno fértil para influenciar a disputa presidencial.
Rodrigo Fracalossi de Moraes não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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