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2021 fez soar o alarme para o clima global

Retrospectiva: eventos extremos deram trabalho aos negacionistas da mudança do clima, enquanto países falharam em assumir metas climáticas fortes

21 dez 2021 - 02h59
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Retrospectiva 2021

eventos extremos deram trabalho aos negacionistas da mudança do clima, enquanto países falharam em assumir metas climáticas fortes 

2021 já entrou para a história como o ano de maior ocorrência de eventos extremos segundo o relatório preliminar da Organização Meteorológica Mundial (WMO). Quem mente na internet sobre as mudanças climáticas, sobre não serem reais ou não terem como causa a ação humana ficou sem assunto este ano. Foram muitas ocorrências atípicas em apenas 12 meses.

Esta é uma perspectiva preocupante para 2022. O dado mais atualizado de 2020 diz que o mundo já está 1,2°C mais quente do que na era pré-industrial, e os cientistas do clima dizem que é necessário limitar o aquecimento a apenas 1,5°C-2,0°C até meados deste século para evitar as piores consequências das mudanças climáticas. Apesar dos avanços dos países em seus planos climáticos, o mundo está nesse momento no caminho certo para 2,7°C de aquecimento neste século. 

Reunimos nesta retrospectiva as principais ações que tentam frear o aquecimento global e os principais eventos extremos deste ano inesquecível para o clima na Terra. 

Evento: Nevasca no Texas

Em fevereiro de 2021, os EUA viveram um inverno intenso, quando 72% de seu território esteve debaixo de neve. A onda de frio chegou a estados que não enfrentam nevascas, e redes de abastecimento de gás, eletricidade e água sofreram colapsos, provocando acidentes e incêndios. Mais de 100 pessoas morreram no Texas em consequência da onda de frio, a maioria por hipotermia. Os Estados Unidos são o maior emissor global per capita de gases que causam o efeito estufa que provocam as mudanças no clima.

 

Ação: Estado Unidos de volta

Com um plano de governo cheio de metas climáticas, Joe Biden foi eleito presidente dos EUA, e uma das primeiras iniciativas de seu governo foi colocar os Estados Unidos de volta no Acordo de Paris. Em abril, Biden convocou uma Cúpula Climática, em que reafirmou os compromissos dos americanos no combate à crise do clima. É um passo diplomático fundamental, já que uma solução pelo clima que não inclua os EUA, um dos principais poluidores do mundo, não teria chance de êxito. 

Evento: França desregulada

Também em fevereiro, uma intensa onda de frio congelou a França, obrigando milhares de pessoas a passar a noite dentro de carros em um enorme engarrafamento no acesso à capital Paris. Era só o começo de um ano difícil para os franceses em termos de clima. Em uma primavera atípica, temperaturas amenas seguidas de intensas geadas causaram a maior perda agrícola da história da multimilionária indústria de vinhos do país. As parreiras se confundiram com o sobe e desce dos termômetros, floriram antes do tempo e um terços delas tiveram as uvas destruídas pelas geadas tardias de abril, provocando uma queda histórica na produção de vinhos. Um fenômeno semelhante também ocorreu nas regiões produtoras de vinho da Argentina em 2020.

Evento: Austrália debaixo d'água

Em março, foi a vez da Austrália viver a chuva mais intensa dos últimos 50 anos na região de Sidney, causando duas mortes e a evacuação de 18 mil pessoas. Segundo um estudo revisado por pares publicado em novembro, as condições de maior aquecimento da atmosfera podem tornar chuvas extremas como esta 80% mais prováveis na região costeira sudeste do país. A Austrália tem um dos piores compromissos para frear as mudanças climáticas entre todos os países, resistindo a necessidade de aposentar o carvão, a fonte de energia que mais emite gases de efeito estufa. 

Evento: Ciclone Tauktae

Índia, Sri Lanka e Maldivas viveram dias de terror em maio, quando uma rápida intensificação do ciclone tropical Tauktae, que se formou no Mar Arábico, causou a mais forte tempestade a tocar o solo desta região desde 1999. Quase 200 pessoas morreram nos três países, incluindo funcionários de uma companhia de combustíveis fósseis indianos que estavam em uma embarcação a trabalho. Apenas na Índia, mais de 200 mil pessoas tiveram que deixar suas casas. A economia indiana é a terceira maior emissora de gases de efeito estufa, mas contribui pouco em termos per capita para as mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, o país tem um dos mais fracos planos climáticos entre as maiores economias. 

Evento: Inundações na Europa 

Entre os dias 12 e 15 de julho, a região mais central da Europa viveu uma inundação sem precedentes, com 90mm de chuvas sendo registrados em um único dia. Alemanha, Bélgica, Suíça e Holanda tiveram áreas afetadas, com mais de 240 pessoas mortas e prejuízos bilionários. Apesar de estar reduzindo seus níveis de poluição, a Europa ainda é responsável por 18% das emissões globais de gases que causam o efeito estufa, e as metas climáticas dos países europeus combinadas são consideradas insuficientes para manter o mundo abaixo de 1,5C de aquecimento. 

Evento: Céu desaba na China 

Chuvas torrenciais em julho atingiram a província de Henan, na China, e a capital Zhengzhou registrou 617.1 mm de precipitação em apenas 3 dias, inundando a rede de metrô da cidade. Este era o montante de chuvas esperado para o ano. Na cidade de Xinxiang, choveu 260 mm em duas horas. Ao menos 302 pessoas morreram, mais de milhão de habitantes foram evacuados e milhares perderam suas casas. Desde 2016, estudos vêm alertando que a China é um dos lugares do mundo mais susceptíveis a inundações severas como consequência do aquecimento da atmosfera. A China é o maior emissor global de gases de efeito estufa. Embora o país tenha se comprometido a atingir seu pico de emissões em 2030 e zerar até 2060, as metas chinesas são consideradas insuficientes para limitar o aumento da temperatura do planeta a 1,5°C. 

Evento: Tufão Fabian

O mês de julho foi especialmente chuvoso na Ásia. O Tufão In-Fa (ou tufão Fabian) de categoria 2, castigou severamente as Filipinas, onde 6 pessoas morreram e mais de 20 mil tiveram que deixar suas casas. O evento também afetou regiões do Japão e da China, onde contribuiu para agravar as inundações de Henan, que já estavam em curso. Segundo análise do Climate Action Tracker, as Filipinas têm um plano climático compatível com limitar o aquecimento da Terra a 2,0°C. O país é um dos que menos contribuem para as mudanças climáticas, mas está entre as nações mais vulneráveis à crise do clima.

Evento:  Europa em chamas

O Leste Europeu viveu um dos verões mais quentes dos últimos anos, com incêndios devastadores na Turquia e na Grécia. O Serviço Europeu de Monitoramento da Atmosfera Copernicus alertou que os incêndios na região do Mediterrâneo estavam emitindo grandes quantidades de plumas de fumaça na atmosfera, um grande risco para a saúde humana, ainda mais em meio a pandemia de covid-19. Internações por problemas respiratórios por inalação de fumaça saltaram, nos países da região durante os incêndios, que também afetaram propriedades agrícolas e ameaçaram usinas de energia e outras infraestruturas críticas. 

Evento: Seca do Rio Paraná 

A bacia do Rio Paraná viveu este ano a maior estiagem de sua história, afetando a pesca e a navegação em diversos estados do Brasil, além de Argentina e Paraguai. A seca causou o fechamento da hidrovia Tietê-Paraná, afetando o transporte do agronegócio. Especialistas sugerem que tanto a mudança geral do clima como o desmatamento da Amazônia e do Cerrado contribuíram para reduzir gravemente as chuvas da região. As mudanças climáticas devem aumentar a intensidade de secas sazonais em toda a América do Sul. O Brasil é o sexto maior emissor de gases de efeito estufa, e seus planos climáticos são considerados insuficientes para limitar o aquecimento da atmosfera a 1,5°C. 

Evento: Extremos de seca e chuva na África

Enquanto a seca do Lago Chade se intensifica, e a estiagem causa conflitos e fome em toda a região do Sahel, o sul do Sudão viveu as maiores inundações em décadas este ano. Os principais impactos da falta ou do excesso de água nesses países estão na produção de alimentos, diz um relatório divulgado este ano pela Organização Meteorológica Mundial, que também alerta para o aumento da pobreza e dos deslocamentos na África como resposta à "mudança dos padrões de precipitação, aumento da temperatura e tempo mais extremo". Na África estão alguns dos países que menos causaram a mudança climática e que são, ao mesmo tempo, os mais vulneráveis à crise do clima. 

Evento: Ondas de calor no Pacífico Norte

Entre junho e julho o mundo assistiu regiões do oeste dos EUA e do Canadá pegarem fogo literalmente. O Canadá viu o recorde de maior temperatura registrada em seu território ser batido com folga - passou para 49,6°C a máxima que era de 45,5°C. Imagens da vila canadense de Lytton sendo devorada pelas chamas rodaram o mundo. Estimativas indicam que mais de mil pessoas morreram nos Estados Unidos e no Canadá em decorrência da onda de calor, além de animais marinhos que não suportaram as águas excessivamente quentes.  

Investimentos em estudos de atribuição estão permitindo verificar em tempo recorde a real contribuição das mudanças climáticas para eventos deste tipo. Um deles feito logo após a onda de calor no pacífico norte concluiu que ela seria "virtualmente impossível" sem as alterações no clima causadas pela humanidade. 

Ação: COP da Biodiversidade 

Além da Cúpula do Clima, a ONU realiza um outro evento anual fundamental para proteger o meio ambiente na Terra: COP da Biodiversidade. Ela trata de uma outra crise de meio ambiente, que é o processo em curso de extinção em massa de espécies de animais e plantas. Um relatório da ONU divulgado este ano mostra que a crise do clima e a crise de perda de biodiversidade precisam ser combatidas em conjunto com o combate à poluição por resíduos. Por conta da pandemia de COVID-19, o encontro foi diversas vezes adiado, tendo sido dividido em duas partes pelos anfitriões chineses: a primeira parte foi organizada de forma virtual, com uma reunião presencial prevista para abril de 2022. O melhor resultado da COP-15 até aqui é que os países concordaram com um novo compromisso de financiamento para proteger a diversidade biológica. Mas é importante lembrar que os países não cumpriram as metas anteriores. 

Ação: Manifestações na Cop26

De um lado, lobistas de empresas de combustíveis fósseis tentando evitar que os países tenham metas realistas de combate às mudanças do clima. De outro, jovens eleitores e consumidores de várias partes do mundo fazendo uma pressão cada vez mais barulhenta para que os países e as empresas protejam o clima da Terra.

Diplomatas e governantes encontraram esse cenário na COP26, a Cúpula do Clima da ONU realizada em Glasgow, na Escócia. Alguns avanços foram conquistados. Apesar de ter uma das maiores delegações do evento, as petroleiras não conseguiram evitar que os combustíveis fósseis fossem citados nominalmente pela primeira vez em um documento da ONU. Por outro lado, a maior parte dos ambientalistas considerou o compromisso deste ano fraco, principalmente no tema do dinheiro que os grandes poluidores precisam pagar às nações mais vulneráveis.

Ação: Combate ao desmatamento fracassa na Amazônia 

O desmatamento na Amazônia brasileira cresceu quase 22% entre agosto de 2020 e julho de 2021 - maior aumento em 16 anos. E a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil vem justamente da destruição das florestas, já que a maior parte da energia do país vem de fontes renováveis. Mas isso também está em risco: o desmatamento na América do Sul e as mudanças do clima alteram o ciclo das chuvas e a probabilidade de secas nos reservatórios das hidrelétricas do Brasil. Com menos água, mais usinas termelétricas são ligadas, aumentando a emissão de gases de efeito estufa que geram as mudanças climáticas. Essas usinas também fazem a conta de luz disparar, intensificando a pobreza e a desigualdade. O Brasil foi o único país do mundo a aumentar emissões no primeiro ano da pandemia e se comprometeu na COP26 a zerar o destamentamento ilegal até 2028. 

Evento: Águas de dezembro na Bahia

O sul da Bahia viveu sua pior enchente dos últimos 35 anos, com 14 pessoas mortas e quase 14 mil desabrigadas. Em quatro dias, Itamaraju viu cair 500mm de chuva - o dobro do esperado para dezembro. Uma barragem na cidade de Jequié se rompeu, destruindo centenas de casas ribeirinhas. Embora muita gente tenha atribuído o evento à tempestade subtropical Ubá, as intensas chuvas de dezembro foram resultado de uma combinação de fatores meteorológicos, que também atingiram partes de Minas Gerais e Espírito Santo. 

Assim como os eventos de seca, os extremos de chuva podem ser intensificados pelas mudanças climáticas, mas não há ainda um estudo de atribuição sobre como a crise do clima pode ter tornado as enchentes do sul da Bahia mais prováveis. 

Foto: Climatempo
Climatempo
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