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Cinema, política e manipulação: os filmes brasileiros de ficção científica que previram o futuro e quase ninguém lembra

Filmes de espionagem e ficção científica lançados sob a ditadura militar voltam a soar atuais diante da crise institucional, das eleições que se aproximam e das suspeitas cada vez mais alarmantes de ingerência estrangeira sobre o Judiciário e a política brasileira

24 set 2026 - 16h37
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Resumo
A ficção científica brasileira dos anos 1960 e 1970 funcionou como um barômetro político capaz de antecipar crises institucionais do país. Obras como O Quinto Poder (1962) e Manhã Cinzenta (1969) abordaram temas como desinformação em massa, manipulação por potências estrangeiras e autoritarismo tecnológico. Revistos na atualidade, esses filmes deixam de ser meras alegorias do passado e revelam uma perturbadora atualidade ao dialogar com os desafios contemporâneos da democracia e da soberania nacional.

Há mais de sessenta anos, um filme quase esquecido da produtora Pedregal Filmes imaginava agentes estrangeiros infiltrados no Brasil, irradiando mensagens subliminares pelas antenas de rádio e televisão do país, iriam levar a população à violência e ao clamor por uma "revolução" sem sentido.

O Quinto Poder, dirigido em 1962 pelo italiano Alberto Pieralisi com roteiro de Carlos Pedregal, é hoje um filme praticamente invisível, mesmo para o público cinéfilo.

Mas revisto à luz da conjuntura atual (com o Supremo Tribunal Federal sob ataque, as eleições de 2026 se aproximando em meio a um clima de guerra híbrida, e evidências cada vez mais concretas de que uma potência estrangeira financia juristas, políticos e formadores de opinião interessados em manter o Brasil na condição de país subalterno), o enredo deste filme brasileiro de ficção científica distópica deixa de parecer curiosidade de arquivo para se tornar quase um símbolo de tempos obtusos.

A tese de que a ficção científica brasileira funciona como uma espécie de radiografia diferida das nossas crises, uma lente anamórfica sobre o tecido esgarçado da democracia no país, não e nova. Em textos anteriores, propus que esse cinema opera numa "atmosfera rarefeita" — poucos filmes, mas presentes com insistência nos momentos de maior tensão entre modernização e arcaísmo, entre desenvolvimento e dependência externa.

Proponho aqui revisitar alguns poucos títulos, rodados entre o início dos anos 1960 e o fim da década seguinte, sob essa chave: eles não anteciparam apenas a ditadura militar de 1964 a 1985. Anteciparam, com uma precisão desconfortável, o vocabulário com que hoje discutimos desinformação, financiamento estrangeiro de "narrativas" e captura institucional.

## Um bondinho, um golpe e um roteiro que insiste em se repetir

O Quinto Poder talvez seja um dos primeiros filmes brasileiros de ficção científica genuína — ou, com mais precisão, um filme "sério-dramático", para usar a categoria que Ismail Xavier (no livro Alegorias do Subdesenvolvimento, 1993) consagrou em oposição ao registro "lúdico-carnavalesco" que domina boa parte da nossa produção do gênero.

A trama gira em torno de uma potência estrangeira que planeja dominar o Brasil por meio de uma tecnologia de propaganda subliminar irradiada clandestinamente pelas redes de comunicação do país. Sim, O Quinto Poder capitalizava sobre a paranóia da propaganda subliminar, tornada popular depois de um experimento conduzido por James Vicary nos EUA, durante exibições do filme Férias de Amor (Picnic, Joshua Logan, 1955), exibido no Fort Lee Theater, em Nova Jersey.

Sobre os rostos de William Holden e Kim Novak teriam sido projetados, 12 vezes por minuto, anúncios com duração inferior a três milésimos de segundo com as frases "coma pipocas" e "beba Coca-Cola". Reza a lenda que as vendas desses produtos teriam aumentado significativamente, embora reedições mais rigorosas do mesmo experimento tenham depois atirado a tese da propaganda subliminar na lata do lixo da ciência séria.

Ainda assim, o mito das mensagens subliminares sobreviveu por décadas no imaginário popular. No caso de O Quinto Poder, esse tema deu ensejo a um thriller hipnótico, pouco conhecido, hoje cult para alguns (o filme pode ser visto integralmente no Canal Brasil ou no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=amcp7zgJHyw&xstg=CAMSEBUJ_b-oH-PhF0yjBgaukzY%3D).

Há nele cenas memoráveis como a do bondinho do Pão de Açúcar, que antecipa um dos filmes de James Bond (com Roger Moore), e um desfecho eletrizante e ao mesmo tempo eloquente no Corcovado, diante do Cristo Redentor.

Guardadas as devidas proporções, O Quinto Poder nos faz lembrar um pouco do cinema de mestres como Alfred Hitchcock e Fritz Lang, tanto quanto do imaginário do cinema de espionagem que se consolidaria na década seguinte (James Bond e quetais). A conspiração que move esse thriller de Pieralisi só não é mais complexa e surpreendente que a própria biografia de seu idealizador e produtor, Carlos Pedregal (saiba mais em https://jornalggn.com.br/artigos/o-espanhol-carlos-pedregal-e-as-mensagens-subliminares/ e https://www.vice.com/pt/article/os-primordios-da-propaganda-subliminar-no-brasil/).

Se trocarmos as "antenas de rádio e TV" por algoritmos de redes sociais, a arquitetura do enredo (uma potência estrangeira que instrumentaliza a mídia hegemônica e financia atores locais para instalar o caos, corroer instituições e manter o país sob tutela) é exatamente a arquitetura que hoje descrevemos com o vocabulário da "guerra híbrida". O Quinto Poder já foi considerado sinistramente premonitório do golpe militar de 1964; revisto hoje, parece manter-se estranhamente atual, mais de 60 anos depois de sua estreia.

Não se trata de projetar sobre um filme de 1962 uma leitura anacrônica só porque nos convém. Trata-se de reconhecer que a ficção científica brasileira, sobretudo ao longo dos anos 1960 e 70, funcionou de forma eloquente como uma "alegoria do subdesenvolvimento" (emprestando o conceito cunhado por Ismail Xavier) — uma forma de "dizer o outro" em códigos cifrados, sob tempos de censura. Se nos anos 1968-69 em diante o gênero forneceu a cineastas como Walter Lima Jr. - diretor de Brasil ano 2000 (1969), sobre um país ainda governado por militares após uma hipotética guerra nuclear - a sintaxe necessária para driblar a ditadura, hoje talvez seja a hora de reconhecer que esses mesmos filmes já continham, avant la lettre, o diagnóstico do que voltamos a viver: uma elite doméstica disposta a ceder soberania em troca de manutenção de privilégio, e uma potência estrangeira disposta a financiar essa cessão.

## O homem comum, a Guerra Fria e o futuro que julga os jovens

Ao lado de O Quinto Poder, dois outros títulos ainda merecem ser lembrados. O Homem que Comprou o Mundo (1968), de Eduardo Coutinho, é outro exemplar dessa linhagem de ficção científica dotada de visões inspiradas do Brasil sobre o tabuleiro geopolítico internacional. O filme acompanha um homem comum enredado contra a própria vontade numa trama internacional em plena Guerra Fria - misturando espionagem, ficção científica e comédia numa combinação que, revista hoje, funciona como metáfora do cidadão brasileiro médio: personagem involuntário de um jogo geopolítico que o ultrapassa, mas cujas consequências recaem inteiramente sobre ele.

Já Manhã Cinzenta (1969), curta-metragem de Olney São Paulo, retrata o Brasil de um futuro (então) próximo no qual a ditadura militar recorre a tecnologias como robôs e inteligência artificial para julgar e reprimir jovens que se rebelam contra o sistema. Com uma trágica história de bastidores que culminou na prisão de seu realizador, Manhã Cinzenta é um filme perturbador. Tal como os longas Parada 88: O Limite de Alerta (José de Anchieta, 1978) ou Abrigo Nuclear (Roberto Pires, 1981), usa a semântica e a sintaxe da ficção científica para dizer o que não podia ser dito diretamente.

Ecos desses filmes reverberam ainda hoje, mesmo que de um jeito diferente, num momento em que a corrosão dos sustentáculos do Estado e a soberania nacional voltaram ao centro do debate público no Brasil.

Não que esses temas nos fossem estranhos ultimamente. Mas é fato que, desde a redemocratização, e sobretudo a partir da hecatombe promovida pelo governo Bolsonaro, escamoteiam-se por detrás de velhos fantasmas (comunismo, inflação, corrupção) os verdadeiros objetos da cobiça, o que realmente está em jogo: soberania nacional, riquezas do país e crescimento da nossa economia no contexto dos BRICS.

Felizmente, tais espectros são tão translúcidos e etéreos que se desmancham no ar. Mas como ainda fazem estrago, nublando a vista de praticamente 50% de nosso eleitorado…

Por que resgatar esses filmes agora

Não estou sugerindo que os cineastas dos anos 1960, de filmes como O Quinto Poder ou Manhã Cinzenta, pudessem prever a conjuntura de 2026. Estou sugerindo algo mais modesto e, a meu ver, mais interessante: que a ficção científica brasileira, precisamente por operar numa "atmosfera rarefeita" (poucos filmes, mas recorrentes nos momentos de maior tensão nacional), funciona como um barômetro das ansiedades brasileiras diante da modernização e da emancipação, da dependência externa e da fragilidade das nossas instituições.

Não é coincidência que o gênero volte a parecer urgente exatamente quando o Supremo Tribunal Federal é atacado publicamente por atores que também atacam a soberania jurisdicional brasileira, quando se aproximam eleições marcadas pela desinformação organizada, e quando se acumulam indícios de que uma potência estrangeira - os Estados Unidos - financia institutos, juristas e políticos interessados na manutenção do Brasil como espaço de exploração e aliado subalterno.

O Quinto Poder não é só um curioso artefato de arquivo. Talvez seja, hoje, uma das ficções especulativas do cinema brasileiro mais eloquentes para explicar, em noventa minutos de 1962, o que estamos vivendo em 2026.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Alfredo Suppia não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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