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Como a ideologia nazista usou e abusou de animais

Como o amor aos animais e o fanatismo racial andaram lado a lado? Livro 'Animais no nacional-socialismo' procura investigar essa questão

13 jun 2020
08h51
atualizado às 10h06
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Em muitas fotos, Hitler pode ser visto ao lado de sua cadela Blondie
Em muitas fotos, Hitler pode ser visto ao lado de sua cadela Blondie
Foto: DW / Deutsche Welle

A poucos passos do crematório do campo de concentração de Buchenwald, perto da cidade de Weimar, havia alguns cercados de animais e um lago de peixes-dourados. Macacos faziam cambalhotas em gaiolas, pássaros gorjeavam em aviários e havia até ursos-pardos.

O pequeno zoológico destinava-se a oferecer "distração e entretenimento" aos homens que almoçavam ali, escreveu o comandante do campo de concentração Karl Koch, que havia financiado o zoo inaugurado em 1938 com "doações" extorquidas de prisioneiros.

"Amantes de animais" que matam pessoas

Obviamente, o zoo não se destinava aos prisioneiros e trabalhadores forçados em Buchenwald. Eles construíram os recintos e cuidavam dos animais, mas apenas o pessoal da SS no campo de concentração tinha permissão para fazer uma pausa por lá: vigias, pessoal civil e guardas que maltratavam, torturavam e matavam prisioneiros do outro lado da cerca elétrica. E às vezes os jogavam na jaula de ursos, porque o comandante do campo de concentração Koch se divertia vendo os ursos os balançarem.

De um lado da cerca, pessoas e animais; do outro, prisioneiros classificados como "sub-humanos" pela ideologia racista nacional-socialista: esse cenário reflete a brutal visão de mundo dos nazistas. Os animais tiveram um papel importante nisso.

"Às vezes eles serviam de exemplo, às vezes como inimigo, às vezes eram apenas um meio para atingir um fim", diz Jan Mohnhaupt, autor do livro Tiere im Nationalsozialismus ('Animais no nacional-socialismo'), que também conta a história do zoológico de Buchenwald. "Quem quiser aprender algo sobre a arbitrariedade e a contradição do regime nazista, não deve negligenciar o papel dos animais."

Até agora, a pesquisa sobre o nazismo abordou pouco o tema dos animais, "porque há receios de que o foco nos animais leve à banalização das vítimas humanas", diz Mohnhaupt, citando o historiador Mieke Roscher, que é o único professor de estudo humano-animal da Alemanha, na Universidade de Kassel. Um medo injustificado ‒ como mostram os seguintes episódios do livro.

Culto ao predador: "como lobos num rebanho de ovelhas"

Os cães favoritos de Adolf Hitler foram pastores-alemães. Uma raça de cachorro obediente (razão pela qual também foi usada como cão de guarda em campos de concentração) e que se assemelha ao ancestral lobo. Hitler admirava lobos. Ele gostava de ser chamado pelo apelido de "lobo" por amigos. Seus quartéis-generais na Segunda Guerra Mundial chamavam-se "Wolfsschlucht" ou "Wolfsschanze" (desfiladeiro do lobo ou fortaleza do lobo).

A propaganda nazista trabalhou com a imagem do "lobo selvagem", anos antes de Hitler chegar ao poder. Em 1928, Joseph Goebbels, ministro da Propaganda no nazismo, ameaçou os políticos democráticos da República de Weimar na campanha eleitoral: "Viemos como inimigos! Como o lobo que invade o rebanho de ovelhas, assim viemos." Cinco anos depois, em 1933, os nazistas colocavam fim à República de Weimar. A primeira democracia alemã fracassou.

Propaganda com animais: cães de Hitler, leões de Göring

Frequentemente, o líder dessa cruel "elite", Adolf Hitler, pôde ser visto em fotos ao lado de sua cadela Blondie. O vice de Hitler, Hermann Göring, que também era "o caçador do Reich", mostrava-se mais raramente com seus animais de estimação: entre 1933 e 1940, ele manteve consecutivamente sete jovens leões, os quais, "para Göring, eram acima de tudo um sinal de poder e validade", como analisa Mohnhaupt.

Muitas vezes, os nazistas também utilizaram modelos históricos: os césares romanos possuíam leões; reis europeus medievais, como Ricardo Coração de Leão e Henrique, o Leão, atribuíam-se com o epíteto qualidades do "rei dos animais": poder, força e coragem.

Gatos como "judeus entre animais"

O fanatismo racista também ficava evidente no alegado amor dos nazistas pelos animais. Assim como os humanos, os animais foram divididos em vidas "dignas" e "indignas". Enquanto grandes felinos, como leões ou panteras, eram admirados, o escritor nazista Will Vesper caracterizou os gatos domésticos como "traiçoeiros, falsos e antissociais", porque eles perseguiam os populares pássaros cantantes.

Segundo Vesper, os gatos seriam os "judeus entre os animais". Isso também tinha uma triste tradição comum na Europa: na Idade Média, presumia-se que gatos e judeus estivessem em aliança com o diabo.

Proibição de animais de estimação para judeus

O escritor Victor Klemperer e sua esposa Eva também tinham um gato, Mujel. Depois que os nazistas chegaram ao poder, Klemperer, judeu, foi gradualmente privado de quase tudo: prestígio, profissão e lar. Desde setembro de 1941, ele teve que usar a "estrela judia" amarela em sua roupa. Pouco tempo depois, os judeus foram proibidos de manter animais de estimação.

Os Klemperers deveriam entregar seu amado gato, seu símbolo de perseverança. "A cauda levantada do gato é a nossa bandeira, nós não a alisamos", observou Victor Klemperer em seus diários. Como não havia como esconder o animal, o veterinário finalmente o abateu. "A proibição de animais de estimação", escreve Mohnhaupt, "foi mais um passo no caminho para concluir a privação de liberdade dos judeus na Alemanha."

Isso foi introduzido a partir de 1941, quando se iniciaram as deportações em massa de judeus para campos de concentração ‒ para que a Gestapo não precisasse cuidar de nenhum animal de estimação deixado para trás.

"Importantes para os esforços de guerra": porcos e bichos-da-seda

Os porcos tinham uma imagem positiva na visão de mundo nazista. Pois, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), eles deveriam alimentar a população alemã. Para eles, a "Ernährungshilfswerk" (agência de ajuda alimentar) dos nazistas chegava até mesmo a coletar sobras de cozinha de residências particulares, sob o slogan "luta contra o desperdício" ‒ uma das primeiras formas de reciclagem.

Outros animais "importantes para os esforços de guerra" eram criados em escolas: bichos-da-seda. Sua seda resistente a rasgos, repelente à água e amplamente resistente ao fogo era necessária para a fabricação de paraquedas. Para tal, professores eram especialmente treinados na cultura do produto. A tarefa dos alunos era alimentar e cuidar dos animais.

A criação de bichos-da-seda "serviu como uma espécie de arma universal no ensino fundamental", diz o autor Jan Mohnhaupt. "Com eles, mostrava-se às crianças não apenas biologia num objeto vivo, mas também a eugenia nazista lhes era transportada de maneira 'compreensível'. Pois uma criação só é possível, diziam os professores aos alunos, se os indivíduos doentes e fracos forem retirados precocemente."

O fanatismo racial nacional-socialista esteve profundamente ancorado na vida cotidiana e na sociedade. A partir daí, não se demorou a chegar aos milhões de assassinatos de pessoas que foram definidas como "indignas": judeus, membros da etnia sinti e roma, pessoas com deficiência, homossexuais, adversários políticos. Também os animais foram usados e abusados pelos nazistas.

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