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Chevrolet Silverado sem cabine é picape que dispensa o motorista para uso militar

Modelo autônomo tem bateria de 100 kWh, leva até 3,6 toneladas e deve passar por testes com o Exército dos Estados Unidos em 2027

15 out 2026 - 05h42
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Resumo
A GM Defense apresentou uma versão militar e sem cabine da Chevrolet Silverado 3500HD, projetada para transporte logístico e resgate de feridos sem motorista a bordo. Com capacidade para 3,6 toneladas, o protótipo será avaliado pelo Exército dos EUA até 2027. A inovação reflete o avanço da tecnologia autônoma em veículos pesados diante da escassez global de condutores, cenário em que os EUA investem na automação enquanto países como o Brasil ainda tentam ampliar a formação de motoristas humanos.

Apertem os cintos: o motorista sumiu. A General Motors (GM) apresentou essa semana uma versão militar e sem motorista da Chevrolet Silverado 3500HD. Desenvolvido pela divisão GM Defense e revelado na feira AUSA 2026, nos Estados Unidos, o veículo foi criado para levar suprimentos e retirar feridos de áreas de risco sem ninguém a bordo. A proposta é aproveitar componentes de veículos comerciais da marca para desenvolver soluções para as Forças Armadas.

Como funciona a Silverado sem motorista

Chevrolet Silverado 3500HD serve de base para o conceito de veículo autônomo |
Chevrolet Silverado 3500HD serve de base para o conceito de veículo autônomo |
Foto: GM/Divulgação / Estadão

O modelo usa a plataforma da picape Silverado 3500HD, com rodas traseiras duplas e controles eletrônicos do tipo drive-by-wire, que comandam as funções do veículo por sinais elétricos em vez de ligações mecânicas. A condução autônoma fica a cargo do sistema Gx Ground Agent, da empresa Scout AI.

Segundo a GM, o protótipo tem bateria de 100 kWh e capacidade de carga de 8 mil libras, cerca de 3,6 toneladas. A plataforma aceita diferentes equipamentos conforme a missão. Na apresentação, a GM Defense exibiu o veículo com um laser antidrone LOCUST X3 e um sensor acústico Squarehead Discovair G2+. O foco declarado do projeto, porém, é a logística e a retirada de feridos, e não o combate.

A Silverado autônoma ainda está em desenvolvimento. A GM Defense pretende entregar um demonstrador tecnológico para avaliação do Exército americano até junho de 2027.

GM amplia presença no Exército dos EUA

A Silverado autônoma faz parte de uma estratégia da GM para aproveitar plataformas de veículos comerciais em contratos militares. A GM Defense também anunciou a expansão do programa Infantry Squad Vehicle (ISV), baseado na Chevrolet Colorado ZR2: a previsão do Exército passou de 649 para quase 12 mil unidades. A empresa ainda disputa com Ford e BC Customs o contrato da versão pesada, o ISV-Heavy, que pode chegar a cerca de 606 veículos. Cada concorrente deve entregar três protótipos até 30 de março de 2027.

Caminhões sem motorista já rodam com carga nos EUA

A Silverado é uma picape, mas a base tecnológica, que combina controles drive-by-wire e software de condução autônoma, é a mesma que já opera em caminhões pesados no transporte civil. A Aurora Innovation começou em abril de 2025 a transportar carga comercialmente com caminhões autônomos em vias públicas do Texas. Até o fim de junho de 2026, segundo a empresa, seus caminhões tinham rodado quase 440 mil milhas (cerca de 708 mil km) sem motorista, sem colisões atribuídas ao sistema.

Caminhão pesado Peterbilt com o sistema de direção autônoma Aurora Driver
Caminhão pesado Peterbilt com o sistema de direção autônoma Aurora Driver
Foto: Aurora/Divulgação / Estadão

A Aurora prevê terminar 2026 com 200 caminhões autônomos em operação e mira mais de 30 mil até 2030. Entre os clientes estão FedEx, Schneider, Uber Freight e Werner. A Volvo Autonomous Solutions, que usa o sistema da Aurora, prevê iniciar operações sem motorista no primeiro trimestre de 2027.

O argumento de produtividade é direto. A empresa afirma que o sistema opera em rotas que excedem o limite federal de 11 horas diárias de direção imposto a motoristas humanos nos EUA.

Falta de motoristas é estrutural

O avanço da autonomia acontece num momento em que o transporte rodoviário enfrenta uma escassez de motoristas que já deixou de ser cíclica. Relatório da IRU, entidade internacional do setor, aponta cerca de 2,9 milhões de vagas de motorista de caminhão sem preenchimento em 18 mercados, o equivalente a 11% da força de trabalho. A taxa de 2025 superou a de 2021 em quase todos os mercados pesquisados.

Na Europa, a escassez chega a 13%, cerca de 502 mil vagas, e aproximadamente dois terços das transportadoras recusam novos contratos por falta de profissionais. A IRU também conclui que salários maiores, sozinhos, já não bastam para atrair e reter motoristas.

Diante desse cenário, a escala da autonomia ainda é pequena. Os 30 mil caminhões projetados pela Aurora para 2030 equivalem a cerca de 1% das vagas abertas apontadas pela IRU.

No Brasil e no México, de acordo com o relatório, restrições estruturais de mão de obra e caminhos de formação pouco desenvolvidos mantêm a escassez elevada. Dados da Senatran analisados pelo ILOS mostram que o país perdeu 1,2 milhão de motoristas de caminhão habilitados em dez anos, passando de 5,6 milhões para 4,4 milhões. CNT e Fitrans estimam um déficit superior a 120 mil motoristas profissionais. A categoria também envelhece: pesquisa da CNTTT feita em janeiro de 2026 com 1.015 motoristas aponta idade média de 45 anos.

O governo federal trata o tema como risco para os próximos anos. "Se o Brasil não enfrentar esse desafio, daqui a cinco ou seis anos teremos um problema de motoristas profissionais", afirma o ministro dos Transportes, George Santoro, em entrevista exclusiva ao Estradão e ao Jornal do Carro concedida em julho. A principal aposta da pasta é a CNH Brasil, que reduziu os custos da habilitação. Segundo o ministro, as aprovações cresceram 25% com o programa, e a próxima etapa prevê parcerias com guardas municipais, polícias e Forças Armadas para formar mais motoristas.

No Brasil, a autonomia começa fora das rodovias

No país, os veículos pesados autônomos avançam primeiro em ambientes controlados. A Vale opera 14 caminhões autônomos com capacidade para até 320 toneladas no Sistema Norte, em Carajás (PA). Em dezembro de 2025, anunciou acordo com Caterpillar e Sotreq para ampliar essa frota nos próximos cinco anos. A mineradora soma mais de 70 equipamentos autônomos em operação no Brasil, entre caminhões, perfuratrizes e máquinas de pátio.

O contraste resume o momento do setor. No Brasil, o governo quer recorrer às Forças Armadas para formar mais motoristas. Nos Estados Unidos, o Exército se prepara para testar um veículo que dispensa o motorista.

Estadão
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