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Como mentira sobre barragens foi de grupos locais a viral com vídeo de Alexandre Garcia

12 set 2023 - 18h26
(atualizado às 18h44)
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Os moradores de cidades próximas ao rio Taquari, no Rio Grande do Sul, presenciaram uma situação alarmante na última segunda-feira (4), quando o nível do rio subiu 13 metros em menos de 12 horas e causou alagamentos.

Imagens do estrago gerado pela torrente de água passaram a circular nos celulares dos moradores — e, a partir daí, surgiu a desinformação de que o desastre foi causado pela abertura simultânea de comportas de três barragens da região.

O Aos Fatos identificou que a alegação enganosa, que viralizou na última sexta (8) ao ser replicada pelo apresentador Alexandre Garcia, circula nas redes pelo menos desde a terça-feira (5) passada. O caso gerou manifestações do ministro da Justiça e do advogado-geral da União, que determinou uma investigação.

  • No Kwai e no X (ex-Twitter), um vídeo que mostra a água da barragem de Castro Alves transbordando no dia 4 foi compartilhado junto da legenda "abriram as comportas das barragens";
  • Moradores da região também relataram nas redes ter recebido, via WhatsApp, a informação de que "comportas" teriam sido abertas;
  • Comentários em reportagens de jornais locais também questionam se as barragens teriam liberado a água sem avisar os moradores;
  • Reportagens de veículos da região, como o GZH, dão conta de que o boato já circulava nas redes desde a segunda-feira (4), quando começaram as enchentes;
  • A teoria não faz qualquer sentido, já que, de acordo com a empresa que administra as hidrelétricas da região, nenhuma delas possui comportas capazes de controlar a vazão.
Imagem aérea da barragem de Castro Alves mostra vazão normal das águas
Imagem aérea da barragem de Castro Alves mostra vazão normal das águas
Foto: Aos Fatos

Barragem. Vazão normal da usina Castro Alves (Reprodução/Ceran)

O jornalista Lucas Marques, do portal Serranossa, de Bento Gonçalves (RS), afirmou ao Aos Fatos que as barragens do Taquari, inauguradas entre 2004 e 2009, sempre foram objeto de desconfiança da população. Em entrevista veiculada na rádio Estação FM 89.5 no dia 6, um homem que teve propriedade invadida pela água culpou as hidrelétricas tanto pela enchente atual como pela ocorrida em 2020. "Tudo começou a acontecer depois dessas barragens. Antes, a água não chegava nas casas", disse o morador.

Na segunda-feira (11), moradores da região foram à Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves pedir a instauração de uma CPI que apurasse a responsabilidade da destruição ocorrida na cidade e nos municípios vizinhos.

'Culpa do PT.' A desinformação ganhou tração após Alexandre Garcia fazer menção à teoria durante o programa Oeste Sem Filtro de sexta-feira (8). Na ocasião, o apresentador defendeu que as causas das enchentes deveriam ser apuradas: "É preciso investigar, que não foi só a chuva, a chuva foi a causa original, mas em governo petista foram construídas […] três represas pequenas que, aparentemente, abriram as comportas ao mesmo tempo", disse.

Contatado pelo Aos Fatos, Garcia explicou que estava se referindo a um ofício enviado pela Prefeitura de Bento Gonçalves (RS). De fato, advogados que representam a cidade encaminharam na sexta-feira questionamentos à Ceran (Companhia Energética Rio das Antas), responsável pelas hidrelétricas. Uma das perguntas se referia a uma possível abertura das comportas das barragens. Em resposta, a companhia explicou que nenhuma das suas estruturas têm comportas capazes de regular a vazão.

De acordo com a prefeitura, o objetivo dos questionamentos era "buscar todas as respostas técnicas para garantir a melhor ação de todos em caso de novos eventos externos".

Ao citar a teoria, Garcia menciona que as barragens teriam sido criadas durante as gestões petistas — o que é verdade, apesar de serem hoje administradas por uma empresa privada. Isso foi interpretado por alguns veículos de imprensa como uma tentativa do apresentador de culpar o governo federal pelo desastre.

  • Em resposta à fala do apresentador, o chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, disse no X (ex-Twitter) que determinou a "imediata instauração de procedimento contra a campanha de desinformação";
  • Flávio Dino (PSB), ministro da Justiça e Segurança Pública, também postou no X que a PF (Polícia Federal) tem conhecimento das mentiras referentes à crise humanitária no Rio Grande do Sul e que "adotará providências previstas em lei";
  • Por ter dito que "fake news é crime", a publicação do ministro foi sinalizada como desinformativa em uma nota da comunidade da rede. A marcação é feita por usuários e não passa por moderação da plataforma;
  • A Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) também publicou um desmentido sobre o assunto na tarde da última segunda-feira (11).
Post em que o ministro Flávio Dino afirma que fake news é crime e que a Polícia Federal adotará as providências previstas em lei. Abaixo da publicação, uma nota inserida pela comunidade do X sinaliza que a fala do ministro é desinformativa
Post em que o ministro Flávio Dino afirma que fake news é crime e que a Polícia Federal adotará as providências previstas em lei. Abaixo da publicação, uma nota inserida pela comunidade do X sinaliza que a fala do ministro é desinformativa
Foto: Aos Fatos

Nota da comunidade. Publicação em que o ministro Flávio Dino afirma que 'fake news é crime' foi sinalizada como desinformativa por usuários do X (Reprodução)

As tentativas de desmentir o boato, no entanto, não foram suficientes para conter a sua disseminação. A fala de Garcia continua sendo compartilhada nas redes, principalmente no TikTok e no Kwai, nos quais acumula centenas de milhares de visualizações.

Entre segunda (11) e terça-feira (12), também passaram a circular novas gravações de supostos moradores de Roca Sales (RS), que afirmam que a enchente não foi um desastre natural, mas sim um incidente causado pela abertura das comportas. As filmagens acumulam ao menos 600 mil visualizações nas redes de vídeos curtos e milhares de compartilhamentos no Facebook.

Aos Fatos
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