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Ceuta: a fronteira que a Europa terceirizou para a África

A busca dos culpados pelas 70 mortes ocorridas quando milhares de jovens atravessaram a nado o trecho que separa o Marrocos do enclave espanhol de Ceuta diz mais sobre a política de fronteiras europeia do que sobre quem "abriu a torneira" que resultou na tragédia

13 ago 2026 - 11h02
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Entre a quinta e o sábado da última semana, uma faixa de terra de dez quilômetros de extensão e cerca de 84 mil habitantes recebeu, segundo as estimativas do Ministério do Interior espanhol, algo próximo de 60 mil pessoas. Ceuta — cidade espanhola encravada no norte da África, cercada por território marroquino — viu suas ruas se encherem de jovens, em sua maioria marroquinos, mas também de origem subsaariana, que contornaram a nado a fronteira marítima ou saltaram as cercas.

Muitos beijaram o chão ao chegar. Ao menos setenta pessoas morreram na tentativa — algumas contagens já falam em oitenta —, afogadas ou esmagadas na travessia. Em poucos dias, com o Exército mobilizado em apoio à Guarda Civil e as forças marroquinas voltando a bloquear os pontos de saída, quase todos haviam retornado ao Marrocos, boa parte por vontade própria, diante da falta de comida e abrigo no enclave.

O episódio foi imediatamente absorvido por uma disputa de narrativas cujo verdadeiro objeto não é o sofrimento de quem atravessou, mas o controle sobre o sentido político do acontecimento. E é essa disputa — mais do que os números — que merece a atenção de quem estuda fronteiras.

A gramática da "arma migratória"

A leitura hegemônica chegou pronta. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez classificou a entrada em massa como um "ataque" e uma "violação da integridade territorial" da Espanha, atribuindo a mobilização a redes de tráfico que teriam disseminado uma interpretação distorcida de uma decisão do Supremo Tribunal espanhol de 29 de junho — a de que migrantes que chegam por mar não podem ser deportados sumariamente sem o devido processo.

A embaixadora marroquina em Madri apressou-se a dizer que a situação "não era desejada pelo Reino do Marrocos". No plano europeu, vinte e dois chefes de governo já haviam, em carta a Ursula von der Leyen, apontado o programa de regularização anunciado por Sánchez em janeiro — que previa cerca de 500 mil pessoas e recebeu mais de um milhão de pedidos — como um "fator de atração".

Essa gramática tem nome na literatura. A cientista política Kelly Greenhill cunhou a expressão weapons of mass migration para descrever a "migração coercitiva engendrada": deslocamentos deliberadamente provocados ou manipulados por um Estado para arrancar concessões políticas, militares ou econômicas de outro. Seu argumento mais fino é que essa coerção funciona justamente contra democracias liberais, que pagam o que ela chama de "custos de hipocrisia" quando seu compromisso declarado com os direitos humanos colide com a vontade de barrar os indesejados.

O cientista político Gerasimos Tsourapas ampliou o quadro com o conceito de "diplomacia migratória", mostrando como a mobilidade humana é usada como moeda de barganha em estratégias de vinculação de temas, tanto de forma cooperativa quanto coercitiva.

O precedente que dá lastro a essa leitura é recente. Em 2021, cerca de oito mil pessoas entraram em Ceuta depois que o Marrocos afrouxou seus controles em meio à disputa sobre o Saara Ocidental — episódio amplamente interpretado como retaliação, e que só se resolveu quando a Espanha passou a apoiar o plano de autonomia marroquino em 2022. Ler 2026 pela mesma chave é, portanto, tentador: Ceuta como alavanca de pressão do Marrocos sobre Madri, tese que a própria literatura sobre os enclaves já registrava.

O problema de transformar pessoas em armas

O problema é que essa moldura não é neutra: ela é, ela mesma, uma prática de fronteira. Como argumenta o pesquisador Lior Marder em uma crítica direta à metáfora de Greenhill, associar refugiados a "armas de destruição em massa" converte-os em objetos de um duelo entre Estados, securitiza o problema de saída e naturaliza soluções restritivas.

Quando o debate se organiza em torno de quem "abriu a torneira", os corpos que atravessam deixam de ser sujeitos com projetos de futuro e passam a ser munição na contabilidade diplomática. Setenta mortos viram efeito colateral de uma disputa entre chancelarias.

Deslocar o olhar para baixo revela outra história. A taxa de desemprego entre marroquinos de 15 a 24 anos beira os 37% — e foi a insatisfação juvenil, alimentada pela percepção de gastos públicos vultosos na infraestrutura de estádios para a Copa do Mundo de 2030, coorganizada por Espanha, Portugal e o próprio Marrocos, que animou os protestos da geração Z no país no ano passado. A ironia é densa: o mesmo eixo Rabat-Madri que será celebrado como cooperação esportiva em 2030 é hoje o cenário de uma vala comum marítima.

Uma fronteira vertical, e colonial

É aqui que uma leitura decolonial da fronteira se torna indispensável. A cerca de Ceuta não marca simplesmente o limite entre a Espanha e o Marrocos; ela é o ponto mais visível de um regime de fronteira que a União Europeia externalizou para o território de seus vizinhos africanos, terceirizando a contenção — e a violência — para o outro lado do Mediterrâneo.

A socióloga Rosa Soriano-Miras descreve o Marrocos como uma "fronteira vertical" da UE: uma linha que já não coincide com o mapa, mas atravessa o país de cima a baixo, filtrando quem pode e quem não pode se aproximar da Europa. Nessa engrenagem, o Marrocos não é apenas um Estado que ocasionalmente "chantageia" Madri; é um guardião pago do regime europeu, cuja capacidade de pressão é, ela própria, produto da dependência que a externalização cria.

O enclave concentra essas contradições. O antropólogo Juan Pablo Aris Escárcena mostra como Ceuta, antiga praça colonial, se tornou um laboratório onde lógicas securitárias e humanitárias se imbricam para governar a mobilidade.

O professor de justiça social Corey Johnson e o geógrafo Reece Jones leem a vizinha Melilla como um espaço onde a biopolítica e a geopolítica da fronteira expõem a lógica imunitária da soberania territorial.

E a pesquisa etnográfica de Elsa Tyszler no corredor marroquino-espanhol demonstra que a externalização não apenas bloqueia trajetórias: ela produz uma vulnerabilização racializada e de gênero, sobretudo das mulheres, ao longo de toda a rota. A violência da fronteira, nessa literatura, não é um acidente do sistema — é seu funcionamento normal.

Nada disso apaga a dimensão diplomática do episódio. O Marrocos tem, sim, interesses e alavancas, e é legítimo analisá-los. Mas quando Sánchez anuncia barreiras flutuantes no mar de Ceuta, e quando Itália e França reforçam controles em suas próprias fronteiras em resposta ao ocorrido, o que se consolida não é uma solução para as causas, e sim mais uma camada do mesmo regime que produziu as mortes.

A moldura da "arma migratória" cumpre exatamente essa função: torna invisível a pergunta que deveria organizar o debate. Não quem mobilizou 60 mil pessoas, mas por que atravessar dez quilômetros de mar continua sendo, para tantos jovens do outro lado da fronteira colonial da Europa, uma aposta que vale a própria vida.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Matheus Felten Fröhlich não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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