Canetas emagrecedoras e visão: conselho de oftalmologia alerta após investigação da Anvisa
Entidade recomenda atenção a alterações visuais, mas ressaltam que as evidências ainda não confirmam uma relação direta com a doença ocular
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia alerta usuários de canetas emagrecedoras a monitorarem a visão após a Anvisa registrar 13 notificações de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA), condição rara que pode causar perda súbita da visão. Apesar de investigações sobre a ligação entre o fármaco e a doença, ainda não há comprovação de relação causal. A entidade não indica a suspensão dos remédios por conta própria, mas recomenda acompanhamento médico e exames regulares.
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) passou a orientar usuários de canetas emagrecedoras a prestar atenção a possíveis alterações na visão enquanto a Anvisa analisa 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA).
A entidade, no entanto, não recomenda que os pacientes suspendam os medicamentos por conta própria. Quem apresentar alguma queixa visual deve procurar um oftalmologista. Já aqueles que não perceberem sintomas podem conversar com o profissional responsável pela prescrição para avaliar a necessidade de acompanhamento dos olhos.
Canetas emagrecedoras podem provocar a doença?
A discussão chamou atenção a partir de 2024, depois que um centro médico dos Estados Unidos identificou mais casos da condição entre pessoas que utilizavam esses medicamentos. Desde então, diferentes pesquisas tentam entender se existe uma associação.
O CBO ressalta, contudo, ainda não há evidências suficientes para estabelecer uma relação de causa e efeito. Segundo Mauro Goldbaum, secretário-geral da entidade, uma das limitações está na forma como parte desses estudos foi conduzida.
"Você pega um banco de dados e avalia os pacientes que usaram e os que não utilizaram a canetinha. Não temos o controle se esses dois grupos são realmente equivalentes. Intuitivamente imaginamos que o grupo que usou canetinha provavelmente já era mais doente, com diabetes e obesidade, senão não usaria", explicou em entrevista à 'Folha de São Paulo'.
Além disso, os resultados disponíveis não apontam na mesma direção. "Não se conhece o mecanismo por trás dessa possível associação. Há estudos indicando a associação e estudos que não mostram esses resultados. Mesmo se essa associação seja comprovada, os estudos sugerem que o risco continua sendo muito baixo", afirmou.
"Vemos que existe essa possibilidade, mas com efeito limitado. Não tem uma epidemia, não aumenta de uma forma expressiva o risco de Noiana. Alguns estudos sugerem que ela não dobra. Ao invés de ter um paciente a cada 10 mil, um caso a cada 10 mil, teríamos 1,5 ou 1,7 a cada 10 mil. É uma doença muito rara mesmo com a possibilidade dessa correlação", complementou.
O que é a NOIA-NA?
Na NOIA-NA, uma falha na circulação compromete a parte anterior do nervo óptico, responsável por levar ao cérebro as informações captadas pelos olhos. Quando essa região deixa de receber sangue suficiente, pode ocorrer perda repentina da visão.
O quadro geralmente não provoca dor nem vermelhidão. A pessoa pode perceber, por exemplo, uma falha na parte superior ou inferior do campo visual. Algumas características anatômicas também aumentam a vulnerabilidade.
"Alguns pacientes têm a cabeça do nervo pequena. É uma característica estrutural do olho. Chamamos de 'crowded disc' (disco óptico espremido). Por ser um canal muito pequeno, as artérias, as veias e as fibras nervosas têm menos espaço e ficam um pouco comprimidas, o que aumenta a chance de ocorrer um entupimento desses vasos e provocar a doença", esclareceu o médico.
A condição aparece com maior frequência em pessoas acima dos 50 anos. Outros fatores associados incluem diabetes, obesidade, hipertensão e tabagismo. Entretanto, não há, neste momento, recomendação do CBO para suspender as canetas emagrecedoras apenas devido à investigação. A entidade orienta que qualquer decisão sobre a continuidade do tratamento seja tomada com o médico responsável.
"Como esses pacientes já necessitam de acompanhamento oftalmológico regular para prevenir complicações como a retinopatia, a estratégia é evitar a automedicação, manter o monitoramento médico rigoroso e discutir individualmente a continuidade do tratamento", apontou Goldbaum.
O próprio conselho reforça que o acompanhamento pode ajudar a identificar alterações ainda no início. "Essa situação reforça a necessidade da avaliação contínua das evidências científicas e do monitoramento oftalmológico, por meio de consultas e exames regulares, com o objetivo de detectar precocemente qualquer alteração na visão, seja uma complicação da própria doença ou do tratamento", diz a nota.
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