Café mais caro: Como as mudanças climáticas estão por trás da alta no Brasil
Além de seu enorme espaço em diferentes momentos do dia, o café representa, para muitos, uma bebida que remete a diferentes afetos e lembranças. O problema é que, atualmente, esse "afago" em tantas rotinas brasileiras tem custado um pouco mais do que o normal
Uma boa conversa, um momento compartilhado entre famílias e amigos, um bolo ou pão e…um cafezinho. Expresso, longo, com leite ou puro, o café é uma das bebidas mais consumidas em todo o mundo: são mais de 10 milhões de toneladas do grão comercializadas anualmente, segundo o relatório da International Coffee Organization (ICO) de 2025.
Além de seu enorme espaço em diferentes momentos do dia, o café representa, para muitos, uma bebida que remete a diferentes afetos e lembranças. O problema é que, atualmente, esse "afago" em tantas rotinas brasileiras tem custado um pouco mais do que o normal.
Desde 2024, o preço no Brasil vem enfrentando um aumento significativo. Em janeiro de 2025, o café arábica (principal espécie cultivada e comercializada no país) atingiu uma marca histórica de aumento de valor: subiu cerca de 2% em seu índice de preço, atingindo US$ 3.489 (aproximadamente R$18,91) por libra-peso de acordo com a Intercontinental Exchange (ICE), referência global do mercado para o preço do café.
Preços mais elevados são o resultado de um problema que atingiu seu ápice em 2024, com mudanças que afetaram diretamente a produção em alguns dos principais pólos cafeeiros do país: Minas Gerais e São Paulo. Secas duradouras, ondas de calor intenso e desnível no índice de chuvas fizeram com que, em 2024, o preço do café subisse 70% na bolsa de Nova York, atingindo o maior valor desde 1977. Para o consumidor, as consequências também são rápidas: no início de 2025, o quilo do café torrado e moído chegou a custar R$56,10.
O aumento do preço do café poderia ser o resultado de eventos meteorológicos isolados ou até mesmo de nuances políticas, como o "tarifaço" dos Estados Unidos que engloba atualmente a economia brasileira; no entanto, nesse caso, o problema é um pouco mais grave. As mudanças climáticas estão por trás do aumento direto do valor da bebida.
Com os efeitos do aquecimento global cada vez mais presentes em todo o planeta, a diminuição das colheitas e aumento do valor do grão, que produz uma das bebidas mais consumidas e simbólicas culturalmente em todo o mundo, é apenas mais um dos impactos diretos do aquecimento global no cotidiano de cada um.
Causas por trás da baixa na produção do Café Arábica
Tentando entender as condições por trás do encarecimento do café, pesquisadores da Universidade Federal de Itajubá (MG) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) analisaram, através de dados de culturas de café arábica em São Paulo e Minas Gerais, as causas e projeções para o cultivo do café mediante as mudanças climáticas. Os resultados, por sua vez, não foram muito animadores.
O grão do café arábica possui condições particulares de temperatura para uma boa safra: entre 18 °C e 22 °C, não se desenvolvendo bem nem no calor extremo e nem em temperaturas mais baixas. Desde a Revolução Industrial, o planeta já aqueceu cerca de 1,1°C e está perto de alcançar o número estipulado no Acordo de Paris, criado na COP21 (2015), que delimita que o planeta não chegue a um aumento de 2°C acima dos níveis pré-industriais.
A combinação de calor intenso e maiores períodos sem chuvas cria um cenário desafiador para a planta do café, especialmente o arábica, que funciona como um organismo sensível ao equilíbrio do clima. É como se ela fosse um atleta acostumado a correr em temperatura amena e, de repente, fosse obrigada a competir em um deserto sem sombra. Nessas condições, o rendimento cai e o risco de falhas na produção aumenta, com grãos mais "miúdos" e secos, que não podem ser tão bem aproveitados.
Como o grão do café reage às mudanças climáticas?
As previsões do artigo, publicado na Science of the Total Environment (ScienceDirect), indicam que, se o ritmo atual de aquecimento global se mantiver, até 75% das áreas hoje destinadas ao cultivo de arábica no Brasil podem se tornar economicamente inviáveis até o fim do século.
Em contrapartida, algumas regiões mais altas podem experimentar ganhos temporários de produtividade, já que o aumento de gás carbônico (CO2) no ar atua como um fertilizante natural. Ou seja: quanto mais calor, mais CO2 e, em regiões mais frias, as temperaturas ficam mais amenas, o que é bom para o cultivo. No entanto, esse "benefício" no aumento da emissão de CO2 pode ser rapidamente anulado pela intensificação de pragas, doenças e eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e ondas de calor cada vez mais comuns.
"Como as pragas e doenças dependem principalmente da temperatura e da umidade, com o aumento do calor algumas tendem a desaparecer, mas outras ficam muito mais severas. No Sul de Minas, por exemplo, a ferrugem [doença que acomete a planta causada pelo fungo Hemileia vastatrix] deve se tornar mais intensa.", explicam a pesquisadora Cássia Gabriele Dias, pós-doutoranda do Programa de Pós-graduação em Meio Ambiente e Recursos Hídricos (POSMARH) da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), e Fabrina Bolzan Martins, engenheira florestal e professora da UNIFEI, pesquisadora em temas ligados à agrometeorologia e modelagem agrícola e orientadora da pesquisa de Cássia.
Aquacrop: Prevendo cenários possíveis com o clima
Para entender como o clima pode redesenhar o futuro do café no Brasil, os pesquisadores utilizaram o AquaCrop, um modelo desenvolvido pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) que funciona como uma espécie de "simulador agrícola". Ele permite projetar como a planta reage diante de diferentes condições de temperatura, chuva e disponibilidade de água. A pesquisa foi alimentada com dados reais de lavouras de Minas Gerais e São Paulo, fornecidos por cooperativas como a Cooxupé.
Uma vez calibrado para o café arábica, o modelo pode ser usado em qualquer parte do mundo. Como explicou Cássia, "na hora que a gente calibra, estamos calibrando para uma cultura, e podemos aplicar essa calibração em qualquer local do mundo, inclusive para o café arábica". Isso garante que os cenários não fiquem restritos ao eixo mineiro-paulista, mas ajudem também a compreender riscos em outras regiões produtoras do Brasil e até em outros países tropicais.
Os resultados mostraram que, em alguns lugares, o ciclo do café poderá ser até 100 dias mais curto, levando a colheitas em plena estação chuvosa, um problema que aumenta perdas e reduz a qualidade dos grãos. Outro ponto de alerta foi a tendência de migração do cultivo para áreas mais altas, embora essa adaptação seja limitada por questões de solo, geopolíticas e de custo.
Fabrina também destaca que é importante entender a diferença entre o cenário climático global e eventos isolados frente ao impacto na produção do café: "Não podemos confundir eventos extremos com cenários climáticos. Os extremos, como secas e ondas de calor, já estão mais intensos e duradouros. Já os cenários projetam futuros possíveis ,do mais brando ao mais severo , dependendo das ações globais para reduzir impactos."
O café no mundo
O Brasil segue como o maior produtor e exportador de café do mundo, respondendo por cerca de 38% da produção global e estimando uma safra de cerca de 65 milhões de sacas de arábica na temporada 2025/26. Esse domínio torna o país um pilar no mercado mundial do grão: qualquer oscilação na produção brasileira repercute diretamente na oferta global e, por consequência, no comportamento dos preços. Além disso, segundo relatório da FAO, as condições climáticas adversas atuam não só no Brasil, mas em outros países-chave na produção do grão, como Vietnã e Indonésia.
Atualmente, no Brasil, o preço do café diminuiu em relação aos índices recordes atingidos em 2024, mas ainda está bastante acima do esperado: entre R$36 e R$39 por kg. Fabrina explica que há freios econômicos que contêm o impacto final, pelo menos no Brasil, que poderia ser ainda pior: "Era para estar ainda maior o preço do café. É a política econômica que está tentando manter o preço, porque senão a saca já estaria beirando valores históricos." Esse controle ajuda a amortecer o choque para o consumidor, mas a pressão pode persistir por meses: também de acordo com a FAO, em estimativas mundiais, 80% do aumento do preço do grão chega ao consumidor em até um ano.
Ana Maria Heuminski de Avila, climatologista, graduada em Meteorologia pela Universidade Federal de Pelotas, mestre em Fitotecnia com ênfase em Agrometeorologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutora em Engenharia Agrícola pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), também aponta que os efeitos do clima não estão apenas nas projeções científicas, mas já são visíveis no campo: "A adaptabilidade do agricultor hoje já está sendo testada na prática: altas temperaturas e chuvas irregulares são realidade no campo, não apenas previsão do futuro."
Sobre a capacidade do modelo Aquacrop em produzir previsões confiáveis para a produção cafeeira, Ana concorda: "Esses modelos usam o que já conhecemos do clima e da cultura do café para projetar cenários. Eles não são previsões exatas, mas norteadores, pois sempre há incertezas. Existem modelos mais simples e mais complexos, e a escolha depende dos dados disponíveis para o pesquisador."
Políticas ambientais e soluções com agroflorestas
Entre as alternativas de mitigação dos impactos climáticos na plantação do café, estão apontadas as práticas de agrofloresta, em que outras mudas e árvores são cultivadas junto ao café para criar novas vegetações ao redor das áreas de plantio.
Essa cobertura natural fornece sombra, reduz a temperatura do solo e ajuda a reter umidade, funcionando como um amortecedor contra ondas de calor e secas prolongadas. Como explica Cássia, "já existem agricultores que estão investindo em consórcios com árvores e até com banana, justamente para proteger a lavoura com outros plantios". No mesmo contexto, é preciso entender que para práticas de agroflorestas, é necessário saber diferenciar quais cultivos funcionam bem ou não próximos ao café e ao tipo de solo.
Ao mesmo tempo, medidas como irrigação mais eficiente, manejo integrado de pragas e o desenvolvimento de novas cultivares adaptadas ao calor estão em curso. Segundo Fabrina, empresas públicas já trabalham para lançar mudas mais resistentes nos próximos anos. Mas ela destaca que a resposta não pode ficar apenas no campo individual: "As cooperativas se organizam muito mais rápido que as políticas públicas e já começam a implementar essas medidas. Mas é preciso que os governos também assumam esse papel".
Essas estratégias são especialmente urgentes para os pequenos agricultores, que têm menos recursos para migrar para novas áreas ou investir em tecnologias caras, ao mesmo tempo que executam um dos papéis principais na produção cafeeira brasileira. A climatologista Ana reforça que "não basta esperar que o produtor se adapte sozinho; é fundamental que políticas públicas apoiem práticas de baixo custo e maior resiliência climática". No fim, a manutenção do café brasileiro - referência de exportação mundial - com um preço acessível para a população nos próximos anos, que podem ser cada vez mais quentes, depende de ações conjuntas: do agricultor, das cooperativas e, principalmente, do Estado brasileiro.
*Larissa Mariano é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero. Atuou em redações de entretenimento e economia, com passagens pelo portal Terra e pelo Jornal Joca. Atualmente, também produz conteúdo para o PlanetaEXO, plataforma que desenvolve o ecoturismo no Brasil.