Brics, EUA, Mercosul: as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para política externa
Lula e Flávio Bolsonaro apresentam visões opostas de política externa. Lula aposta na soberania, no multilateralismo, no fortalecimento do Brics — propondo moedas alternativas ao dólar — e na integração via Mercosul, em meio a tensões com Israel. Flávio defende um alinhamento direto aos EUA de Donald Trump, cogita rever a adesão ao Brics e ao Mercosul para priorizar acordos bilaterais, além de planejar a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, estreitando os laços com Israel.
Candidatos têm visões completamente opostas em temas de política externa. Lula propõe aposta em multilateralismo e reforço do Brics. Já Flávio fala em aliança com EUA de Trump e se "libertar das amarras do Mercosul".Em uma eleição presidencial que ocorre à sombra de tensões internacionais, os programas de governo dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro(PL), apresentam propostas e visões diametralmente opostas em temas de política externa.
As diferenças de visão de mundo são explícitas quando se trata de temas como relações com os Estados Unidos, a participação do Brasil no Mercosul e no Brics, e até relações com Israel.
Os programas de governo dos dois candidatos protocolados junto à Justiça Eleitoral são vagos em vários temas específicos de política externa que vêm dominando o noticiário, muitas vezes sem detalhar propostas ou metas. Temas como relações com a União Europeia e as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, por exemplo, estão completamente ausentes das propostas.
Mas falas e ações de Lula e Flávio Bolsonaro nos últimos meses permitem preencher algumas lacunas e apontar que direção os dois candidatos pretendem dar à diplomacia brasileira nos próximos quatro anos.
Lula: "soberania" como tema prevalente
Em seu programa de governo, Lula deu preferência em listar realizações de política externa do seu atual mandato, mas há diretrizes sobre como a administração pretende continuar a se portar. Em linha com a atual postura do Planalto, o programa menciona várias vezes a importância de reafirmar a "soberania" e a "independência" do Brasil.
O plano ainda abraça o multilateralismo e aponta que a "integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil". Lula também fala em uma maior aproximação com a Ásia, a África, o Oriente Médio "para ampliar a cooperação política, econômica, tecnológica e cultural".
Lula ainda voltou a bandeiras tradicionais do seu governo, como a defesa do Conselho de Segurança da ONU e de organismos como Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial OMC.
No atual mandato de Lula, o Itamaraty é comandado pelo ministro Mauro Vieira, um diplomata de carreira, que já havia ocupado o posto no governo Dilma Rousseff. Lula ainda conta com Celso Amorim, outro veterano, no cargo de assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais.
Flávio Bolsonaro: política externa "anti Lula"
O plano de diretrizes de governo de Flávio Bolsonaro é bastante breve em política externa, dedicando apenas duas páginas ao assunto, com boa parte dos parágrafos sendo usados para criticar a diplomacia da administração Lula em temas como Venezuela e Irã, argumentando que "política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos".
"Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia", disse Flávio Bolsonaro, que é alinhado com os governos de ultradireita dos EUA, Argentina e Israel.
De específico, o programa de Flávio menciona que seu governo pretende retomar a inserção do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, de maneira mais genérica, o plano fala em aumentar a abertura comercial e ampliar acordos que abram novos mercados para o Brasil.
Flávio não divulgou oficialmente nomes que podem comandar o Itamaraty sob sua gestão. Em janeiro, ele chegou a dizer que o irmão Eduardo Bolsonaro, que foi condenado à prisão e hoje vive nos EUA sob a proteção do governo de Donald Trump, poderia comandar a pasta do exterior. No entanto, Flávio passou a desconversar sobre o tema após reação negativa de empresários e políticos aliados.
Brics
Lula: fortalecimento do bloco e defesa de alternativa ao dólar
O programa de Lula menciona o Brics três vezes. Atualmente, o Brics é formado por dez países: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Foi no segundo governo Lula que o bloco foi formado, com o Brasil entre seus fundadores.
No seu programa, Lula defende o aprofundamento das relações entre países do Brics e o fortalecimento de mecanismos financeiros do bloco - uma medida que é vista com hostilidade pelos EUA de Trump, que temem que o Brics possa minar a hegemonia do dólar no comércio mundial.
Desde que voltou ao Planalto, em 2023, Lula também defendeu publicamente que o bloco deveria adotar uma moeda de referência alternativa ao dólar para trocas comerciais entre países do Brics ou que os países usem suas próprias moedas locais. Em fevereiro, por exemplo, Lula mencionou essa possibilidade em entrevista a uma rádio da Índia. "Não é necessário que um acordo comercial entre Brasil e Índia precise ser feito em dólares americanos. O que eu defendo é que podemos usar nossas próprias moedas", disse.
Flávio Bolsonaro: retirar o Brasil do Brics?
O programa de Flávio não menciona o Brics uma vez sequer. Mas o candidato, que é alinhado com Trump, já deu declarações sinalizando que pode ser hostil ao bloco, que costuma ser alvo de críticas e ameaças por parte da Casa Branca.
Flávio, por exemplo, afirmou num podcast em junho que seu governo pode vir a retirar o Brasil do Brics. "No primeiro dia que eu me sentar na cadeira de presidente, vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os Estados Unidos", disse.
Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro, novamente alinhado com os EUA, disse ser contra a possibilidade de redução de dependência do dólar americano em transações internacionais, refutando propostas de Lula e da Rússia nesse sentido, que já provocaram ameaças de retaliação por parte de Trump no passado.
Em julho, num ofício encaminhado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Flávio também propôs que o Brasil deve impedir que o Pix seja integrado a mecanismos internacionais de compensação financeira fora da esfera ocidental - ou seja, fora do alcance dos EUA.
Estados Unidos
Lula: "reafirmar soberania"
Desde a volta de Donald Trump ao poder nos EUA, em 2025, o Brasil sob Lula passou a ser alvo de repetidas rodadas de tarifas por parte da Casa Branca. Algumas com objetivos comerciais, outras foram encaradas como tática de pressão para beneficiar a família Bolsonaro, aliada de Trump.
O programa de governo de Lula não menciona os Estados Unidos nominalmente, mas faz várias referências veladas à posição de confronto da Casa Branca, defendendo que o Brasil determine suas políticas sem interferência externa e com autonomia. O texto parece seguir a postura do Planalto nos últimos meses, que tem criticado a interferência de Trump no Brasil, mas sem romper completamente com os EUA ou direcionar animosidade diretamente ao presidente americano, buscando uma solução negociada.
"Em um cenário de tensões geopolíticas crescentes e quebras das regras de convivência internacional, o Brasil deve reafirmar sua soberania e preservar sua capacidade de fazer escolhas políticas e econômicas de forma independente, à luz de seus interesses, sem qualquer tipo de subordinação estratégica", diz o texto.
Em outro trecho, o programa diz que o governo fará "firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica".
Na sequência, o texto parece fazer uma referência velada a Flávio Bolsonaro e seu alinhamento com os EUA: "Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas".
Flávio Bolsonaro: "aliança conservadora"
Apesar do alinhamento de Flávio Bolsonaro com o governo Trump, a relação estreita não é mencionada no programa de diretrizes do candidato. Referências aos EUA são poucas. Em um dos trechos, o programa fala em "reverter" o distanciamento entre Brasília e Washington e em buscar "soluções diplomáticas" contra as "sanções" dos EUA a produtos brasileiros.
No entanto, em falas nos últimos meses, Flávio foi mais explícito em como enxerga como seria a relação entre o Brasil e os EUA sob seu eventual governo. Em março, num discurso nos EUA, Flávio falou em formalizar uma aliança com o país de Trump. "No próximo ano, quando eu retornar a este palco como presidente do Brasil, não estaremos apenas celebrando mais uma vitória eleitoral. Estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental", disse.
Em julho, ele também sugeriu que o Brasil firmasse um acordo de livre comércio com os EUA nos moldes da antiga Nafta, o bloco econômico de livre-comércio formado pelos americanos, o Canadá e o México, que foi esvaziado por Trump em 2020. O plano do candidato, porém, não menciona como seu governo pretende lidar com o tarifaço de Trump, que, em parte, foi inicialmente incentivado por Flávio e seu irmão, Eduardo Bolsonaro.
Ainda em seu plano de governo, Flávio fez menções genéricas a minerais críticos. Em falas nos últimos meses, no entanto, ele foi explícito em afirmar que deseja que os EUA explorem os minerais no Brasil, para reduzir sua dependência da China. "O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos", disse o entãopré-candidato a presidente, em evento no Texas.
Mercosul
Lula: aprofundamento do bloco
O programa de Lula propõe continuar a fortalecer o Mercosul, especialmente como plataforma para a ampliação de iniciativas de integração econômica, como no acordo de livre-comércio firmado com a União Europeia, que passou a vigorar em maio.
"Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional, especialmente nas áreas de infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. Consolidaremos o Mercosul como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul", diz o programa.
Flávio Bolsonaro: "se libertar das amarras" do Mercosul
O programa de Flávio Bolsonaro não menciona o Mercosul. Mas o candidato já indicou que, ao contrário de Lula, vê o bloco como um empecilho para iniciativas de política externa unilaterais. Em julho, num documento enviado ao governo americano, ele propôs que o Brasil se "liberte das amarras" do bloco sul-americano para uma "busca agressiva" de novos acordos comerciais, sinalizando que pode adotar uma postura como a do presidente argentino Javier Milei, que buscou um acordo comercial com os EUA sem participação de parceiros do Mercosul nas negociações.
Israel e questão palestina
Lula: tema ausente em propostas, relações tensas
Os planos de governo de Lula não mencionam Israel e a questão palestina diretamente, mas a postura da atual administração é bem explícita sobre o conflito no Oriente Médio.
Em 7 de outubro de 2023, na esteira do ataque do Hamas que deixou mais de 1.000 mortos em Israel, Lula condenou as ações do grupo palestino e manifestou "repúdio ao terrorismo". Ao mesmo tempo, ele defendeu negociações para a existência "de um Estado Palestino viável".
Posteriormente, com a ampliação das ações militares em Gaza, Lula passou a criticar ações israelenses. Em 2025, Lula disse que "em Gaza não tem uma guerra, tem um genocídio". Antes disso, em 2024, declarações de Lula comparando a situação da população de Gaza com o Holocausto provocaram tensão entre Israel e Brasil. Os israelenses acabaram declarando Lula "ersona non grata (alguém que não é bem-vindo).
Após outros incidentes diplomáticos, o governo Lula retirou o embaixador brasileiro de Tel Aviv. Em 2025, foi a vez de o governo do israelense Benjamin Netanyahu rebaixar sua relação diplomática com o Brasil. Israel também segue sem embaixador no Brasil. Sob Lula, o Brasil também apoia a ação apresentada pela África do Sul contra Israel por acusações de genocídio na Faixa de Gaza.
Flávio Bolsonaro: transferência de embaixada para Jerusalém
O plano de governo de Flávio não menciona Israel ou a questão palestina. Mas falas e ações do candidato vem seguindo o mesmo roteiro do seu pai, Jair Bolsonaro, que estreitou as relações do Brasil com Israel, e, especialmente, com o premiê Netanyahu.
Em janeiro, Flávio Bolsonaro, escolheu Israel como destino da sua primeira viagem ao exterior na condição de pré-candidato. No país, foi recebido em um jantar de gala por Netanyahu. Em julho, foi a vez de o premiê participar, via mensagem em vídeo, do lançamento oficial da campanha de Flávio, chamando o brasileiro de "meu amigo".
De propostas práticas, Flávio mencionou que no seu primeiro dia como presidente pretende receber um novo embaixador israelense no Brasil. Flávio também contemplou publicamente transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo o exemplo dos EUA de Donald Trump. "Em 2027, o Brasil não apenas voltará a ter embaixador em Israel, como dará o passo de transferir sua embaixada para a capital de Israel: Jerusalém", disse Flávio.
Em 2019, seu pai, Jair Bolsonaro, havia tentado essa transferência, mas recuou diante de possíveis retaliações de países árabes que são grandes parceiros comerciais do Brasil.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.