Quem ganha e quem perde com a entrada de Pablo Marçal na disputa presidencial
Para analistas ouvidos pela reportagem, a candidatura do influenciador é um fator 'desestabilizador' das eleições de 2026, que seguem polarizadas em torno de Lula e Flávio Bolsonaro
Pablo Marçal registrou sua candidatura à Presidência pelo PRTB para 2026, embora esteja inelegível até 2032 e tenha sofrido restrições do TSE sobre propaganda e debates até o julgamento definitivo. Analistas avaliam que seu foco principal não é a vitória, mas a autopromoção e a manutenção de relevância política. A presença de Marçal na disputa tende a afetar a polarização nacional, enfraquecendo candidatos antissistema da direita e atraindo votos de descontentes com a política tradicional.
Na data limite para o registro nas eleições de 2026, o empresário e influenciador Pablo Marçal protocolou sua candidatura à Presidência pelo Partido Renovador Trabalhista Nacional (PRTB), no dia 15 de agosto.
Marçal, que está inelegível até 2032 por decisão da Justiça Eleitoral, tentou ao longo da semana participar do primeiro debate presidencial na TV Bandeirantes, que ocorre no próximo domingo (23/8).
Mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, por unanimidade na quinta-feira (20/8), vetar o acesso de Marçal aos fundos eleitoral e partidário até que o próprio tribunal tome a decisão final sobre sua candidatura. Os ministros também proibiram sua participação em campanhas na TV e no rádio e em debates.
A candidatura do influenciador só foi viabilizada depois que uma liminar permitiu a saída de Marçal do União Brasil e sua filiação ao PRTB, partido pelo qual já havia concorrido em 2024, com data retroativa a 4 de abril — o que garante o prazo mínimo de seis meses de filiação exigido pela lei para ser candidato.
Mas a liminar, dada por um juiz de primeira instância, resolveu apenas a questão da filiação partidária. Ainda cabe ao TSE analisar se o registro da candidatura será aprovado.
Para analistas ouvidos pela reportagem, a entrada de Pablo Marçal na disputa presidencial tem potencial para movimentar uma eleição que, até agora, vem sendo marcada pela polarização em torno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), segundo pesquisas.
O agregador de pesquisas da BBC News Brasil mostra o petista com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 35% do candidato do PL. Outros 10% ainda não escolheram em quem votar.
Para analistas ouvidos pela reportagem, porém, o principal efeito da candidatura pode não estar necessariamente na mudança imediata das intenções de voto, mas na disputa pelo eleitorado que busca uma alternativa aos candidatos mais tradicionais e nos efeitos que a presença de Marçal pode produzir sobre outras candidaturas da direita.
Uma candidatura sem intenção de vencer?
O diretor de análise política da Atlas/Intel, Yuri Sanches, avalia que o influenciador pode ter apresentado a candidatura, apesar da inelegibilidade, para fazer com que a Corte tomasse uma decisão definitiva sobre seu caso, já que em 2024 ele teve um desempenho eleitoral muito relevante na cidade de São Paulo.
O empresário angariou 28% dos votos do eleitorado paulistano e, por pouco, não foi para o segundo turno. Ficou atrás de Guilherme Boulos (PSOL), que foi ao segundo turno com o atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), por apenas 56,8 mil votos.
Por outro lado, Sanches também enxerga uma estratégia de autopromoção.
"Poderia também ser uma estratégia de manter o nome em voga, manter o nome como uma representação, alguém que se projeta a nível nacional, e se tornar um cabo eleitoral importante, também mantendo a sua figura com relevância para eleições futuras, caso esse processo de ineligibilidade seja superado."
Para o cientista político Hilton Cesario Fernandes, professor da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e sócio da empresa de pesquisas de opinião e análise de dados Veris, o palco das eleições presidenciais é "valioso" para o influenciador ocupar espaço político e aumentar seu poder de influência.
"Ao que tudo indica, Pablo Marçal não pretende ganhar a eleição. Se houvesse essa intenção, ele teria iniciado sua campanha muito antes, causando maior constrangimento para a Justiça Eleitoral", afirma.
Quem perde mais espaço?
Mesmo com limitações, a candidatura de Marçal pode afetar diretamente outras candidaturas de direita que tentam ocupar o espaço de oposição ao sistema político tradicional.
Yuri Sanches afirma que Marçal pode ter apresentado a candidatura para tentar neutralizar outras candidaturas à direita, especialmente com uma abordagem antissistema, como, por exemplo, o Renan Santos (Missão) vem fazendo.
"A estratégia do Renan Santos tem sido de ataques frontais ao Flávio Bolsonaro, e se você tem uma outra candidatura com um perfil antissistema como a do Pablo Marçal, por outro lado mais associada ao bolsonarismo, isso poderia contrabalancear de alguma maneira, ou impedir que uma candidatura como a do Renan Santos ampliasse o seu eleitorado para além da base de homens e jovens."
"Renan tem uma figura como um franco-atirador, fora do sistema, com críticas ferrenhas em relação ao Lula", argumenta.
"A presença de um Paulo Marçal colocaria uma espécie de sombra ou normalizaria aquele aspecto, colocando um outro franco-atirador que, por sua vez, dessa vez voltado para Renan Santos. Então, em vez de focar no seu embate ali com o Lula, com o Flávio, ele teria também que se preocupar com uma estratégia de defesa em relação ao Marçal."
Hilton Fernandes também avalia que Renan Santos pode ser o candidato mais afetado. "Todos [os presidenciáveis] perdem com a candidatura de Marçal", analisa o professor. "Renan Santos, no entanto, deve ser o maior prejudicado em sua estratégia, pois deixaria de ser o candidato antissistema da vez."
Segundo Sanches, Marçal teria ainda uma vantagem em relação a Renan Santos: um eleitorado potencialmente mais heterogêneo.
Em 2024, o influenciador foi o candidato mais votado em 14 das 20 zonas eleitorais da zona leste. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP), a região concentra 3,2 milhões de eleitores, o maior colégio eleitoral da capital.
Marçal também foi o vencedor em outras seis zonas eleitorais da zona norte, formando na cidade uma espécie de "Marçalândia", um corredor de bairros que vai de Itaquera ao Tucuruvi, passando por Penha, Mooca e Vila Maria.
"Ele consegue falar com públicos mais amplos: com homens, com mulheres, com pessoas de baixa renda e até com eleitores mais jovens; enquanto o Renan Santos ficou um pouco mais nichado", diz Sanches.
O analista avalia, no entanto, que mesmo uma eventual candidatura de Marçal enfrentaria dificuldades para crescer.
"A gente vê algumas candidaturas tentando se desenvolver nos últimos meses e não conseguem porque o espaço está sendo limitado pela figura do petismo, do lulismo, do bolsonarismo. Vemos Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, que tem também despontado, com uma dificuldade de crescer", afirma.
"Então, se nesse contexto já existe uma candidatura antissistema, uma candidatura como a outsider, com discurso contra a política de uma maneira geral, tradicional, ela tem desafios estruturais de crescer; a presença do Pablo Marçal também carrega esse mesmo desafio."
O efeito sobre Lula e Flávio Bolsonaro
Mas o impacto de Marçal não se restringiria à disputa dentro da direita. Os analistas também apontam possíveis efeitos sobre Lula.
Sanches lembra que Marçal conseguiu engajar, em São Paulo, uma população de menor renda, que poderia ser um dos públicos almejados pelo PT e a campanha de Lula.
"Então talvez seria uma forma de atrapalhar a candidatura do Lula num centro urbano extremamente importante para o desempenho não só do Fernando Haddad para governador, mas também, consequentemente, na sua campanha."
Fernandes, por sua vez, avalia que candidatos de diferentes espectros políticos podem ser impactados pela candidatura de Marçal.
"Lula é alvo certo dos maiores ataques, mas eleitores de Flávio Bolsonaro também podem migrar para o candidato."
Para o professor, o cenário de certa estabilidade apresentado pelas pesquisas até o momento pode mascarar o descontentamento do eleitorado com os principais candidatos.
Sua empresa, a Veris, fez um estudo qualitativo no início de agosto com 100 eleitores de todo o país, que mostrou que o descrédito nas instituições e na política em geral tem levado muitos a declarar o voto não por preferência ou oposição, mas por falta de opção.
"É o famoso 'menos pior', sem entusiasmo. Em conjunto com a percepção de problemas nos serviços públicos e custo de vida alto, esse ambiente se torna muito favorável para discursos de ruptura como o de Marçal. O mesmo estudo mostrou que Flávio Bolsonaro já não carrega essa imagem de candidato disruptivo, como foi o pai em 2018, e provavelmente por isso Renan Santos vinha ganhando espaço na disputa."
Mesmo se não chegar ao fim
Na avaliação de Fernandes, o efeito político da candidatura pode ocorrer independentemente de Marçal conseguir ou não permanecer oficialmente na corrida até a eleição.
O professor avalia que, mesmo que ele não permaneça como candidato até o final da campanha, sua presença já afeta o cenário político.
"Ele já ganhou espaço no noticiário e nas discussões sobre as eleições, além de mobilizar as campanhas dos demais candidatos, mesmo sem participar de debates. Se sua candidatura for cassada, ainda que de forma justa, ele certamente usará a narrativa de que é perseguido, aumentando a desconfiança nas instituições e nas lideranças políticas."
Em sua análise, Marçal deve se posicionar como candidato da ruptura, criticando todos os adversários.
"Mas, quando tiver sua candidatura negada, é muito provável que use a situação para fazer ataques diretos à Justiça, lideranças e partidos. Se tiver sucesso, pode ser o fator desestabilizador das eleições e usar sua influência para apoiar candidatos por todo o país."
Sanches, porém, não enxerga um impacto relevante nas pesquisas eleitorais.
"Hoje não seria algo que poderia de alguma forma gerar algum tipo de abalo. A gente poderia ver ali uma flutuação mínima dos candidatos que já estão na corrida para acomodar a entrada de um novo candidato, mas acredito que nada muito significativo aconteceria para mudar, talvez, o perfil da corrida, o rumo da corrida."
Para Sanches, mesmo que consiga levar adiante, ele tem menos apelo do que na corrida para a prefeitura de São Paulo nas últimas eleições municipais, diz.
Naquela ocasião, Marçal tinha era um discurso que estava em linha com uma candidatura que se esperava do bolsonarismo.
"Só que, como naquele caso ele tinha a figura do Ricardo Nunes — uma figura do centrão, do MDB, de uma direita um pouco mais tradicional que recebeu o apoio do Bolsonaro para competir —, ele conseguiu criar a imagem de que ele era o legítimo representante do anseio bolsonarista naquela eleição. Para essa eleição, já existe o Flávio."
O que acontece se o TSE barrar a candidatura
Pablo Marçal foi alvo de diferentes condenações durante a campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024 — entre elas, um caso de uso indevido dos meios de comunicação, o que o tornou inelegível por oito anos.
Na sentença, o juiz Antonio Maria Patiño Zorz, da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, considerou que a conduta configurava abuso de poder político e econômico, decisão contestada pela defesa de Marçal.
A condenação mais robusta envolve o chamado "campeonato de cortes", uma estratégia de divulgação na qual Marçal cooptava colaboradores para disseminar conteúdos seus em redes sociais e serviços de streaming, por meio da publicação de vídeos curtos, com premiação aos participantes e pagamentos a editores de vídeo feitos de forma a dificultar a fiscalização da origem e do destino dos recursos.
Na sentença, o juiz Antonio Maria Patiño Zorz, da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, considerou que a conduta configurava abuso de poder político e econômico.
A defesa do empresário chegou a apresentar recursos à Justiça para reverter a decisão, mas o TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) rejeitou os pedidos por unanimidade em 5 de agosto deste ano.
A análise do registro de candidaturas à Presidência é feita pelo TSE, que costuma dar prioridade a esse tipo de processo em relação aos demais na pauta da Justiça Eleitoral.
Não há prazo oficial, mas a expectativa dos especialistas é que a decisão saia em algumas semanas. O calendário é apertado: faltam 45 dias até a eleição, marcada para 4 de outubro.
Enquanto o TSE não julga o registro, Marçal segue como candidato para todos os efeitos práticos, podendo, em tese, participar de debates, fazer propaganda eleitoral e ter acesso ao fundo eleitoral do partido até a liminar da justiça eleitoral que o limitou.
O caso de Marçal tem paralelos com o cenário vivido por Lula na corrida eleitoral de 2018.
Vale lembrar que, mesmo que o TSE indefira o registro, Marçal ainda poderá apresentar recursos para contestar a decisão, o que poderia prolongar uma decisão final até muito perto ou até após a data das eleições.
Mas, diferentemente do que ocorria em eleições passadas, esses recursos não garantem que ele continue na disputa como se nada tivesse acontecido.
Caso o registro de Marçal seja indeferido, o PRTB ainda poderia indicar um substituto para a chapa, que no momento tem Leonardo Avalanche como vice. Ele é presidente nacional da legenda e havia sido escolhido em convenção no fim de julho para encabeçar a chapa presidencial, mas passou a concorrer como vice após a entrada de Marçal.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.