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Michelle cita a Bíblia, Flávio fala em 'ditadura': as reações da família Bolsonaro à prisão do ex-presidente

Filhos e aliados de Bolsonaro classificaram prisão domiciliar como símbolo do fim da ditadura no Brasil, enquanto opositores falaram em desrespeito de Bolsonaro às medidas cautelares.

4 ago 2025 - 21h28
(atualizado às 22h28)
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Protesto em frente à embaixada americana em Brasília na sexta-feira (1/8)
Protesto em frente à embaixada americana em Brasília na sexta-feira (1/8)
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes nesta segunda-feira (4/8), gerou reações de seus familiares, aliados e opositores.

O governo de Donald Trump também reagiu, condenando a decisão. Os Estados Unidos vêm criticando o STF pela condução de investigações e processos contra Bolsonaro — uma suposta "caça às bruxas" contra o ex-presidente motivou as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros anunciada por Trump em 9 de julho.

Em nota desta segunda-feira, um órgão do Departamento de Estado dos EUA lembrou que Moraes já foi punido sob a Lei Magnitsky.

"O juiz Moraes, agora um violador de direitos humanos sancionado pelos EUA, continua a usar as instituições brasileiras para silenciar a oposição e ameaçar a democracia. Impor ainda mais restrições à capacidade de Jair Bolsonaro de se defender em público não é um serviço público. Deixem Bolsonaro falar!", declarou o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, parte do Departamento de Estado.

"Os Estados Unidos condenam a ordem de Moraes que impõe prisão domiciliar a Bolsonaro e responsabilizarão todos aqueles que auxiliarem e forem cúmplices da conduta sancionada."

Em sua decisão de mais cedo, Moraes afirmou que o ex-presidente descumpriu as medidas cautelares impostas em 17 de julho, quando o ministro determinou o uso de tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente, além da proibição do uso de redes sociais diretamente ou por intermédio de terceiros.

Segundo o despacho desta segunda-feira, Bolsonaro "produziu material para publicação nas redes sociais de seus três filhos e de todos os seus seguidores e apoiadores políticos, com claro conteúdo de incentivo e instigação a ataques ao Supremo Tribunal Federal e apoio, ostensivo, à intervenção estrangeira no Poder Judiciário brasileiro."

Entre os episódios apontados por Moraes como descumprimento das medidas cautelares, estão a aparição remota de Bolsonaro em protestos a seu favor neste domingo (3/8).

No Rio de Janeiro (RJ), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ligou para o ex-presidente, colocando a chamada brevemente no viva-voz; em São Paulo (SP), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) exibiu Jair no celular durante a manifestação.

O cumprimento da prisão domiciliar por Bolsonaro tem tempo indeterminado e impõe também a proibição de Bolsonaro receber visitas.

A defesa do ex-presidente assegurou que Bolsonaro "não descumpriu qualquer medida" e afirmou que vai recorrer da decisão.

Segundo os advogados Celso Vilardi, Paulo Amador da Cunha Bueno e Daniel Tesser, uma decisão anterior de Moraes não impediu discursos em eventos públicos.

A defesa afirmou que a fala "Boa tarde, Copacabana. Boa tarde meu Brasil. Um abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos", proferida remotamente por Jair Bolsonaro no Rio, "não pode ser compreendida como descumprimento de medida cautelar, nem como ato criminoso".

Confira algumas reações à determinação de prisão domiciliar.

O condomínio em Brasília onde o ex-presidente Jair Bolsonaro mora
O condomínio em Brasília onde o ex-presidente Jair Bolsonaro mora
Foto: EPA / BBC News Brasil

Eduardo e Flávio Bolsonaro: 'Fim da democracia'

Filho do ex-presidente e deputado federal (PL-SP), Eduardo Bolsonaro fez postagens em inglês e português na rede social X protestando contra a prisão do pai.

O deputado, que está morando nos EUA e pressionando políticos americanos por sanções contra Alexandre de Moraes e o STF, afirmou que a prisão ocorreu "sem crime, sem evidências, sem julgamento".

"O Brasil não é mais uma democracia. O mundo precisa notar isso", escreveu o parlamentar.

Eduardo Bolsonaro destacou que a decisão de Moraes ocorreu no mesmo dia em que a organização Civilization Works publicou dossiê acusando o ministro do STF de criar uma força-tarefa para fazer postagens em mídias sociais justificando as prisões do 8 de janeiro.

Bolsonaro e Eduardo são investigados por tentativa de obstruir o processo no qual o ex-presidente é acusado de comandar um susposto golpe de Estado para se manter no poder.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse em entrevista à CNN Brasil que a prisão do pai demonstra que o Brasil estaria agora "oficialmente numa ditadura".

"Uma única pessoa sozinha decreta a prisão de um ex-presidente da República, uma pessoa honesta, uma pessoa correta", disse Flávio, afirmando que o processo contra o pai seria um "jogo de cartas marcadas".

"Era tudo o que o Alexandre Moraes queria, se vingar do presidente Bolsonaro."

O senador acusou Moraes de previamente "desequilibrar o processo eleitoral" quando foi presidente do TSE, durante as eleições de 2022 — "pesando mais a favor do nosso concorrente", disse Flávio.

Michelle Bolsonaro: 'Deus mesmo é o juiz'

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou somente um salmo bíblico para se manifestar sobre a prisão do marido.

"E os céus anunciarão a sua justiça; pois Deus mesmo é o juiz", escreveu ela.

No domingo (3/8), Michelle participou da manifestação dos apoiadores do marido em Belém (PA). Na ocasião, ela fez um discurso afirmando que direitos estão sendo violados.

"O meu marido está sofrendo censura prévia, o meu marido foi silenciado. Muitos foram silenciados antes. Nós temos vários cidadãos presos".

Políticos de direita criticam motivação da prisão domiciliar

Manifestantes em protesto pró-Bolsonaro em São Paulo (SP)
Manifestantes em protesto pró-Bolsonaro em São Paulo (SP)
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chamou a prisão domiciliar de "absurdo" e disse que Bolsonaro foi julgado e condenado "muito antes de tudo isso começar".

"Vale a pena acabar com a democracia sob pretexto de salvá-la? Será que não está claro que estamos avançando em cima de garantias individuais?", questionou em suas redes sociais o governador, que não esteve presente na manifestação de domingo porque havia sido submetido a uma cirurgia, segundo sua assessoria de imprensa.

"Hoje, cada um dos brasileiros de bem que acredita na liberdade, na democracia e na Justiça está sendo punido também."

Governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), classificou a prisão de Jair Bolsonaro como um "capítulo sombrio na história de perseguição política do STF".

Segundo Zema, Bolsonaro teria sido punido apenas por ter tido "sua voz ouvida nas redes". O governador prestou solidariedade ao ex-presidente e à sua família.

Deputado federal e líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) escreveu em sua rede social que a prisão de Jair Bolsonaro demonstra que a democracia no Brasil teria acabado.

"Não há mais instituições, há tiranos com toga", disse Cavalcante, defendendo que o ex-presidente não teria cometido crime e nem teria tido direito à defesa.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) fez algumas postagens nas suas redes sociais criticando a decretação de prisão domiciliar contra Jair Bolsonaro.

Ferreira é citado na decisão de Moraes, segundo quem o parlamentar teria usado o ex-presidente para impulsionar a hostilidade à Justiça ao mostrar Bolsonaro em chamada de vídeo durante manifestação bolsonarista em São Paulo (SP) : "(…) o parlamentar utilizou Jair Messias Bolsonaro para impulsionar as mensagens proferidas na manifestação na tentativa de coagir o Supremo Tribunal Federal e obstruir a Justiça e com amplo conhecimento das medidas cautelares impostas (...)."

Ferreira defendeu que apenas mostrou Bolsonaro assistindo a manifestação, e não falando.

"Olha só que ditadura confusa, né? Ele não pode falar, não pode dar entrevista, mas se uma outra pessoa filma ele e posta nas redes sociais, aquela pessoa é responsabilizada e ele [Jair Bolsonaro] também é responsabilizado. Como assim?", questionou o deputado mineiro.

O parlamentar, assim como Eduardo Bolsonaro, destacou que a decisão de Moraes ocorreu no mesmo dia da publicação do dossiê da organização Civilization Works.

Ferreira afirmou que a Lei Magnitsky, da qual Moraes foi alvo nos EUA, é "pouco" para o ministro do STF — que, segundo o parlamentar, deveria ir para a "cadeia".

Governistas falam em cumprimento da justiça

Entre governistas, a prisão domiciliar de Bolsonaro foi celebrada como o cumprimento da Justiça.

Líder do PT na Câmara dos Deputados, o parlamentar Lindbergh Farias (RJ) afirmou que a prisão determinada pelo STF foi "proporcional à gravidade dos atos".

"A medida não se deu apenas por descumprir as cautelares já impostas, mas por reincidir de forma deliberada, debochar da autoridade judicial e seguir atuando contra o Estado Democrático de Direito", defendeu o petista na rede social X.

"Ele [Jair Bolsonaro] apareceu em chamada de vídeo durante ato público, com divulgação em redes sociais administradas por seus filhos, violando a proibição de uso direto ou indireto de redes. Além disso, segue promovendo sanções estrangeiras contra o Brasil e atentando contra a soberania nacional em articulação com atores políticos internacionais", enumerou Farias.

Membro do governo Lula, Marcelo Freixo (PSOL) defendeu em suas redes sociais que Bolsonaro foi penalizado com a prisão domiciliar porque "descumpriu mais uma vez uma decisão judicial".

"Bolsonaro tentou transformar tornozeleira e proibição de redes em espetáculo público. Houve descumprimento reiterado de decisão judicial. Desacato de decisão judicial não é discurso político, é crime. Ele pediu pra ser preso", argumentou Freixo, presidente da Embratur.

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