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Por que o Foro de São Paulo é mais importante para a direita do que para a esquerda

Sem função prática para determinar renovação da esquerda, encontro de líderes latino-americanos funciona como espantalho para Olavo de Carvalho e seguidores.

24 jul 2019
12h53
atualizado às 13h28
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Quando o líder da revolução cubana Fidel Castro sugeriu ao ex-operário, sindicalista e fundador do PT Luiz Inácio Lula da Silva que criasse um seminário internacional para que as esquerdas do continente pudessem se reunir anualmente e discutir planos para a América Latina, é improvável que ambos imaginassem que, 30 anos mais tarde, o Foro de São Paulo, como ficou conhecida a reunião, tivesse se convertido em um dos maiores espantalhos da direita brasileira.

"O Foro de São Paulo é a maior organização política que já existiu no continente latino-americano. Acho que nem nos Estados Unidos há uma organização que reúna 200 partidos políticos e mais quadrilhas de narcotraficantes, sequestradores, etc, etc. É um negócio monstruoso", afirmou em vídeo postado há menos de uma semana o escritor Olavo de Carvalho, ideólogo do bolsonarismo.

Tema de predileção de Carvalho, o Foro de São Paulo realizará sua 25ª edição nesta quinta-feira (25) em Caracas, capital da Venezuela, e tem mobilizado a atenção de outras lideranças à direita.

Em entrevista à BBC News Brasil há duas semanas, o chanceler Ernesto Araújo disse que o Foro de São Paulo "é um tema que nos preocupa e a outras pessoas também."

Há dois dias, o próprio presidente Jair Bolsonaro deixou clara a importância do encontro para sua agenda política. No Twitter, ele escreveu: "Na próxima quinta, membros do Foro de São Paulo, criado por Fidel Castro, Lula, Farc, entre outros partidos de esquerda e facções criminosas com objetivo de dominar a América Latina, se reúnem em Caracas-Venezuela para discutir seu Projeto de Poder Totalitário."

O que é o Foro de São Paulo?

A ideia do Foro de São Paulo surgiu no ano em que o Muro de Berlim caiu e o socialismo, como era praticado até então, entrou definitivamente em crise.

"Em 1990 a União Soviética ainda existia, mas Fidel estava preocupado com a ofensiva neoliberal na região", afirmou à BBC News Brasil o historiador Valter Pomar, secretário-executivo do Foro de 2005 a 2013 e autor do livro "Foro de São Paulo: construindo a integração latino-americana e caribenha".

É nesse contexto que a primeira reunião acontece, em 1990, em São Paulo. No início, as reuniões contavam com cerca de 60 partidos. Atualmente, são 120 siglas, de 25 países.

"Em sua origem, o PT queria ser protagonista do surgimento do socialismo do século 21, superando o modelo das ditaduras soviéticas e alcançando um socialismo democrático", explica o historiador da Universidade Federal Fluminense Daniel Aarão Reis.

"O Foro de São Paulo poderia ser um grande espaço de debate dessa problemática, mas se tornou um instrumento de louvação política, sempre condicionado pelo inimigo comum. O foro nunca se vertebrou como uma Internacional Comunista, como a direita gosta de dizer, extrapolando, mas também não serviu como fórum para críticas e sugestões das esquerdas. Temendo desagregação das alianças, optou-se pelo silêncio", completa.

Segundo Denis Rosenfield, professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fundador do Instituto Millenium, defensor de pautas liberais, "o Foro de São Paulo hoje é muito mais uma necessidade da extrema-direita do que da esquerda. Olavo de Carvalho e sua turma vão brigar com quem? Com o Rodrigo Maia? O pensamento deles funciona com base nessa conspiração, em que há um grande projeto de dominação das esquerdas cujo centro de comando é o Foro. É contra esse inimigo que essas pessoas se orientam e se unem".

Para Aarão Reis, o Foro foi se esvaziando ao se furtar em condenar o regime cubano ou repreender as investidas autoritárias do chavismo. Para Pomar, no entanto, a natureza plural dos integrantes do Foro não permitiria posições como essas. Para abrigar correntes políticas tão diversas quanto PT, PDT, PSB e PCdoB, para ficar apenas nas siglas brasileiras, as críticas teriam que ser unânimes.

Embora a sigla ainda continue listada na página oficial do Foro, o antigo PPS, atual Cidadania, diz ter se desvinculado da organização. O presidente do partido, Roberto Freire, atribui a saída a um "supressão cada vez maior do debate e do pluralismo de ideias" e a um "hegemonismo das concepções bolivarianas antidemocráticas e populistas", entre outros motivos.

"O Foro sempre funcionou e segue funcionando na base do consenso. Na prática, este método permitia que partidos e organizações muito diferentes entre si, se sentissem à vontade em participar das atividades do Foro. E às vezes isto contribuía para um "acercamento" (entre elas), mas às vezes não", explica Pomar.

Em seu auge, entre 2008 e 2009, o Foro de São Paulo abrigava os partidos dos presidentes de Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Equador, entre outros. "Ganhou peso nas discussões o intercâmbio sobre as experiências desses governos. Mas nunca houve 'exportação' nem 'importação' de modelos, houve intercâmbio de opiniões", afirma Pomar.

O intercâmbio resultou na fundação da Unasul, União das Nações Sulamericanas, em 2008. A organização dizia pretender facilitar o comércio e as trocas sociais e culturais entre todos os países da América Latina. No entanto, a ideia não prosperou. Um conflito entre os países pela posição de comando da Unasul fez com que ela estivesse inoperante desde 2017 e, em 2018, o Brasil anunciou sua retirada da organização.

"O Foro de São Paulo surge como um projeto de dominação da esquerda no continente. No auge, ele serviu pra retroalimentar ideologias dos governos, mas não teve grande eficácia prática. Com a derrota dos governos de esquerda, o Foro deixou de ter qualquer importância", diz Rosenfield.

Em 2019, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não irá às reuniões do Foro. Sua ausência não destoa do histórico de abstenções de lideranças políticas. "Em geral, os presidentes dos partidos raramente vão às reuniões do Foro", reconhece Pomar.

"Ao não participarem do debate, os líderes políticos demonstram a falta de importância do evento. A pauta do Foro é hoje muito restrita, apegada ao Lula Livre, sem qualquer perspectiva de renovação. Da onde você menos espera, é dali que não vem nada mesmo", decreta Aarão Reis.

CPI do Foro de São Paulo e Aliança Liberal Conservadora

Mas se pensadores da esquerda e da direita concordam que o Foro de São Paulo é inócuo para determinar posicionamentos políticos da esquerda, porque ele segue sendo citado até mesmo pelo presidente da República?

"Se o Foro de São Paulo e o PT desaparecem, a reeleição de Bolsonaro em 2022 está a perigo. Eles precisam manter vivos esses inimigos", completa Rosenfield.

Foro de São Paulo terá sua 25ª edição em Caracas, Venezuela, a partir de quinta-feira
Foro de São Paulo terá sua 25ª edição em Caracas, Venezuela, a partir de quinta-feira
Foto: Foro de São Paulo / BBC News Brasil

O tema é considerado tão importante para os seguidores de Olavo de Carvalho que o filósofo desencorajou, em um primeiro momento, a renúncia do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para assumir a embaixada brasileira em Washington DC. Em seu perfil no Twitter, ele questionou: "Será que neste país NINGUÉM entende que a CPI do Foro de São Paulo É coisa mais urgente e importante?"

Para Olavo, seria "missão histórica" de Eduardo obter as assinaturas necessárias para o início da investigação parlamentar. "O Foro de São Paulo é mais danoso do que a perda de US$ 1 trilhão", sentenciou.

Por enquanto, a missão cabe à deputada federal Chris Tonietto (PSL-RJ). Em entrevista à BBC News Brasil, ela afirmou estar perto de alcançar o número suficiente de assinaturas para a instauração da CPI e garantiu que a renúncia de Eduardo não atrapalharia "de modo algum" esse objetivo.

Citando o livro de Olavo de Carvalho, O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, de 2007, em que o escritor se debruça sobre o Foro de São Paulo, a deputada afirmou que a investigação é necessária porque "há indícios de que o dinheiro público brasileiro tenha sido usado para custear ditaduras e ditadores na América Central, na América do Sul e na África. Um exemplo: a Operação Lava Jato investiga um esquema de verbas do BNDES irrigando obras no exterior tocadas por empreiteiras brasileiras. Não por coincidência, os maiores beneficiários dessas obras foram governos de esquerda aliados a Lula e Dilma".

Segundo a deputada, o foro não é meramente "uma reunião anual de debates" de esquerdistas, como argumenta Pomar, mas um agrupamento permanente "de uma centena de partidos legais e várias organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e à indústria dos sequestros, como as Farc e o MIR Chileno, todas empenhadas numa articulação estratégica comum e na busca de vantagens mútuas".

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo; ambos demonstraram preocupação com agenda do foro
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo; ambos demonstraram preocupação com agenda do foro
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Quanto à participação das Forças Armadas Revolucionárias no Foro de São Paulo - acusação recorrente da direita ao Foro -, Valter Pomar afirma que "as Farc participaram de uma reunião do Foro realizada em Havana, quando estavam negociando a paz, mas não eram membros". Atualmente, as Farc se converteram em um partido político. "Se solicitarem ingresso, acredito que seria aceito", reconhece Pomar.

Já o MIR, Movimento de Esquerda Revolucionário, do Chile, que praticou guerrilha urbana e rural, é listado como membro regular do Foro de São Paulo, de acordo com a página da organização. Em 1989, integrantes do MIR chegaram a sequestrar o empresário brasileiro Abílio Diniz.

Em outra frente, discípulos de Olavo de Carvalho planejam criar sua própria versão à direita do Foro de São Paulo. De acordo com o chanceler Ernesto Araújo, a Aliança Liberal Conservadora serviria como celeiro para ideias caras ao bolsonarismo, como a ruptura com agendas consideradas progressistas, como políticas de gênero e pautas globais como as mudanças climáticas, junto a países com governos ideologicamente alinhados, como EUA, Hungria, Itália, Argentina e Colômbia.

Ideia semelhante teve o ex-assessor do presidente americano Donald Trump, Steve Bannon. Ele capitaneia a criação de uma rede chamada "O Movimento", que pretende impulsionar lideranças políticas nacionalistas de direita ao redor do mundo. Eduardo Bolsonaro é simpatizante da ideia.

Intelectuais de direita, como Denis Rosenfield, veem as iniciativas com ceticismo. "Criar uma organização análoga ao foro tem chance zero de dar certo. Eles vão acabar se enfraquecendo".

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