Vereadores retiram apoios, mas CPI que mira Júlio Lancellotti segue viva na Câmara; entenda por quê
'Retirada da assinatura' é ato simbólico; pedido já foi protocolado e agora depende de aprovação de líderes e do plenário na Câmara de SP
Ao menos oito vereadores afirmaram retirar seus apoios à abertura de uma Comissão de Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre ONGs que teria na mira o padre Júlio Lancellotti. A debandada, no entanto, pode dificultar a instalação da comissão proposta pelo vereador Rubinho Nunes (União), mas não enterra a proposta.
Isso porque os vereadores que anunciam a "retirada da assinatura" o fazem em sentido simbólico. Uma vez que o pedido de CPI já foi protocolado — com no mínimo 18 assinaturas, como determinado pelo regimento interno da Câmara —, não há mais como remover a assinatura de algum parlamentar.
O Estadão buscou contato com o presidente da Câmara de Vereadores mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Autor acredita na instalação da CPI
Apesar da debandada de apoiadores, Rubinho Nunes disse ao Estadão dispor "tranquilamente" do necessário para a aprovação. "Sim, temos votos. São 28 e isso a gente consegue com tranquilidade, é um número baixo". O vereador confirmou ainda que seguirá adiante com o pedido, "doa a quem doer".
"Não dou a menor atenção para a pressão ridícula que a esquerda tem feito para blindar essas ONGs. Fui eleito para investigar e farei exatamente isso", diz Rubinho. Questionado sobre o clima político diante da repercussão do pedido, ele avalia que as lideranças chegarão a um acordo. "No colégio de líderes, tenho certeza de que, se não houver um consenso, vai haver ao menos um acordo da maioria".
Confira os vereadores que retiraram o apoio ao pedido
- Sandra Tadeu (União Brasil)
- Thammy Miranda (PL)
- Xexéu Tripoli (PSDB)
- João Jorge (PSDB)
- Beto do Social (PSDB)
- Sidney Cruz (Solidariedade)
- Dr. Nunes Peixeiro (MDB)
- Dr. Milton Ferreira (Podemos)
CPI mira ONGs e quer investigar uso de dinheiro público
Rubinho Nunes quer investigar o uso de dinheiro público nas ONGs que atuam na Cracolândia e colocar em pauta a chamada política de redução de danos. Segundo o vereador, as organizações usam verbas para distribuir alimentos, kit de higiene e itens para o uso de drogas à população em situação de rua, gerando o que ele chama de um "ciclo vicioso" no qual o usuário de crack não consegue largar o vício.
A Craco Resiste, um dos alvos de Rubinho, rechaçou as acusações e afirmou não ser um ONG, e sim um projeto de militância . "Quem tenta lucrar com a miséria são esses homens brancos cheios de frases de efeito vazias que tentam usar a Cracolândia como vitrine para seus projetos pessoais", declarou a entidade em nota divulgada nas redes sociais. A reportagem não conseguiu contato com o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, conhecido como Bompar, também mencionada pelo vereador.
Procurado pelo Estadão, o padre Júlio Lancelloti declarou que a instalação de CPIs para investigar o uso de recursos públicos pelo terceiro setor é uma ação legítima do Poder Legislativo. No entanto, acrescentou que não faz parte de nenhuma organização conveniada à Prefeitura de São Paulo, mas, sim, da Paróquia São Miguel Arcanjo.