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Política

Terceiro mandato de Lula é crucial para frear bolsonarismo no Brasil, avalia cientista político

Autor do livro 'Como as Democracias Morrem' entende que petista precisa ter bom desempenho, ou dará 'munição' para Bolsonaro voltar ao Poder

2 nov 2022 - 05h00
(atualizado em 22/6/2023 às 10h07)
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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente do Executivo Federal será determinante para as chances de Jair Bolsonaro (PL) nas próximas eleições presidenciais. A avaliação é do cientista político americano Steven Levitsky, autor do best-seller ‘Como as democracias morrem’.

"Com 49% dos votos, não há dúvida de que Bolsonaro retém capital político", analisa Levitsky, em entrevista ao Terra.

Levitsky destaca que, embora derrotado, Bolsonaro deve continuar influenciando o cenário político brasileiro. O professor de Política em Harvard vai ainda mais além sobre o poder do movimento que nasceu com o ex-capitão do Exército: "Haverá bolsonarismo sem Bolsonaro".

O atual presidente da República foi derrotado por Lula no domingo, 30, segundo turno das eleições. O petista recebeu 50,9% dos votos válidos, o equivalente a cerca de 60,3 milhões de votos – dois milhões a mais que Bolsonaro, mas a maior votação já recebida por um candidato à Presidência na história do Brasil. 

Apesar da responsabilidade sobre o próximo governo e da vitória apertada, o resultado deixa a comunidade internacional aliviada. Segundo Levitsky, a disputa presidencial no Brasil foi acompanhada atentamente pelas principais democracias globais.

"A comunidade internacional, pelo menos no Ocidente liberal, está aliviada e muito feliz por ver Lula vencer", avalia Levitsky.

Leia a entrevista com Steven Levitsky na íntegra. 

Steven entende que petista precisa ter bom desempenho, ou dará 'munição' para Bolsonaro voltar ao Poder
Steven entende que petista precisa ter bom desempenho, ou dará 'munição' para Bolsonaro voltar ao Poder
Foto: DIVULGAÇÃO / BBC News Brasil

Apesar da derrota, Bolsonaro obteve 58 milhões de votos, e o seu apoio político ajudou a eleger diversos candidatos. Na sua visão, há no Brasil a consolidação de um movimento bolsonarista? 

Não tenho certeza se haverá uma consolidação do movimento bolsonarista, porque Bolsonaro não tem partido nem um movimento muito organizado. Mas, com ou sem Bolsonaro, parece bem claro que a direita liberal cristã e militarista continua muito forte no Brasil. Então, se não houver Bolsonaro, haverá bolsonarismo sem Bolsonaro.

Bolsonaro e Trump não conseguiram se reeleger. Mesmo após a derrota para Biden, Trump permaneceu com a sua influência política nos Estados Unidos. Quais diferenças e semelhanças que o senhor enxerga entre os dois?

A grande diferença é que Trump domina um grande partido político, e Bolsonaro não tem partido. Isso tornará mais desafiador para ele permanecer influente. Mas, com 49% dos votos, não há dúvida de que Bolsonaro retém capital político, e, se Lula não tiver um bom desempenho, Bolsonaro pode facilmente ressurgir como uma grande figura da oposição.

Os episódios de violência política cresceram nos últimos meses. O senhor menciona a necessidade que exista a "tolerância mútua" entre os partidos e políticos de oposição para arrefecer a polarização. Como o senhor enxerga a divisão política no Brasil?

Bem, o cenário pós-eleitoral não foi tão ruim no Brasil. A maioria das figuras de direita, incluindo grandes aliados de Bolsonaro, reconheceram a vitória de Lula, parabenizaram Lula e disseram que querem trabalhar com ele. Nada disso aconteceu nos Estados Unidos após as eleições de 2020. Portanto, parece que há menos polarização e mais tolerância mútua no Brasil do que nos Estados Unidos agora.

Em 'Como as Democracias Morrem', o senhor utiliza o termo "jogo duro constitucional" para designar situações em que  a oposição estende de maneira excessiva suas prerrogativas constitucionais. Nestas eleições, a composição formada no Congresso brasileiro foi de maioria pró-Bolsonaro. Na sua avaliação, Lula enfrentará um cenário de confrontação? 

Essa é a grande questão. Certamente isso continua a ser uma possibilidade. Mas Lula é um político talentoso e experiente, e os presidentes brasileiros têm muito poder sobre o Congresso. E o Congresso, embora de direita, é fragmentado. Portanto, não acho certo que a relação com o Congresso seja altamente conflituosa.

O senhor menciona que um dos maiores problemas da democracia no mundo é que o nível de confiança pública em partidos e políticos está muito baixa. Como reverter esse quadro? 

Se eu soubesse a resposta para essa pergunta, teria um salário muito maior (risos). No Brasil, partidos como o PT devem mostrar aos eleitores que respondem às demandas deles e devem mostrar aos brasileiros que levam a sério o combate à corrupção e ao abuso de poder. O PT nunca fez uma verdadeira autocrítica em relação aos seus últimos anos de mandato. Isso seria um bom começo.

Qual a percepção da comunidade internacional após a vitória de Lula? 

A comunidade internacional, pelo menos no Ocidente liberal, está aliviada e muito feliz por ver Lula vencer – ou pelo menos por ver Bolsonaro perder. O mundo estava assistindo de perto, e esta eleição é vista como uma grande vitória para a democracia global.

Após a derrota de Bolsonaro, Trump e Marine Le Pen, como o senhor avalia a extrema direita e os líderes populistas no mundo?

A extrema direita é e continuará sendo uma grande força política em todo o Ocidente. Existem muitas forças subjacentes, como imigração, crime, desigualdade, mudanças demográficas e culturais que dão origem a isso. Nenhuma força política vence o tempo todo. Eles ganham em alguns lugares, por exemplo, Itália, talvez nos Estados Unidos na próxima terça [nas midterm elections]; e perdem em alguns, como no Brasil. É assim que a política democrática funciona.

Em recente entrevista, o senhor menciona que o maior risco do terceiro mandato de Lula é a possibilidade de que um líder populista seja eleito nas próximas eleições presidenciais. O senhor poderia explicar essa análise? 

Os brasileiros confiam muito pouco nos políticos e em seus governos. O descontentamento continua muito alto. Se o governo Lula não tiver um bom desempenho, provavelmente veremos um eleitorado furioso se voltar para outro outsider.

Fonte: Redação Terra
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