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PGR pediu para apurar se Flávio Bolsonaro atuou no Senado para beneficiar Vorcaro

Inquérito da PF diz que Flávio foi 'interlocutor direto' do banqueiro em tratativas relacionadas ao filme 'Dark Horse', inclusive com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das gravações. Senador nega qualquer irregularidade e pede o fim do sigilo total do inquérito do Master.

11 set 2026 - 17h45
(atualizado às 17h46)
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Resumo
A PGR pediu que se apure se o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Mário Frias atuaram no Congresso para beneficiar o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. A suspeita é de que a atividade legislativa tenha relação com repasses milionários do banqueiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Documentos da PF apontam Flávio como interlocutor direto de Vorcaro em negociações suspeitas de lavagem de dinheiro, enquanto o senador nega irregularidades e defende a lisura dos atos.
Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu um levantamento da relação de todas as propostas legislativas do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e do deputado Mário Frias (PL-SP) que poderiam ser de interesse do Banco Master e de seu controlador, Daniel Vorcaro.

De acordo com documento expedido em julho, a PGR pediu que fossem realizadas diligências com relação às "proposições legislativas apresentadas ou endossadas por Flávio ou Mário Frias no Congresso Nacional "que possam ser de interesse do Banco Master ou de empresas a ele vinculadas, bem como aos seus controladores, em especial Daniel Bueno Vorcaro."

A PGR diz querer entender se a atuação parlamentar de Flávio e Frias poderiam estar relacionadas ao repasse milionário feito por Vorcaro ao filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

O texto diz que as investigações neste sentido estavam muito iniciais "carecendo de aprofundamento, igualmente e sobretudo, no que toca à prática de ato típico da função parlamentar que possa ser atribuída, numa lógica de causa e efeito, ao negócio cinematográfico mencionado."

O Ministério Público chama atenção para o alto volume do financiamento do filme sem expectativa de retorno financeiro de mesma grandeza.

O documento teve o sigilo levantado na quinta-feira (10/9) à noite, juntamente com uma parte do inquérito relativo ao caso Banco Master, a pedido do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin.

Com a quebra de sigilo também veio a público que, ainda em julho, o ministro André Mendonça determinou a investigação de Flávio Bolsonaro por suposta lavagem de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes no financiamento do filme Dark Horse.

O inquérito referente ao caso de Flávio, no entanto, permanece em sigilo. Não está claro se o levantamento da atividade parlamentar do candidato foi feito ou não.

Na tarde desta sexta-feira (11/9), Fachin acolheu novo pedido da PGR e determinou que Mendonça suspenda o sigilo de mais documentos do inquérito do Master em até 24 horas.

Sobre as informações, Flávio afirmou, durante evento de campanha em Manaus (AM), que vê com "muita tranquilidade" a quebra de sigilo, "pois será sempre mais do mesmo".

"Sempre disse que a relação com o filme foi privada, um patrocínio privado em relação ao filme do presidente Bolsonaro. É muito positivo para confirmar o que sempre falei."

Ele também defendeu a "transparência para tudo" nas investigações envolvendo o Master.

Flávio como 'interlocutor direto' de Vorcaro

Por ora, os documentos que vieram a público também mostram que Flávio manteve contato com Daniel Vorcaro ao menos desde 2024. E encontrou o banqueiro, segundo os investigadores apontam por meio de mensagens trocadas, diversas vezes ao longo de 2025.

A cronologia detalhada pela PF mostra que Vorcaro teve agendada uma reunião com Flávio em 11 de dezembro de 2024 para tratar do "filme do presidente". Na véspera, o banqueiro foi informado de que o deputado Mário Frias participaria do encontro, por ser o idealizador do projeto.

Em janeiro do ano seguinte, por meio do interlocutor Thiago Miranda da Silva, Flávio cobrou o primeiro aporte para o filme. Dois meses depois, em março, Miranda enviou a Vorcaro uma mensagem na qual ele diz que "Flavio B e Eduardo" — que os investigadores dizer ser Eduardo Bolsonaro — pretendiam marcar uma reunião para discutir o longa.

O relatório diz que Flávio e Vorcaro "trocaram mensagens que indicam novo encontro presencial" em agosto. Em setembro, "foram registradas outras mensagens e ligações entre ambos para tentativa de agendamento de novo encontro".

Depois, teria convidado Vorcaro para jantar com o ator e o diretor de Dark Horse no início de novembro.

O senador também teria tentado contato telefônico com Vorcaro, inclusive um dia antes do banqueiro ser preso pela primeira vez, em 17 de novembro do ano passado. E enviou a seguinte mensagem:

"Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!"

Flávio foi interlocutor direto e Eduardo orientou a gestão financeira do filme nos EUA, diz a PF
Flávio foi interlocutor direto e Eduardo orientou a gestão financeira do filme nos EUA, diz a PF
Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Flávio foi 'interlocutor direto' de Vorcaro, diz PF

O relatório da PF tornado público agora diz que Flávio foi um "interlocutor direto" de Vorcaro em tratativas relacionadas ao financiamento da produção, inclusive com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das gravações.

Os investigadores também levantam a hipótese de que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, "orientou a gestão dos recursos [do filme] em solo estrangeiro".

Nos documentos, a PF sustenta que mensagens e arquivos extraídos do celular de Vorcaro, somados a um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf, indicam uma rota financeira internacional possivelmente ligada à produção de Dark Horse.

Segundo a PF, a empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, enviou US$ 12.333.335 ao Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, entre fevereiro e setembro de 2025.

No telefone de Vorcaro, os investigadores localizaram um contrato para o filme que previa investimento de US$ 24 milhões em 14 parcelas. A PF diz que os valores e o calendário das remessas se aproximam daqueles previstos no contrato.

Ainda de acordo com o inquérito, a PF levanta a hipótese de que Eduardo Bolsonaro "orientou a gestão dos recursos em solo estrangeiro".

E que "as coincidências entre os valores previstos no contrato de financiamento e as remessas internacionais identificadas na análise financeira, somadas às comunicações extraídas do aparelho celular de Daniel Vorcaro, constituem indícios relevantes de que as pessoas jurídicas referidas foram utilizadas para operacionalizar aportes ilícitos destinados ao filme."

Flávio, no entanto, nega qualquer irregularidade sobre o financiamento do filme sobre seu pai, e já disse, em sabatina ao Jornal Nacional, que o tema está "mais que esclarecido" e é um "livro fechado, ressignificado e na prateleira".

Nesta sexta, em uma agenda de campanha no Amazonas, o candidato do PL disse estar com "muita tranquilidade" em relação à quebra do sigilo no inquérito e afirmou que "transparência total nesse assunto foi a melhor coisa que poderia acontecer".

"Estamos numa eleição presidencial e não é novidade para ninguém que vão tentar fazer de tudo para desestabilizar e inventar coisas onde não tem", afirmou.

Eduardo Bolsonaro ainda não se manifestou sobre as investigações que vieram a público na sexta-feira. Em maio, o ex-deputado afirmou que alegações anteriores de que ele teria recebido dinheiro de Vorcaro seriam parte de "uma tentativa tosca de assassinato de reputação".

A BBC News Brasil ainda busca contato com os citados e atualizará esta reportagem assim que se manifestarem.

Expectativa 'hollywoodiana' de bilheteria

Os investigadores também chamam a atenção para a expectativa "hollywoodiana" de bilheteria do filme. O material apresenta projeções de receita bruta de bilheteria em três cenários: pessimista de US$ 45 milhões, conservador de US$ 70 milhões e otimista de US$ 100 milhões.

E fazem uma comparação da previsão de bilheteria de Dark Horse com o maior resultado de bilheteria da história do cinema nacional, que, segundo o documento, foi obtido por Minha Mãe é uma Peça 3 (2019), com aproximadamente R$ 120 milhões — "equivalente, à época, a cerca de US$ 30 milhões".

"O cenário otimista projetado para Dark Horse superaria esse recorde histórico nacional em mais de três vezes, situando-se na faixa de desempenho de grandes produções hollywoodianas de bilheteria global", dizem os investigadores.

Eles ainda afirmam que "a discrepância entre as projeções do plano de negócios e qualquer parâmetro realista do mercado cinematográfico nacional constitui elemento que reforça a necessidade de apuração quanto à viabilidade econômica e à verdadeira finalidade da operação."

O que Flávio já disse sobre o caso

Depois que as primeiras informações sobre a relação do banqueiro com Flávio foram publicadas pelo site The Intercept Brasil, em maio, o senador admitiu ter negociado com o banqueiro pagamentos para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Até então, Flávio afirmava que só havia associação entre o escândalo envolvendo o Master e o PT e a esquerda. Poucos dias antes da reportagem do The Intercept ser publicada, ele usou uma camiseta com a inscrição "O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula", em um evento em Santa Catarina.

Ainda em março, quando foi noticiado que o cunhado de Vorcaro - o pastor Fabiano Zettel, também preso - havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse à CNN que isso aconteceu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive".

"Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita", afirmou o senador na ocasião.

Quando as investigações começaram a vir à tona, ele acabou admitindo a relação com o banqueiro.

"Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme", afirmou Flávio na ocasião.

O senador ainda afirmou que não se encontrou com o banqueiro. "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem."

Depois, admitiu o encontro, mas disse que rompeu com Vorcaro depois que ele foi preso pela primeira vez, em novembro do ano passado. O banqueiro ficou 12 dias detido e foi solto usando tornozeleira eletrônica.

Vorcaro foi preso em novembro e solto 12 dias depois com o uso de tornozeleira eletrônica. No início, Flávio admitiu que pediu dinheiro ao banqueiro, mas que deixou de falar com ele depois da prisão.

No entanto, em maio, após novas informações serem publicadas, ele acabou confirmando que esteve com Vorcaro após a soltura, dizendo que o encontro foi para "dar um ponto final nisso".

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