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O que a direita queria era um cadáver no Bandeirantes, diz filho de Montoro

Filho de Franco Montoro. governador eleito em 1982, na primeira eleição direta para o governo, ainda durante a ditadura, diz que a direita queria um cadáver para justificar retrocesso

16 mar 2013 09h46
| atualizado em 5/12/2013 às 17h10
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<p>Franco Montoro (centro), Orestes Quércia (esq.) e Fernando Henrique Cardoso (dir.), em evento do PMDB. Os dois primeiros foram governador e vice nas primeiras eleições diretas em 1982</p>
Franco Montoro (centro), Orestes Quércia (esq.) e Fernando Henrique Cardoso (dir.), em evento do PMDB. Os dois primeiros foram governador e vice nas primeiras eleições diretas em 1982
Foto: Reprodução

São Paulo foi um dos 10 Estados brasileiros nos quais a oposição chegou ao poder na primeira eleição direta para governador ocorrida em 1982. Lá, foi eleito o emedebista Franco Montoro, morto em 1999. Dois anos após tomar posse, enfrentando um governo militar que dava seus últimos suspiros, ele foi um dos responsáveis pelo comício de 25 de janeiro, na praça da Sé, onde mais de 100 mil pessoas pediam a aprovação da emenda conhecida como Dante de Moreira, que possibilitaria a volta do voto direto para presidente, no movimento conhecido historicamente como Diretas Já.

"Foi um marco histórico do governo Montoro e da história do Brasil. Efetivamente, ali é que foi redemocratizado o País", diz o filho do ex-governador, Ricardo Montoro, que além de ter trabalhado na campanha, atuou como secretário particular do pai nos anos de governo. 

Apesar de ser a primeira eleição direta para um cargo do Executivo no governo militar, o processo eleitoral, em si, foi tranquilo. Mas opositores do regime, como era o caso de Montoro, ainda temiam que pudesse ocorrer algum retrocesso que fortalecesse os militares no poder por mais tempo. "Naquele momento, o que a direita mais queria - vamos chamar de direita o governo Figueiredo - era um cadáver, e se fosse um cadáver no Palácio dos Bandeirantes, enfrentando a polícia, seria uma calamidade", afirma.

Para ele, apesar da eleição de 1982 ter sido o primeiro passo para a redemocratização do País, o verdadeiro salto foi a campanha das Diretas, encabeçada pelo seu pai. "Nas palavras do (José) Serra: 'se não fosse o Montoro, não existiriam as Diretas'".

Terra - Como foi a disputa interna para a escolha de Montoro para concorrer ao governo em 1982? 
Ricardo Montoro - O Quércia entrou na disputa e teve 30% na convenção do Anhembi, e o Montoro teve 70%, aproximadamente. Mas ai, em uma jogada pré-estabelecida, o Quércia saiu da convenção e foi para um hotel próximo. E começou a surgir uma movimentação dentro da convenção para o Quércia ser visto, e o vice do Montoro era o Mário Covas. Mas como não constou na cédula o nome do Covas, o pessoal do Quércia achou que não teria problema, já que a vontade do partido era o Quércia. Teve uma reunião a portas fechadas, da qual eu participei, e o Montoro disse que não seria candidato se o Covas não fosse o seu vice.  O Covas, em um gesto de grandeza, solicitou ao Montoro, pessoalmente, que aceitasse o Quércia porque sentia que era a vontade do partido. E por contingência, o Covas foi nomeado prefeito, já que naquele tempo não tinha eleição direta, o prefeito era nomeado pelo governador. 


Terra - Qual era a principal dificuldade de se fazer campanha naquele período?
Montoro - Recurso. Só que a campanha era muito mais barata, porque o chamado horário gratuito, na época, não podia mostrar nada mais do que foto. Não era como hoje, porque 80% de qualquer orçamento de campanha é consumido pelo horário gratuito, que é o horário mais caro que existe. Então, era saliva, sola de sapato e um discurso muito bom. O nosso era forte: 'MDB, você sabe por quê', era fácil de transmitir.

Nunca teve uma campanha tão gostosa. Eu acompanhei todas as campanhas do meu pai e aquela foi de uma adesão... naquele tempo não tinha showmício, na podia levar artistas, mas em todas as praças públicas a gente encontrava uma multidão. Eu lembro que chegamos a fazer 17 comícios em um dia. O primeiro foi em Itobi e o último em São José do Rio Pardo.

Foi também a época do primeiro debate que foi entre o Montoro e o Reinaldo de Barros, que era mediado pelo Ferreira Neto, e o candidato do (Paulo) Maluf acusou o Montoro de ter cinco aposentadorias, e o Montoro mandou ele calar a boca... teve a participação do Jânio (Quadros), foi bem no final, acho que foi um dia  antes da eleição. 

Terra - Como foi a relação do seu pai com o governo militar depois de eleito?
Montoro - Foi muito respeitosa. Lembro que a primeira coisa que o Montoro fez foi ligar para o Figueiredo e comunicar que ele acabava de ser eleito. Ele teve uma boa relação. O Montoro sempre foi prudente. Eu lembro que na escolha do secretário de Segurança, que ficou um pouco com o Exército por causa da Revolução, ele consultou Brasília e foi indicado o nome do Manoel Pedro Pimentel, que já faleceu, e que já havia sido secretário de Justiça, então foi um nome de consenso. O governo Montoro tinha desde uma esquerda mais radical, caracterizada pelo Albino Afonso, Paulo de Tarso, até uma direita marcada pelo Manoel Weber e por outras pessoas. 

Menos de um mês depois da posse, nós enfrentamos a derrubada das grades do Palácio Bandeirantes, que foi um tremendo perigo de um retrocesso, duas ou três semanas depois da posse. Havia invasões de supermercado, era o jogo da direita e o pessoal não percebeu. A direita fazia bagunça para justificar a volta do regime. Naquele momento, o que a diretita mais queria - vamos chamar de direita o governo Figueiredo - era um cadáver, e se fosse um cadáver no palácio dos Bandeirantes, enfrentando a polícia, seria uma calamidade, um retrocesso, e o PCdoB entrou nessa enganação, como eu diria. 

Terra - Como era a situação do governo quando Montoro assumiu?
Montoro - Estava sucateado. A polícia... era impressionante o que tinha de carro abandonado... e aquela malfadada Paulipetro (empresa de extração de gás e petróleo, criada por Maluf em 1979), que a gente conseguiu fechar, era um golpe eleitoral do Maluf. E a situação estava realmente em frangalhos, o especialista nisso, seja feita a justiça, foi o Serra (Secretário de Economia e Planejamento) que fez o governo, ele era um secretário forte. Já o Quércia (eleito em 1987) pegou o governo em ordem.

Terra - Como foi a caminhada para as Diretas?
Montoro - Nas palavras do Serra, tenho vídeo disso: 'se não fosse o Montoro, não existiriam as Diretas'. Porque o governo, na sua maioria, se colocou contra, o próprio Serra falava: 'teu pai é um sonhador de fazer isso, em pleno feriado, não vai dar ninguém, vai ser um fracasso', e o Montoro respondia: 'eu vou fazer porque estou dentro do meu direito'. O movimento era para aprovar a emenda Dante de Oliveira que restituía a eleição direta. (que propunha a realização de eleições diretas para presidente, mas que foi rejeitada no Congresso. Mais tarde, por pressão popular, foi eleito indiretamente o candidato da oposição, que era Tancredo Neves, do PMDB).

Terra - O temor era de que o governo entendesse a movimentação da Diretas como uma provocação?
Montoro - Não era provocação nenhuma, era um movimento pedindo que a emenda fosse votada, não contra o governo. Muitos achavam que ia ser um fiasco porque era feriado, 25 de janeiro (aniversário de São Paulo), que não ia adiantar nada e que eram ilusões do Montoro. Todo mundo discorda, depois da eleição foi um baita sucesso, porque o comício da Sé foi o que realmente restituiu a democracia no Brasil.

Fonte: Terra
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