O motivo da comparação entre Michelle Bolsonaro e Serena Joy, de 'O Conto da Aia'
Michelle Bolsonaro ficou entre os assuntos mais comentados das redes sociais nos últimos dias após tornar público um desentendimento com o senador Flávio Bolsonaro. O motivo da repercussão, porém, foi além do conflito familiar: diversos usuários passaram a associar a ex-primeira-dama à personagem Serena Joy, da obra "O Conto da Aia" (The Handmaid’s Tale).
A discussão começou depois que Michelle relatou divergências sobre as articulações políticas do PL no Ceará. Ela defende o nome da vereadora Priscila Costa para disputar uma vaga ao Senado pelo PL Mulher, enquanto Flávio Bolsonaro apoia alianças políticas envolvendo grupos ligados ao ex-governador Ciro Gomes.
Em seu relato, Michelle afirmou ter sido surpreendida por uma movimentação que classificou como uma articulação "coordenada e premeditada" para enfraquecer a candidatura que apoiava. Ela também revelou ter vivido um momento de tensão durante uma ligação telefônica com o enteado.
De acordo com a ex-primeira-dama, Flávio teria dito que ela "havia chegado ontem e não entendia nada de política", declaração que intensificou a repercussão nas redes sociais e alimentou debates sobre sua influência dentro do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Por que Michelle foi comparada a Serena Joy?
Foi justamente nesse contexto que usuários do X passaram a fazer referência a Serena Joy, uma das personagens centrais de "O Conto da Aia". Na história criada pela escritora Margaret Atwood e adaptada para a televisão, Serena é uma das principais defensoras do regime teocrático de Gileade, ajudando a consolidar um sistema baseado em rígidas regras religiosas e na supressão dos direitos das mulheres.
Ao longo da narrativa, porém, a própria personagem acaba sendo gradualmente excluída dos espaços de decisão e passa a sofrer restrições impostas pelo regime que ajudou a construir.
Para parte dos internautas, a situação vivida por Michelle apresentaria uma semelhança narrativa: uma mulher identificada com um projeto político conservador que, diante de disputas internas de poder, passa a enfrentar resistência dentro do próprio grupo.
Publicações com eesse tema circularam nas redes sociais. Em uma delas, um usuário escreveu que Michelle estaria repetindo "o arco dramático de Serena Joy", ao perceber que estruturas de poder podem também limitar a participação de quem as apoiou.
Outro comentário afirmava que a situação lembrava a trajetória da personagem fictícia, sugerindo que pessoas envolvidas na construção de determinados sistemas políticos podem acabar enfrentando consequências dentro dessas mesmas estruturas.
A comunicadora feminista Beta Bastos postou um longo texto citando essa comparação, no qual diz que Serena Joy é uma das personagens mais perturbadoras de "O Conto da Aia" porque mostra que o patriarcado nem sempre é sustentado apenas por homens.
"Às vezes, ele também encontra mulheres dispostas a defendê-lo, desde que acreditem que ocuparão um lugar privilegiado dentro dele. É por isso que tantas pessoas enxergam em Michelle Bolsonaro um símbolo semelhante. Não porque ela viva a realidade de Gilead, mas porque seu discurso em defesa de papéis tradicionais para as mulheres e sua oposição a pautas feministas lembram a lógica representada por Serena, a de que a liberdade feminina pode ser sacrificada em nome da moral, da religião e da família", escreveu.
Serena Joy é uma das personagens mais perturbadoras de O Conto da Aia porque mostra que o patriarcado nem sempre é sustentado apenas por homens.
Às vezes, ele também encontra mulheres dispostas a defendê-lo, desde que acreditem que ocuparão um lugar privilegiado dentro dele.
— Beta Bastos (@roberta_bastoss) June 26, 2026
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