Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Política

Publicidade

Lula mantém 55% de chance de vencer eleição, diz diretor da Eurasia Group

Christopher Garman diz que soma de medidas anunciadas pelo governo e fake news sobre Nossa Senhora Aparecida não são bala de prata, mas reforçam premissa de que, numa eleição empatada, há vantagem ligeira para o petista pelo poder de incumbência; cenário, contudo, permanece muito apertado

28 set 2026 - 18h41
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A Eurasia Group estima em 55% a chance de Lula vencer a eleição contra Flávio Bolsonaro, apesar do viés de baixa e de modelos matemáticos apontarem empate técnico de 50%. A ligeira vantagem do petista decorre do poder da máquina pública, do arrefecimento da crise no STF e de medidas econômicas recentes. A consultoria considera improvável a definição no primeiro turno e descarta impacto relevante de interferência externa americana, projetando um segundo turno extremamente disputado.

BRASÍLIA - A Eurasia Group mantém a estimativa de 55% de probabilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencer a eleição presidencial, mas com viés de baixa, aponta o diretor executivo para as Américas na Eurasia Group, Christopher Garman. O peso desse viés de baixa, pondera Garman, está menor, após os movimentos dos últimos dias, com a proibição das bets, o anúncio do Desenrola 3.0 e a fake news envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

De acordo com Garman, os modelos analíticos apontam para uma eleição "meio a meio". Entretanto, a Eurasia atribui o viés de vitória a Lula em virtude de ser o atual incumbente, pelo arrefecimento da crise do Supremo Tribunal Federal e pela análise de que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) ainda não foi "plenamente testada".

Anteriormente, a consultoria havia reduzido a probabilidade atribuída a Lula de 60% para 55%. "Os nossos modelos de previsão eleitoral estão apontando 50% a 50% hoje. Como Eurasia, mantemos 55% de probabilidade a Lula, porque enxergamos esse peso um pouco maior para vantagem da incumbência e as fragilidades da própria campanha de Flávio Bolsonaro. Vemos dinâmicas da campanha à frente mais favoráveis a Lula", disse Garman, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

A menos de uma semana do primeiro turno, como o sr. avalia o cenário eleitoral atual? Diante das novas pesquisas e movimentações, a Eurasia mantém a previsão de 55% de chance de reeleição do presidente Lula?

Mantemos, mas reconhecemos novamente que é uma eleição extremamente difícil de prever. Vemos 55% de probabilidade para Lula, mas é uma eleição que parece estar chegando a um meio a meio em termos de chances. A crise do Supremo Tribunal Federal foi um evento que desequilibrou o jogo. O presidente Lula e a campanha dele sofreram claramente mais, o que acabou ampliando o grau de pessimismo do eleitorado e levou até mesmo à queda na aprovação do presidente ao longo desse último mês, quando geralmente a aprovação de um governante sobe numa campanha. Isso foi um grande sinal de alerta e, com isso, a vantagem do presidente Lula no segundo turno se evaporou. Hoje, a média das pesquisas mostra quase um empate entre os dois candidatos. Mantemos a probabilidade de 55% com um viés a Lula, porque as pesquisas dos últimos dez dias mostram que o sangramento (da campanha) do presidente parou, a aprovação dele parou de cair e ele voltou a ampliar o porcentual. A vantagem no segundo turno também se estabilizou ao redor de um empate.

É um viés para baixo para o presidente Lula? Por que o viés a Lula?

Sim, mas um viés de baixa mais leve do que prevíamos há uma semana. O peso desse viés de baixa está menor, após os fatos do último fim de semana. Quando estamos em uma eleição que realmente parece meio a meio, damos um viés para o incumbente, porque ele tem capacidade de se mexer e de fazer novos anúncios. E vemos isso hoje com o aumento do Bolsa Família, o anúncio de restrição das bets e a renegociação das dívidas (Desenrola). Nesse cenário, historicamente, os nossos instintos são para dar a vantagem para quem está no governo. Em segundo lugar, achamos que o candidato Flávio Bolsonaro ainda não foi plenamente testado. Estão saindo mais denúncias contra ele, mas não acho que nenhuma denúncia que saiu nesta semana afeta tremendamente a eleição. Ele será atacado de uma forma mais ampla em um eventual segundo turno, então, ele é uma candidatura que não foi plenamente testada. Por essas razões, damos o viés de vitória ao presidente Lula.

Mas os modelos já apontam para probabilidade de 50%?

Os nossos modelos de previsão eleitoral estão apontando 50% a 50% hoje. Como Eurasia, mantemos 55% de probabilidade de vitória a Lula, porque enxergamos esse peso um pouco maior para vantagem de incumbência e as fragilidades da própria campanha de Flávio Bolsonaro, com risco de novas denúncias envolvendo o candidato. Modelos que focam em temas de linha mais crível à preocupação de segurança e corrupção, nos quais Lula é menos crível, apontam vitória a Flávio Bolsonaro, enquanto modelos que olham mais aprovação de governo apontam vitória a Lula, já modelos que pesam intenção de voto apontam para meio a meio. Hoje, uma leitura fiel dos modelos de previsão que usamos para calibrar a nossa aposta aponta para 50% a 50%, mas mantemos 55% a Lula porque enxergamos algumas dinâmicas da campanha à frente, como a tendência de arrefecimento do noticiário da crise do STF, fragilidades do Flávio que ainda devem ser exploradas e os anúncios de programas pelo governo que podem, talvez, dar mais um ponto para o presidente Lula. Por isso, que mantemos viés de vitória a Lula. Reconhecemos que em uma leitura fria dos modelos analíticos não há um favorito na disputa hoje.

Nos últimos dias, houve novos movimentos no cenário eleitoral com a proibição das bets, o anúncio do Desenrola 3.0 pelo governo e o boato envolvendo a Nossa Senhora Aparecida. Quais reflexos estes fatos podem ter na dinâmica eleitoral?

A repercussão da proibição das bets, o alívio da dívida para os consumidores e a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida sugerem que Lula entra nessa última semana do primeiro turno com um pequeno ímpeto. O nosso viés de baixa da probabilidade de 55% está um pouco menor hoje ante semana passada. Há um viés de baixa ainda, porque o Lula está em média um ponto na frente na simulação do segundo turno, na média das pesquisas, mas as pesquisas ainda não estão calibrando bem quem deve comparecer nas urnas. Retirando o viés de comparecimento, Lula e Flávio estão empatados no segundo turno ou com uma vantagem suave a Lula, que recuperou um ponto porcentual nas pesquisas divulgadas hoje. Na semana passada, Flávio estava um ponto à frente na soma do segundo turno e agora talvez esteja caminhando para um zero a zero. A soma de todas essas medidas anunciadas pelo governo e a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida não são nenhuma bala de prata, mas reforçam a nossa premissa de que numa eleição empatada há vantagem ligeira para Lula pelo poder de incumbência. Há leve favoritismo a Lula, mas o cenário permanece muito apertado.

O que pode influenciar ainda neste cenário?

Estamos muito de olho se o noticiário do escândalo do Supremo continuará dominando as manchetes, o que é ruim para a campanha do presidente Lula na medida que a corrupção se transforma na principal preocupação eleitoral, o presidente Lula não é crível neste tema. Além disso, reforça um grau de pessimismo com o futuro do eleitor, o que é muito ruim para o governante. Temos visto que esse noticiário arrefeceu um pouco, mas um vento contrário à nossa aposta é o fato de que essa crise está perdurando e pode carregar um eventual segundo turno. Estamos também de olho na qualidade da campanha. A campanha do senador Flávio Bolsonaro foi a mais feliz, ele se apresentou bem ao eleitor, tem falado sobre temas de segurança de forma crível e tem associado temas ao custo de vida. Já a campanha do presidente Lula, do PT, começou dispersa. Eles estão começando a acertar o foco, estão melhorando, porque no fundo eles têm de mostrar o que foi entregue e uma "historinha" de como isso apresenta melhoras no futuro. Essa "historinha" não foi plenamente articulada. Portanto, estamos muito de olho no noticiário, na qualidade da campanha e em possíveis novas denúncias e ataques ao Flávio Bolsonaro.

Lula e Flávio Bolsonaro lideram as pesquisas de intenção de voto na disputa pela Presidência da República
Lula e Flávio Bolsonaro lideram as pesquisas de intenção de voto na disputa pela Presidência da República
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

O sr. citou a crise do STF como um vento contrário ao presidente Lula. Vemos o governo tentando mudar a pauta, lançando mão de um pacote de bondades. Isso é suficiente para ter impacto eleitoral, para o presidente Lula chegar ao segundo turno e até mesmo ampliar a aprovação do governo?

A preocupação com o endividamento das famílias e a queda da confiança do consumidor são alguns ventos econômicos contrários. Acho que o maior fator que levou à queda do presidente Lula nas pesquisas foi o escândalo do Supremo, não o lado econômico. Mas o lado econômico é um vento que também conspira contra. Alguns desses anúncios podem aumentar a aprovação, mas parte da estratégia é deslocar o eixo do debate nacional da crise do Supremo a um território de temas mais favorável ao presidente. Mais relevante do que as medidas é a capacidade de deslocar a cobertura da imprensa para fora das denúncias no Supremo para temas mais favoráveis ao presidente Lula. Metade de uma campanha presidencial é se o candidato consegue deslocar o eixo do foco eleitor para temas que são mais favoráveis a ele. O sangramento terminou, estabilizou, a campanha do PT está mais aliviada, mas o equilíbrio atual não é tão confortável para o presidente Lula. Por isso, é tão difícil cravar um resultado.

As pesquisas de intenção de voto estão capturando esse cenário?

As pesquisas hoje apontam para um empate técnico, mas reconhecemos que alguns institutos ainda podem estar subestimando um pouco o voto da direita, o que favorece a candidatura do Flávio Bolsonaro. Há pouca evidência empírica, em estudos nos Estados Unidos e na Europa, sobre a tese do voto envergonhado. O que ocorreu no Brasil em outras eleições é que os institutos não calibram bem quem é que vai comparecer nas urnas e também o fato de que o perfil de quem responde às entrevistas tem mudado, o que é chamado de "non-response bias". Esses são os dois grandes vilões do porquê que as pesquisas erram.

Há um movimento, sobretudo do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), por voto útil no primeiro turno. Há chances de a eleição presidencial ser definida já no próximo domingo (4)?

Tem chance sim, mas achamos que é baixa. A soma dos candidatos alternativos chega hoje a 12%, estava em 18%. Achamos que esse porcentual desidrata mais e talvez caía para cerca de 8%. Em uma eleição muito equilibrada entre Lula e Flávio, e alternativos somando 8%, achamos difícil que um candidato consiga chegar a 51% dos votos no primeiro turno. Para isso teria que haver uma desidratação bem maior nos alternativos do que vimos em outras eleições, quando geralmente o porcentual cai pela metade.

Cientistas políticos vêm afirmando que será uma eleição mais de mobilização do que conversão de votos e com risco de abstenção recorde em virtude da polarização e do desânimo do eleitor. Quem precisará fazer mais esforço para levar o eleitor à urna?

As duas campanhas precisam fazer isso. As campanhas no Brasil não têm um histórico de tentar mobilizar os eleitores para ir para as urnas, porque o voto é obrigatório. Esse tipo de eficácia das campanhas, que nos Estados Unidos é chamado de "get out the vote" de tentar convencer as pessoas a ir votar, não tem tradição nas campanhas atuais no Brasil. A abstenção poderá ser maior e é difícil de cravar o perfil da abstenção. Sabemos que historicamente uma abstenção alta prejudica a candidatura da esquerda, porque quem não vota tende a ser uma pessoa mais idosa, ou de menor escolaridade, ou de menor renda, o que tende a ser um voto mais progressista. Isso é parte da razão de que a direita está sendo subestimada. Agora, com esse desalento tão profundo, talvez alguns eleitores do campo da direita podem não comparecer às urnas. Essa eleição é marcada pelo desalento e pelo desânimo com as duas candidaturas, com uma certa decepção das respectivas bases. É um cenário bem diferente de quatro anos atrás, quando você tinha cada lado mobilizado e articulado pelo seu candidato. É uma eleição, ao que tudo indica, com um segundo turno bem apertado.

Qual impacto podemos prever do desempenho dos candidatos no primeiro turno no resultado do segundo turno?

Discordamos do debate que temos visto de que, se o Flávio está atrás do presidente Lula em menos de 5 pontos porcentuais, Flávio terá uma vantagem no segundo turno. De acordo com a nossa análise, se o presidente Lula tiver uma vantagem de 2 pontos porcentuais no primeiro turno e com os votos alternativos somando de 8 a 10 pontos porcentuais restantes, ele estaria à frente no segundo turno em ligeira vantagem. Se a vantagem de Lula sobre Flávio no primeiro turno for de um ponto porcentual, talvez Flávio saía com vantagem no segundo turno, na análise de perfil do voto alternativo. Isso vai depender da composição da diferença entre Lula e Flávio no primeiro turno com o total dos votos alternativos. Se houver menos votos para candidatos alternativos, o presidente Lula precisa de uma vantagem menor. Essas duas variáveis precisam ser analisadas conjuntamente. Aliás, a melhor maneira de você saber como o eleitor vai votar no segundo turno é perguntando a ele e as simulações apontam para um empate técnico, uma diferença de 1 ponto porcentual a zero.

Há acusações pelo governo brasileiro de tentativa de interferência eleitoral dos Estados Unidos. O que isso pode influenciar na prática no processo eleitoral e na mudança de humor do eleitor?

Acho difícil que a ação americana tenha um impacto nessa eleição. Reconheço a preocupação do Palácio do Planalto, mas vejo que as ferramentas que a Casa Branca tem para influenciar são bem limitadas. Os eleitores estão culpabilizando quase igualmente a família Bolsonaro e o presidente Lula pelas tarifas. Se a Casa Branca colocar uma sanção da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, isso pode ajudar o Lula, mas a credibilidade do ministro é tão baixa que não terá o mesmo impacto favorável ao presidente que teve no ano passado. Mas se for vista como interferência ostensiva pode ajudar o presidente Lula. Há ainda um debate maior se existem meios através de empresas de comunicação e tecnologia, que podem estar propagando mais mensagens da direita nas redes, mas é muito difícil chegar a uma conclusão. As empresas de tecnologia americanas têm grande presença no Brasil com negócios relevantes. Acho difícil que elas venham a tomar decisões proativamente para poder ajudar um candidato e colocar um risco reputacional e de sanções dos tribunais por interferência indireta. Pode haver outras empresas associadas ao ecossistema da direita nos Estados Unidos, que pode ajudar através de influenciadores, mas também não vejo um impacto relevante nacional na eleição. Não vejo ação americana interferindo para gerar impacto nas eleições de 2026.

Estadão
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra