Lula antecipa estratégia de ataque a Flávio; aliados de senador dizem que efeito Lulinha ainda virá
Pesquisa Datafolha mostra que distância entre o presidente e o senador caiu, mas petista ainda lidera as intenções de voto
A campanha de Lula antecipará ataques a Flávio Bolsonaro no horário eleitoral para conter o desgaste das investigações da PF contra Fábio Luís, o Lulinha. A estratégia petista explorará supostas interferências de Jair Bolsonaro na PF e cobrará explicações de Flávio sobre repasses financeiros polêmicos. A reação ocorre após pesquisa Datafolha mostrar redução na vantagem de Lula, cenário que aliados do senador atribuem ao início do impacto do caso Lulinha na corrida presidencial.
BRASÍLIA - O comando da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição decidiu antecipar a estratégia planejada para desconstruir a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A ofensiva estava programada para meados de setembro, mas, diante do escândalo provocado pelos inquéritos da Polícia Federal envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, a artilharia irá ao ar logo nos primeiros dias do horário eleitoral, que começa em 28 de agosto.
Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 21, mostrou que a distância entre Lula e Flávio diminuiu. Mesmo assim, o presidente está na dianteira. Na simulação de primeiro turno, Lula tem 39% e Flávio, 33%. Na segunda rodada, o petista marca 47% e o candidato do PL, 43%.
O levantamento é o primeiro desde o início oficial da campanha e coincide com o avanço das investigações da Polícia Federal, autorizadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Fábio Luís, conhecido como Lulinha, é alvo de três inquéritos, ao lado da lobista Roberta Luchsinger.
"Está tudo como dantes no Quartel de Abrantes e a pesquisa mostra um quadro de estabilidade, com o presidente liderando em todos os cenários", afirmou o secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares. "O Brasil busca confiança, não instabilidade; busca verdade, nunca mentira. A sociedade quer respostas concretas, certezas, e não aventuras", completou ele.
Um dos integrantes da campanha de Flávio disse, por sua vez, que a pesquisa não mostra o "efeito Lulinha" sobre as intenções de voto porque as investigações estão apenas no começo. Na avaliação desse interlocutor, que falou sob a condição de anonimato, se as consequências do posicionamento de Lula sobre esse tema avançarem, haverá uma rápida mudança de quadro, com vantagem para Flávio.
O núcleo duro da campanha do PL admite que a redução da distância entre Lula e Bolsonaro - que no primeiro turno era de dez pontos porcentuais, e hoje é de seis - reflete mais o desgaste do presidente do que o mérito do próprio senador. No diagnóstico da equipe de Flávio, o impacto do caso Lulinha aparecerá ao longo da campanha.
A Polícia Federal suspeita que o filho do presidente e sua amiga Roberta Luchsinger praticavam tráfico de influência no governo federal. Um dos contratos negociados por Roberta, que teria a anuência de Lulinha, dizia respeito à venda do medicamento canabidiol para o Ministério da Saúde, sem licitação.
Dona de uma consultoria, a lobista trabalhava para o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. O contrato com o Ministério da Saúde não foi adiante, mas, mesmo assim, a PF afirma que Lulinha era "beneficiário indireto das articulações conduzidas por terceiros em seu nome". Como revelou o Estadão, a PF diz que Lulinha também é citado como "destinatário de pagamentos" de empresário que tentou negócios com a Dataprev.
Embora o caso traga novamente à tona o tema da corrupção, que tanto estrago causou ao PT depois dos escândalos do mensalão e do petrolão, a campanha do presidente já definiu uma estratégia para enfrentar o tema.
Em um dos vídeos que vai exibir, o PT tentará mostrar que o então presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, interferia na Polícia Federal. "Eu não vou esperar f.... a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar!", disse Bolsonaro em reunião ministerial de 22 de abril de 2020. "Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira".
A narrativa do PT será de que, enquanto Bolsonaro tentava proteger Flávio - acusado de participação no escândalo da "rachadinha" -, Lula atua para que a Polícia Federal investigue todas as denúncias, mesmo se atingirem o seu próprio filho. A ideia da equipe petista é mostrar áudios com as declarações de Bolsonaro e de Lula em programas eleitorais de rádio e TV.
Além disso, a campanha do presidente vai cobrar explicações de Flávio sobre o dinheiro que ele pediu ao então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. No ano passado, o senador solicitou R$ 134 milhões a Vorcaro, a quem chamou de "irmão".
Quando as conversas foram divulgadas, depois da prisão do banqueiro, Flávio disse que o dinheiro era para financiar o filme Dark Horse, que conta a trajetória de Bolsonaro. Os repasses feitos pelo banqueiro chegaram a R$ 61 milhões.
"Fábio Luís colocou o sigilo bancário à disposição. Flávio Bolsonaro, não", disse Éden Valadares. "Abre o sigilo e mostra as contas, Flávio!", provocou o dirigente. Na quinta-feira, 20, o senador afirmou que este assunto é "página virada". Sem detalhar os gastos para Dark Horse, ele concluiu: "Quem tem que prestar contas é o Lula; não sou eu".
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