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Impeachment não muda postura antipolítica de Witzel

Governador do Rio não tem líder na Assembleia Legislativa nem indicou parlamentar que faça interlocução com a Casa

18 jul 2020 - 05h11
(atualizado às 09h15)
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Passado mais de um mês da abertura de processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), o governador Wilson Witzel (PSC) mantém uma postura distante dos deputados estaduais. Ele não tem líder na Casa nem indicou um parlamentar que faça a interlocução com a Alerj.

Coletiva de imprensa de Wilson Witzel no Hospital de Campanha do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ)
Coletiva de imprensa de Wilson Witzel no Hospital de Campanha do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ)
Foto: Ivan Sampaio / Futura Press

O governador está sendo questionado na Assembleia pela suspeita de estar envolvido nos escândalos de corrupção na Saúde em plena pandemia. Witzel afirma ser inocente. Na quarta-feira passada, em vídeo, disse que as acusações são "levianas" e feitas por pessoas "que não querem ver um juiz governar o Rio de Janeiro".

"Fui um juiz linha-dura e isso, infelizmente, está incomodando muita gente ligada ao crime organizado e às máfias que atuam no Estado. Por que será que alguns não querem um ex-juiz governando o Estado?", afirmou Witzel, na gravação. Essa postura, de se apresentar como juiz, incomoda os deputados, que a interpretam como inaptidão para a política.

Ninguém quer assumir a liderança do governo na Alerj, função que está vaga desde 29 de maio. Além disso, já não há um interlocutor específico que tente reverter o prejuízo na Casa. O vice-governador, Cláudio Castro, o secretário de Casa Civil, Cleiton Rodrigues, e até o presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo, chegaram a ser enviados ao Palácio Tiradentes para conversar com os deputados, mas não houve avanços.

Um deputado ouvido pelo Estadão sob condição de anonimato disse que Witzel "já perdeu completamente a mão" e que a falta de diálogo leva a uma situação política "muito grave".

A defesa de Witzel tem até o dia 30 para apresentar seus argumentos à comissão especial do impeachment da Alerj. A tendência é de que o caso seja levado ao plenário em agosto.

Antes escalado para conversar com a Assembleia, Cláudio Castro tem mantido discrição. Ele é orientado por aliados a não se associar exageradamente ao governador, a fim de não ficar contaminado caso o impeachment seja aprovado. É ele quem assumiria o cargo se Witzel fosse afastado.

Aliados do governador afirmaram que o governador, se cair, não vai deixar o Palácio Guanabara de forma pacífica. A tendência é de que tente revelar fatos que possam comprometer tanto o próprio vice, que controla órgãos como o Departamento de Trânsito (Detran), quanto o presidente da Alerj.

Para evitar a possibilidade de ser afastado do cargo, Witzel tem apostado na via judiciária. Anteontem, um desembargador do Rio negou o pedido apresentado pela defesa do governador, que questionava pontos das acusações e do rito do impeachment. Após a decisão liminar desfavorável, a defesa pretende pedir para o caso ser julgado pelo colegiado do Órgão Especial do Tribunal de Justiça, composto por 25 desembargadores. Se também for derrotado lá, Witzel recorrerá às instâncias superiores, em Brasília.

O ex-secretário de Saúde Edmar Santos foi preso na semana passada pelo MP do Rio, o que só colaborou para a degradação política de Witzel. Sua detenção causou uma disputa entre a Promotoria fluminense e o Ministério Público Federal, a quem cabe investigar o governador. Segundo a revista Veja, Edmar havia feito um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República.

Na delação, ele entregaria provas do envolvimento de Witzel no suposto esquema. Por isso a PGR pediu a soltura do ex-secretário, o que vai contra o MP local. Os investigadores têm em mãos, além disso, três celulares e três computadores do governador apreendidos em maio, quando ele foi alvo de mandado de busca e apreensão.

Estadão
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