Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Política

Publicidade

É falso que vacina de mRNA tenha alterado cromossomos de imunizados

DECLARAÇÃO SOBRE CARIÓTIPO ATRIBUÍDA A MÉDICO CANADENSE CIRCULA NAS REDES SOCIAIS DESDE 2023 E VOLTOU A VIRALIZAR, MAS CARECE DE RESPALDO CIENTÍFICO, SEGUNDO ESPECIALISTAS

30 set 2026 - 07h20
(atualizado às 07h48)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
É falsa a alegação de que vacinas de mRNA contra a covid-19 alteram o cariótipo ou o DNA humano. Cientistas explicam que o RNA age no citoplasma, sem contato com o núcleo celular, sendo biologicamente incapaz de integrar-se aos cromossomos. Além disso, os imunizantes não atingem células reprodutivas, refutando riscos a futuras gerações. Embora haja debate técnico sobre limites de DNA residual de fabricação, não existem evidências de danos à saúde nem registro de mutações após bilhões de doses.
Vacinas contra covid não alteraram cromossomos de vacinados.
Vacinas contra covid não alteraram cromossomos de vacinados.
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O que estão compartilhando: que as vacinas de mRNA contra a covid-19 alteraram, de forma permanente, o cariótipo (conjunto de cromossomos) de pessoas vacinadas.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, não existe nenhuma evidência científica de que as vacinas de mRNA tenham causado esse tipo de alteração. O mecanismo de alteração descrito pela postagem não é compatível com a forma como essas vacinas agem no organismo.

Saiba mais: A alegação é atribuída ao médico canadense Chris Shoemaker e circula em um vídeo nas redes sociais. Segundo o vídeo, essa alteração teria sido identificada em diferentes células, como de fígado, espermatozoides, óvulos e medula óssea. O médico diz ainda que há DNA nas vacinas.

O conteúdo reproduz entrevista dada por Shoemaker em 2023 a um site americano identificado com discurso contrário às vacinas, e voltou a circular amplamente em 2026.

Shoemaker tem formação em medicina de família e atuou por cerca de 45 anos em emergências hospitalares em Ontário e na Colúmbia Britânica, além de bases militares canadenses. A partir de 2021, tornou-se uma voz conhecida em manifestações contrárias às vacinas de mRNA, incluindo um protesto de caminhoneiros em Ottawa, em 2022. Uma busca do Estadão nas bases científicas PubMed e Google Scholar não encontrou nenhum registro de publicação científica assinada por ele.

O Estadão ouviu dois especialistas para avaliar a alegação do canadense: a geneticista Mayana Zatz, do Centro do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP), e o virologista Daniel Mansur, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O que é o cariótipo?

O cariótipo é o conjunto dos cromossomos de uma pessoa, a forma como o DNA está organizado dentro do núcleo das células. No ser humano, esse material está condensado em 23 pares de cromossomos.

Segundo Mayana Zatz, uma alteração em um cromossomo inteiro não é comparável a uma mutação pontual em um único gene. Uma mutação genética específica é pequena demais para ser vista ao microscópio, mesmo havendo métodos para detectá-la. Já uma alteração cromossômica afeta milhares de genes de uma só vez e seria visível de imediato em qualquer exame citogenético comum.

Por que a alteração nos cromossomos não seria possível?

De acordo com a geneticista, se a alegação do vídeo fosse verdadeira e cromossomos tivessem sido alterados em óvulos e espermatozoides de pessoas vacinadas, o efeito esperado seria o nascimento de crianças com malformações graves. A maioria dos embriões nem sequer chegaria a se desenvolver até o nascimento. Mas nada disso foi observado, apesar de bilhões de doses de vacina aplicadas em todo o mundo desde 2021.

Ela acrescenta que existem estudos de laboratório que tentaram verificar se a exposição de células a vacinas de mRNA causaria alterações nos cromossomos, e nenhuma foi encontrada.

Como funciona a vacina de RNA?

O virologista Daniel Mansur explicou que a vacina de RNA funciona de forma bastante diferente de um vírus completo. Enquanto o vírus causador da covid-19 carrega cerca de 30 genes diferentes e pode alterar amplamente o funcionamento da célula que infecta, a vacina de RNA contém apenas a informação genética necessária para produzir uma única proteína, usada para estimular a resposta do sistema imunológico.

Essa molécula de RNA age no citoplasma da célula, região onde ocorre a produção de proteínas, e tem pouquíssimo contato com o núcleo, que é onde o DNA está armazenado. Segundo o especialista, ao longo de toda a evolução humana, praticamente não se encontram no genoma humano vestígios de vírus de RNA parecidos com o usado nas vacinas, mesmo sendo vírus que nos infectam há milhares de anos, como o da dengue. Isso ocorre porque a incorporação desse tipo de material ao DNA exige uma enzima específica que o organismo não produz naturalmente.

Mansur destacou que, para que uma alteração genética fosse transmitida a futuras gerações, como sugerido no vídeo, ela precisaria ocorrer especificamente nos óvulos ou espermatozoides. Mas a vacina contra a covid-19 é aplicada no músculo, e a partícula vacinal percorre naturalmente o caminho até o fígado e os linfonodos, não até os órgãos reprodutivos.

E a presença de DNA nas vacinas, isso é verdade?

Durante o processo de fabricação das vacinas de RNA, é utilizado um molde de DNA. Pequenos fragmentos desse molde, chamados de DNA residual, podem permanecer na dose final. Esse é um tema de debate técnico real entre cientistas.

Um estudo publicado em 2025 na revista científica Autoimmunity, com amostras de vacinas da Pfizer e da Moderna coletadas no Canadá, identificou quantidades de DNA residual acima dos limites recomendados por agências reguladoras internacionais em alguns dos frascos analisados.

Por outro lado, um estudo publicado na revista científica npj Vaccines, ligada ao grupo Nature, analisou 15 lotes das mesmas vacinas usando quatro métodos diferentes e concluiu que a quantidade de DNA residual estava dentro dos limites aprovados em todos os casos, atribuindo resultados divergentes anteriores a falhas de metodologia.

Além disso, a agência reguladora australiana testou, de forma independente, 28 lotes das vacinas e confirmou que todos estavam dentro do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Segundo Mansur, mesmo os estudos que apontam contaminação acima do esperado não descrevem qualquer consequência à saúde derivada disso. Ele explicou que, mesmo que fragmentos desse DNA fossem reconhecidos pelo sistema imunológico, o esperado seria uma resposta parecida com a de uma infecção comum, com a eliminação dessas células.

Ou seja, existe um debate real sobre controle de qualidade na fabricação das vacinas, mas nenhuma evidência de que isso tenha causado alteração genética em quem foi vacinado.

Um precedente conhecido

Mayana Zatz lembrou que casos de desinformação médica com grande repercussão já aconteceram antes. O exemplo mais citado é o de um estudo publicado em 1998 associando a vacina tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, ao desenvolvimento de autismo em crianças.

O estudo foi desmentido por pesquisas posteriores e formalmente retratado pela revista científica que o publicou, 22 anos depois, após ser identificado como fraudulento. Ainda assim, o episódio provocou queda na vacinação em vários países e contribuiu para o retorno de casos de sarampo em locais onde a doença já havia sido controlada, incluindo o Brasil.

Estadão
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra