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Política

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Deputados impulsionaram anúncios com boato falso sobre Lula e roubo de celular

PROPAGANDAS ELEITORAIS PAGAS POR CANDIDATOS ALCANÇARAM MILHÕES DE USUÁRIOS; ALEGAÇÃO DE QUE PRESIDENTE DEFENDEU LADRÕES QUE COMPRAM 'CERVEJINHA' CIRCULA DESDE 2021

22 out 2026 - 10h50
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Resumo
Candidatos a deputado eleitos e suplentes investiram em anúncios nas redes sociais para difundir o boato de que Lula teria defendido o roubo de celular para tomar "cervejinha". Originada de um vídeo manipulado e já desmentida, a desinformação somou mais de 4,6 milhões de impressões em campanhas de nomes como Coronel Alberto Feitosa e Anderson Moraes. A prática infringe normas do TSE contra a divulgação de fatos sabidamente inverídicos, cuja apuração exige representação formal na Justiça Eleitoral.

Deputados eleitos e suplentes impulsionaram propagandas eleitorais nas redes sociais com a alegação falsa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu roubo de celular para tomar "cervejinha", boato desmentido desde 2021. Os conteúdos alcançaram mais de 4,6 milhões de impressões, que medem a frequência com que os anúncios estiveram na tela para o público-alvo, segundo dados disponibilizados pela Meta.

Deputados e suplentes impulsionaram anúncios com boato falso sobre Lula e roubo de celular
Deputados e suplentes impulsionaram anúncios com boato falso sobre Lula e roubo de celular
Foto: Reprodução/Biblioteca de Anúncios da Meta / Estadão

A alegação já foi desmentida pelo Estadão Verifica em mais de uma ocasião (veja aqui e aqui). A peça desinformativa surgiu de uma antiga entrevista do petista, que foi editada para parecer que Lula defendeu o roubo de celular para ladrões tomarem uma "cervejinha". Na entrevista original, ele não fala nada disso.

Deputados eleitos que compartilharam o boato em propagandas eleitorais

A desinformação apareceu em propaganda eleitoral do deputado estadual Coronel Alberto Feitosa (PL), que concorreu à reeleição em Pernambuco. Ele foi reeleito com 58.813 votos. Um anúncio teve público estimado entre 500 mil e 600 mil impressões. O valor gasto variou de R$ 3 mil a R$ 3,5 mil.

Na propaganda em vídeo, o parlamentar comenta diferentes registros de criminalidade. "A criminalidade está disseminada em todo o Brasil. Ainda tem um presidente da República que passa pano e diz que essas pessoas são vítimas da sociedade e que ela pode fazer isso para roubar um celular e tomar uma cervejinha", diz.

O deputado estadual do Rio de Janeiro Anderson Moraes (PL), que concorreu à reeleição, também impulsionou um conteúdo com a mentira ligada a Lula. Ele foi eleito com 129.325 votos. O anúncio teve entre 100 mil e 125 mil impressões. A Meta estima um valor gasto entre R$ 1 mil e 1,5 mil.

No vídeo impulsionado, o deputado critica o "narcoterrorismo" no Rio de Janeiro. "E a gente escuta algumas pessoas querendo manter o cara que chama o traficante de vítima, o cara que diz que só roubou um celular para tomar uma cervejinha", diz, referindo-se a Lula.

O vereador Eduardo Moura (Novo), que foi candidato a deputado federal em Pernambuco, também impulsionou o boato em um anúncio. Ele foi eleito com 113.482 votos. Moura não cita o nome de Lula diretamente, mas faz referência ao boato ao falar sobre a criminalidade no município Cabo de Santo Agostinho.

"O crime só se resolve com mão de ferro. Não dá pra romantizar o que é um bandido. Um bandido não rouba pra tomar uma cervejinha. Um bandido não mata pra tomar uma cervejinha", diz.

Segundo a Biblioteca de Anúncios da Meta, o conteúdo teve de 250 mil a 300 mil impressões. O valor gasto foi estimado entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil.

Não foram eleitos, mas impulsionaram a campanha de desinformação

A propaganda de maior alcance foi feita por Victor Ruiz (PP), que se candidatou a deputado federal em São Paulo. Ele ficou como suplente, com 46.804 votos. Foram 11 conteúdos que, juntos, somaram mais de 1 milhão de impressões. De acordo com dados da Biblioteca de Anúncios, o valor total estimado de gastos no anúncio foi de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil.

No vídeo anunciado, ele aparece em um debate com eleitores de esquerda. Um dos homens que discute com Victor defende que a esquerda não incentiva a criminalidade. Ele retruca, nos trechos iniciais do conteúdo, com a alegação falsamente atribuída a Lula:

"Eu pego duas grandes afirmações do teu presidente, ligado totalmente à esquerda, e ele diz o seguinte: que ele não pode mais ver jovem de 14, 13 anos sendo morto pela polícia porque rouba celular, muitas vezes só vai pegar o celular pra tomar a cervejinha dele, e depois ele fala que o traficante é muitas vezes vítima do usuário e não é fake news".

Outro candidato que disseminou a mentira foi o deputado estadual Tomé Abduch (Republicanos-SP). Ele concorreu ao cargo de deputado federal em São Paulo e ficou como suplente, totalizando 71.534 votos. O anúncio não está mais ativo, mas as impressões dos vídeos ultrapassaram 1 milhão, e o valor gasto variou entre R$ 10 mil a 15 mil.

No vídeo, Abduch critica a alta criminalidade ao comentar um vídeo de um assalto. O candidato diz que "essa situação é uma escolha de alguém como Lula, que acredita que esse marginal só quer tomar uma cervejinha".

O candidato Paulo Proieti (Novo), que concorreu ao cargo de deputado federal em São Paulo, fez ao menos cinco anúncios em que dissemina o boato. Suplente, ele obteve 963 votos. No vídeo, ele comenta um vídeo de um assalto, tática semelhante à usada pelos outros candidatos.

"E essa é a opinião do presidente Lula sobre quem comete esse tipo de crime [roubo], dá uma olhada", diz. Em sequência, exibe o vídeo manipulado da entrevista de Lula. Na legenda, o candidato escreve: "Enquanto Lula tenta justificar o roubo de celular dizendo que seria para 'tomar uma cervejinha', quem trabalha enfrenta a realidade: vidro quebrado, prejuízo, medo e insegurança".

Juntos, os conteúdos somaram pelo menos 600 mil impressões. Um dos impulsionamentos custou pelo menos R$ 2 mil, enquanto outro teve valor mínimo de R$ 1,5 mil, segundo estimativa da Biblioteca de Anúncios da Meta.

Outro candidato que disseminou o boato é Ramatis de Oliveira (PL), que concorreu ao cargo de deputado estadual no Rio Grande do Sul. O suplente teve 2.981 votos. Ele não cita o nome de Lula diretamente, mas faz referência ao roubo de celulares para tomar "cervejinha".

"Roubar pra tomar uma cervejinha, isso aí tá valendo, né? Mas aí eu ter uma arma pra poder me defender na minha casa, no meu trabalho ou na minha família, isso não pode", diz, logo nos segundos iniciais do vídeo.

Doze versões do anúncio constam na Biblioteca de Anúncios da Meta, que totalizaram entre 150 mil e 175 mil impressões. O valor gasto na publicidade é estimado em R$2,5 mil a R$3 mil.

O vereador Ranieri Marchioro (Republicanos), que concorreu ao cargo de deputado federal no Paraná, também disseminou o boato em propaganda eleitoral. O suplente totalizou 5.298 votos.

O anúncio teve de 125 mil a 150 mil impressões, sendo que o valor gasto variou entre R$1 mil e R$1,5 mil. No conteúdo, ele comenta um vídeo de um assalto e defende "leis mais rigorosas para crimes graves". Diz, ao final da propaganda eleitoral, que "crime não se justifica" e que "não tem desculpa que vai depois tomar uma cervejinha".

Com 4.854 votos, outro suplente que disseminou o boato foi Wagner Galardão (PL), que se candidatou ao cargo de deputado estadual no Rio Grande do Sul. No vídeo, ele cita 22 motivos para não votar no PT neste ano. Um dos motivos listados seria que Lula acha que "está tudo bem" roubar um celular para "tomar uma cervejinha".

O conteúdo que impulsiona o boato teve as impressões estimadas entre 900 mil a 1 milhão. Já o valor gasto foi de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil, segundo a Biblioteca de Anúncios da Meta.

O que fala a legislação eleitoral

A Resolução nº 23.610, de 18 de dezembro de 2019, dispõe que constitui crime divulgar fatos sabidamente inverídicos em relação a partidos ou candidatos na propaganda eleitoral ou durante o período de campanha, quando capazes de exercer influência no eleitor.

A ação é punível de detenção de dois meses a um ano ou pagamento de 120 a 150 dias-multa. Procurado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirmou que não se manifesta sobre temas ou casos que possam vir a ser objetos de análise na Justiça Eleitoral. Isso é feito somente em autos processuais.

Segundo o advogado e professor de Direito Eleitoral Alberto Rollo, os anúncios pagos nas redes sociais pelos candidatos e partidos são uma modalidade de propaganda eleitoral. Sendo assim, ele destaca que a lei eleitoral proíbe a divulgação de desinformação nos conteúdos.

Rollo ressalta que é necessário que exista uma representação para analisar o material. A Justiça Eleitoral, de forma isolada, não faz análise automática dos conteúdos.

Segundo o especialista, quando não há menção explícita ao candidato, é necessário analisar a forma e o conteúdo da propaganda eleitoral. "Tem que ser ou a menção explícita ou alguma coisa muito objetiva e ostensiva, que vincule aquela propaganda ou aquela divulgação a determinado candidato", disse.

Estadão
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