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Política

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Avanço da direita na América Latina pode ter impacto na eleição do Brasil? Especialistas comentam

Direita caminha para se tornar majoritária entre os países sul-americanos, mas especialistas veem impacto limitado nas eleições brasileiras

23 jun 2026 - 04h59
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O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Foto: Reprodução/Instagram

A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia e a provável eleição de Keiko Fujimori no Peru reforçam uma mudança no mapa político da América do Sul. Se em 2023, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou seu terceiro mandato no Brasil, a região era amplamente dominada por governos de esquerda, agora a direita caminha para se tornar majoritária entre os países sul-americanos.

Naquele ano, o subcontinente reunia oito governos de esquerda (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Guiana, Suriname e Venezuela) e quatro de direita (Equador, Paraguai, Peru e Uruguai). Já em 2026, a América do Sul caminha para contar com sete governos de direita (Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru) e cinco de esquerda (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai).

Além disso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem apoiado o avanço da direita no continente como parte de uma tentativa de consolidar uma coalizão internacional alinhada aos seus interesses. O objetivo seria expandir a influência do chamado “trumpismo” --baseado no nacionalismo econômico e no conservadorismo -- e fortalecer governos aliados na América Latina e em outras regiões.

Mas todo esse movimento levanta uma questão: esse avanço da direita nos países vizinhos pode influenciar a disputa presidencial brasileira de 2026?

Para especialistas ouvidos pelo Terra, o cenário regional pode até reforçar discursos e estratégias da direita brasileira, mas dificilmente será decisivo para o resultado das eleições. A avaliação predominante é que o comportamento do eleitor continua sendo determinado principalmente por fatores internos, como economia, segurança pública e avaliação do governo em exercício.

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Além disso, analistas apontam que o governo de Trump enfrenta desgaste, sobretudo por suas políticas mais rígidas contra imigrantes, pelo fracasso de medidas tarifárias e por dificuldades na condução da política externa, marcada por conflitos e tensões internacionais.

Eleições continuam sendo definidas dentro de cada país

Embora reconheçam que existe influência entre grupos políticos da região, os especialistas afirmam que as eleições latino-americanas continuam sendo, em maior medida, resultado de dinâmicas nacionais. Professor de Ciência Política da USP, Glauco Peres afirma que questões internas têm peso muito maior do que fatores externos na definição dos resultados eleitorais. "As questões internas valem mais", destaca.

Segundo ele, o contexto regional funciona mais como um ambiente de troca de experiências, recursos e estratégias entre grupos ideologicamente próximos. "Os grupos vão trocando recursos, inclusive monetários, organizando fóruns, seminários e eventos, que vão fazendo com que essas ideias percorram a região", explica.

Para o pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, Leonardo Paz, o impacto direto dos governos vizinhos sobre o eleitor brasileiro é limitado. "Eu não acho que o eleitor médio brasileiro está preocupado com o que os presidentes da América Latina estão dizendo sobre o Brasil. Poucos sabem quem são os atuais presidentes da maior parte dos países da região."

Ainda assim, ele reconhece que vitórias da direita em países vizinhos podem servir como incentivo político para grupos alinhados no Brasil. "Essas vitórias dão alguma expectativa, algum incentivo para as forças de direita aqui. Podem oferecer uma plataforma de visibilidade, mas não vejo uma grande influência dessas eleições recentes na eleição brasileira."

Guinada ideológica ou rejeição aos governos?

Apesar da mudança no equilíbrio político da América do Sul, os especialistas rejeitam a ideia de que a região esteja passando por uma transformação ideológica profunda e permanente. Para Leonardo Paz, o principal motor das recentes derrotas de governos de esquerda não é necessariamente uma conversão dos eleitores ao conservadorismo, mas a insatisfação com os resultados entregues pelos governantes.

"Acredito que tem muito mais a ver com rejeição aos governos que estão no poder", destaca. Segundo ele, a situação econômica internacional tornou a tarefa de governar mais difícil do que no início dos anos 2000, período marcado pelo boom das commodities. "Praticamente todos os países da região estão em algum grau de crise econômica e de insatisfação da população com a qualidade de vida."

Peres faz avaliação semelhante e lembra que a história política recente da América do Sul é marcada por ciclos de alternância. "O que a gente vê na América do Sul, historicamente, é um pêndulo. Uma hora vêm as chamadas ondas vermelhas, depois isso muda e vai para a direita."

Na visão de Paulo Ramirez, cientista político da ESPM, também não há evidências de uma rejeição absoluta aos governos de esquerda. "Vale dizer que não se trata de uma rejeição absoluta em relação aos governos de esquerda, já que a margem de derrota tanto no Peru quanto na Colômbia foi muito baixa". O especialista reforça que a alternância entre direita e esquerda tem sido uma constante na política latino-americana, com um verdadeiro rodízio entre partidos dos dois espectros ideológicos se alternando no poder.

Segurança e economia aparecem como fatores centrais

Se há um consenso entre os especialistas, ele está nos temas que vêm mobilizando os eleitores da região. Economia e segurança pública aparecem como os principais fatores por trás do crescimento eleitoral de candidaturas de direita em diferentes países.

"A segurança pública é um dos temas mais fortes", afirma Leonardo Paz. Segundo ele, o aumento da violência urbana e a atuação do crime organizado têm impulsionado candidatos que prometem respostas mais duras para o problema. Na Colômbia, por exemplo, a percepção de que o processo de paz não resolveu completamente a insegurança ajudou a abrir espaço para discursos mais rigorosos. "A população fica frustrada com o processo e tende a buscar aqueles que vão tomar uma atitude mais enérgica". Além disso, a economia também desempenha papel central, com o custo de vida e a inflação sendo fatores bastante importantes nesse contexto, destaca o especialista.

Paulo Ramirez reforça esta ideia e aponta que o discurso de combate ao crime organizado se tornou um dos principais elementos de mobilização da direita latino-americana. "O que há de comum nessas candidaturas é principalmente essa questão do crime organizado". Nesse contexto, ele avalia que alguns desses modelos adotados por outros presidentes da direita da América Latina podem entrar no debate político brasileiro, especialmente na área de segurança pública. 

No Brasil, esse debate já aparece inclusive na agenda de pré-candidatos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, lançou neste mês um pacote de propostas voltado à segurança pública. Batizado de “Brasil sem Medo”, o conjunto reúne 12 medidas de combate à criminalidade e às facções criminosas, tema que figura entre as principais bandeiras defendidas pelo campo político da direita.

Uma das principais propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro prevê a construção de cinco novos presídios de segurança máxima inspirados no modelo adotado por El Salvador durante a gestão de Nayib Bukele. Em março deste ano, o presidente salvadorenho foi acusado por um grupo de juristas de cometer "crimes contra a humanidade", incluindo torturas e desaparecimentos, durante a ofensiva contra gangues no país.

Segundo o senador, as novas unidades se somariam aos presídios federais já existentes para formar o Complexo Federal de Segurança Máxima, apelidado por ele de "treva". Flávio também afirmou que pretende criar 500 mil vagas no sistema penitenciário ao longo de quatro anos e eliminar o déficit carcerário.

O Brasil segue a tendência da região?

Embora o avanço da direita em países vizinhos gere comparações inevitáveis, os especialistas afirmam que o Brasil possui dinâmica eleitoral própria. Leonardo Paz avalia que a mudança de governos observada na América do Sul está menos relacionada a ondas ideológicas e mais à capacidade dos governantes de responder às demandas da população.

"Eu acho que é uma dinâmica mais econômica e social, que responde a demandas domésticas, do que necessariamente uma mudança ideológica mais profunda", diz ele. 

O que isso significa para 2026?

Na avaliação dos especialistas, o avanço da direita na América Latina representa um sinal de atenção para a esquerda brasileira, mas não determina o resultado da próxima eleição presidencial.

Para Paz, a principal lição está na observação das razões que levaram governos progressistas a perder espaço em outros países. "Cabe ao governo olhar quais foram os elementos que mais sensibilizaram a população para poder botar governos para fora."

Já Ramirez avalia que a direita brasileira poderá explorar politicamente o novo cenário regional. Um dos argumentos possíveis, segundo ele, será o de que uma região cada vez mais alinhada a governos conservadores poderia aumentar o isolamento político do Brasil caso a esquerda permaneça no poder.

Ao mesmo tempo, o cientista político ressalta que ainda é cedo para medir o impacto concreto dos novos governos eleitos recentemente. "É muito recente dizer de que forma essas políticas vão influenciar o Brasil. Eu diria que a extrema-direita vive mais um suspiro do que necessariamente uma hegemonia. Me parece que com o ideário neoliberal que é defendido pelos políticos de extrema-direita, é difícil sustentar uma economia plausível em termos sociais, de controle de preços ou até mesmo geração de empregos, o que deve gerar, a médio e curto prazo, um desgaste desses governos recém-eleitos de direita e, eventualmente, um retorno futuro das esquerdas aqui no continente", argumenta. 

Fonte: Portal Terra
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