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Antissistema, MBL quer até virar partido

Movimento, que teve páginas de simpatizantes retiradas do ar, consultou TSE para saber se pode usar assinaturas eletrônicas para registro

16 dez 2018
05h11
atualizado às 10h03
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O Movimento Brasil Livre, que protagonizou as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, fez fama criticando a política institucional, notadamente o PT, e a corrupção. Depois de estrear nas urnas em 2016, o MBL agora estuda virar um partido. Além do interesse em se tornarem agentes políticos, nos moldes tradicionais, seus membros reclamam das dificuldades de ocupar espaços nas legendas que já existem. Na Assembleia de São Paulo e na Câmara Federal, pleiteiam ainda as presidências das Casas.

No Congresso Nacional, a "bancada MBL" elegeu cinco deputados federais e dois senadores. Neste mês, o grupo fez uma jogada definitiva para mudar os rumos do movimento e protocolou uma consulta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber se assinaturas eletrônicas poderiam ser aceitas para a formação de um partido.

A estratégia leva em conta o fato de que o partido tem presença expressiva nas redes sociais. Entre haters e seguidores, a página do MBL no Facebook teve 100,9 milhões de interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) nos últimos 12 meses. Não fica muito atrás do presidente eleito, Jair Bolsonaro, cuja principal plataforma também foi as redes sociais - 126 milhões de interações. Ele foi, inclusive, apoiado pelos líderes do MBL no segundo turno.

O vereador Fernando Holiday (DEM), um dos líderes do MBL
O vereador Fernando Holiday (DEM), um dos líderes do MBL
Foto: ERIK TEIXEIRA/RAW IMAGE / Estadão

A forte atuação nas redes sociais ajudou a eleger membros do movimento de direita, mas não sem controvérsias. Em julho deste ano, o Facebook desativou uma rede de 196 páginas e 87 perfis pessoais relacionados ao MBL, alegando que a rede "escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação". O MBL alega que as páginas e perfis eram pequenos e de pessoas próximas, não do movimento.

A ideia é que o movimento coexista com o partido, que não sejam excludentes. O primeiro passo, dizem os líderes, é a resposta do tribunal. Calculam então se terão nomes suficientes para compor uma bancada e se viabilizar como sigla. Rubens Nunes, o advogado que fez a consulta e um dos fundadores do MBL, diz que não podem "entrar numa aventura". "Se o MBL falar que vai fazer um partido, é porque ele vai acontecer. A gente não teria essa leviandade", disse.

'Natural' 

Kim Kataguiri (DEM-SP), uma das principais lideranças do grupo, foi um dos eleitos para a Câmara neste ano. "Foi uma mudança natural desde 2016. É natural que tenha mais essa atuação", afirmou, quando questionado sobre a suposta mudança de posicionamento do movimento, de suprapartidário para uma legenda.

A bancada MBL tem membros do PSC, PROS, Novo, MDB e, principalmente, DEM. O partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, serviu de guarda-chuva para o movimento e lançou o youtuber Arthur do Val, do canal Mamãe Falei, para a Assembleia de São Paulo, além de Kim e outros nomes. Este último, inclusive, a despeito da tentativa de reeleição do seu correligionário e do incipiente apoio como novato, insiste que vai disputar a presidência da Casa.

O deputado eleito Kim Kataguiri (DEM), co-fundador e coordenador do Movimento Brasil Livre
O deputado eleito Kim Kataguiri (DEM), co-fundador e coordenador do Movimento Brasil Livre
Foto: Alex Silva / Estadão

A legislação impede que um parlamentar com menos de 35 anos ocupe o cargo, por estar na linha sucessória da Presidência da República. O argumento do estreante é que há jurisprudência e, se eleito, vai tentar dissociar a linha sucessória do comando da Casa. Independentemente de eleito ou não, postular para o alto cargo já garante palanque e visibilidade, bem-vindos para a criação de um futuro partido.

Em São Paulo, o vereador Fernando Holiday (DEM) disputou a presidência da Câmara Municipal - o atual presidente era de seu partido, mas apoiou um sucessor tucano, eleito ontem. "A relação é complicada (com os partidos). Eles têm seu modo de ser, elegem diretórios, a maioria das vezes, de forma pouco transparente. E o MBL, por não focar em um só partido, não participa dos diretórios, dos processos decisórios internos ou, quando participa, é pouco. A constituição de um partido nos traria mais independência e autonomia", disse o jovem de 22 anos.

O youtuber Arthur do Val é um dos que poderiam se beneficiar dessa mudança na direção. Nas eleições se destacou ao protagonizar uma cena em que teria levado um "pescotapa" do então candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT), após provocá-lo em uma gravação. Segundo contou o estreante, pretende se candidatar à Prefeitura em 2020 e, para isso, tem poucas opções.

"Tem o PSL, Novo, DEM ou uma legenda muito pequena e estrangulada. Fora toda aquela briga com os caras mais velhos do partido." Se o plano de criar o partido sair do papel até o meio do ano que vem, um ano antes do pleito, sua candidatura pode se concretizar. Mais direto, arremata: "Meu partido é o MBL, o DEM é só um número que usei".

Nas críticas da falta de espaço, não citam nomes ou partidos, mas as principais lideranças do MBL são filiadas ao DEM. "A gente vai conversar, ele não conhece bem como funciona a Câmara, isso aí é vontade de mostrar serviço, trabalhar", disse o deputado federal Elmar Nascimento (DEM-BA). Ele vai assumir a liderança da sigla na Câmara no ano que vem e vai ter que equacionar a candidatura do jovem do MBL contra a de Rodrigo Maia. "Kim é uma pedra bruta a ser lapidada, vamos dar todas as condições para ele exercer na plenitude seu mandato."

Apesar de terem assinado uma carta compromisso antes das eleições, com pontos como o Estado mínimo e o endurecimento das regras contra o aborto, nem todos os parlamentares da "bancada MBL" estão dispostos a integrar um futuro partido MBL. O senador eleito e atual deputado federal Marcos Rogério (DEM-GO) é amigo próximo dos membros do movimento e subscreveu a carta, mas não pretende deixar sua sigla. "Não tenho razão pra poder deixar um partido e criar um novo. Nosso problema não é a criação de outros partidos, a gente tem que mudá-los por dentro." Para ele, se a ideia do MBL se concretizar, "perde um pouco a força do movimento e acaba numa vala comum, será mais um partido".

Arthur do Val (DEM), deputado estadual eleito em São Paulo
Arthur do Val (DEM), deputado estadual eleito em São Paulo
Foto: IstoÉ

Financiamento

O movimento vai esbarrar na dificuldade de convencer deputados a deixarem a estrutura de suas legendas para embarcar num partido novo que não deve ter recursos públicos. Como o MBL é contrário ao Fundo Partidário, avalia que o financiamento de um eventual partido deve sair de financiamento coletivo. A eventual mudança vai esbarrar numa mudança de hábito: não são públicas as fontes de renda do MBL.

"Uma vez que exista o partido, tem que prestar contas, isso tudo será feito. Hoje não divulgamos os doadores porque são sigilosos, empresários que doam e não querem aparecer por medo de retaliação", disse o fundador do grupo Rubens Nunes. Para o professor de Direito Eleitoral do Mackenzie Alberto Rollo, a distinção dos caixas é central. "Tem que separar bem as coisas, até porque não existe doação de pessoa jurídica para partido. O MBL é uma coisa, o MBL partido tem de ser outra." / COLABOROU ALESSANDRA MONNERAT

 

Estadão

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