Ano eleitoral deve impulsionar novas medidas populares; estímulos do governo Lula já somam R$ 140 bilhões
Especialistas avaliam que programas sociais e estímulos já influenciaram pesquisas, mas afirmam que o governo não deve se acomodar
O Governo Federal deve anunciar mais medidas de caráter popular visando a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026. Especialistas ouvidos pelo Terra avaliam que o programa Desenrola 2.0, lançado no início deste mês, já pode ter impactado positivamente a avaliação do governo nas pesquisas eleitorais, mas afirmam que o Executivo não deve se acomodar.
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Pesquisa Genial/Quaest divulgada na última quarta-feira, 13, mostrou alta, em relação ao levantamento de abril, de três pontos percentuais (p.p.) na aprovação do governo Lula e crescimento de dois p.p. nas intenções de voto do petista em cenário simulado. O levantamento também indicou ultrapassagem do presidente sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em um cenário de segundo turno, ainda que dentro da margem de erro.
Na visão do cientista político Valdir Pucci, a pesquisa de maio da Genial/Quaest não pode ser interpretada como uma alta significativa na aprovação de Lula, mas aponta para uma interrupção da queda registrada em levantamentos anteriores. “A aprovação vinha diminuindo a cada pesquisa, ainda que em pequenas margens. Houve um estancamento dessa sangria do presidente, que vinha perdendo popularidade”, afirmou.
Para Pucci, o lançamento do Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas, pode ter contribuído para a melhora dos indicadores. “O Desenrola é algo muito próximo da realidade dessa sociedade. Ela sabe que está endividada e tem percepção de como isso atrapalha o dia a dia, a vida e os sonhos. Quando há um governo oferecendo uma solução momentânea, isso é essencial para entender essa leve melhora do Lula nas pesquisas eleitorais”, disse.
A pesquisa mostrou que metade dos entrevistados avaliou o novo Desenrola 2.0 como uma boa ideia, enquanto apenas 23% acharam uma má ideia.
O analista político Deividi Lira também atribui ao Desenrola papel importante na melhora dos números de Lula, mas destaca ainda o encontro entre o presidente brasileiro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificou como positivo para o governo. “A troca de elogios de Trump, dizendo que Lula é um cara inteligente, afetou a percepção da população sobre o presidente”, avaliou.
Segundo a pesquisa, 37% dos entrevistados avaliaram o encontro como positivo para Lula, enquanto 20% consideraram negativo.
Pucci, no entanto, não acredita que o encontro tenha tido tanto impacto e atribui maior peso ao episódio envolvendo a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. “A comunicação do governo foi melhor do que a da oposição nesse caso, ao transmitir a ideia de que Lula havia escolhido alguém qualificado para compor o Supremo e que a rejeição ocorreu por interesses políticos”, disse.
No entanto, de acordo com a pesquisa, 53% dos entrevistados acreditam que é direito do Senado reprovar o nome, enquanto 27% acreditam que foi uma traição do parlamento ao governo.
Ambos os especialistas acreditam que medidas populares devem se intensificar nos próximos meses com a aproximação do calendário eleitoral.
“É uma prática comum na política brasileira. O detentor da caneta tende a utilizá-la em períodos eleitorais. Dependendo da evolução dos índices de avaliação, podemos ver cada vez mais medidas que busquem agradar momentaneamente o eleitor”, afirmou Pucci.
Lira compartilha avaliação semelhante. “Essas medidas devem se intensificar justamente porque o período eleitoral se aproxima. O governo não pode ficar acomodado. Então, encontros internacionais e programas voltados para famílias endividadas não devem levar o governo ao comodismo, mas estimular novas ações”, afirmou.
Na última semana, Lula assinou uma Medida Provisória (MP) que zera o imposto federal sobre importações de até US$ 50, conhecido como “taxa das blusinhas”. Um dia depois, o governo anunciou novos subsídios para diesel e gasolina.
O governo Lula já anunciou R$ 140 bilhões em medidas que vão estimular o crescimento, segundo divulgou o jornal O Estado de S. Paulo. De acordo com levantamento feito pelo banco BTG Pactual, dez propostas já estão em vigor ou em fase de implementação.
Além das medidas anunciadas na última semana, estão em vigor a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) até R$ 5 mil mensais e políticas de crédito para caminhoneiros e para o Minha Casa, Minha Vida, além de programas para isentar os custos da energia para famílias de baixa renda.
Mensagens com Vorcaro podem prejudicar Flávio
Apesar de os efeitos das mensagens envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ainda não terem sido incorporados às pesquisas, Flávio Bolsonaro foi ultrapassado por Lula em cenário de segundo turno, mesmo mantendo crescimento dentro da margem de erro.
A pesquisa mostrou alta de um ponto percentual nas intenções de voto para Flávio na disputa presidencial. No segundo turno contra Lula, porém, houve oscilação negativa de um ponto. Embora a variação não seja considerada significativa, especialistas avaliam que o avanço de Lula preocupa mais o grupo político de Flávio do que as oscilações do senador.
Lira acredita que as revelações sobre a troca de mensagens entre Flávio e Vorcaro podem influenciar os próximos levantamentos. “Quando falamos de marketing político, falamos da construção da trajetória do herói. A figura de Flávio Bolsonaro foi construída ao longo do tempo e ganhou força após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro”, afirmou.
Para o analista, o episódio pode testar a resiliência da imagem construída em torno do senador, principalmente diante de eleitores menos alinhados ideologicamente. Nesse cenário, ele avalia que outros nomes como os ex-governadores Romeu Zema, de Minas e Ronaldo Caiado, de Goiás, podem ganhar força.
Pucci avalia que pode haver aumento da rejeição ao nome de Flávio Bolsonaro, sobretudo entre eleitores independentes. “Não acredito em redução significativa entre seus eleitores mais fiéis, mas isso pode refletir especialmente naquele eleitor mais importante: o independente”, disse.
Eleitores independentes devem definir eleição
Na avaliação dos dois especialistas, os eleitores independentes — aqueles que não se identificam nem com direita nem com esquerda — terão papel decisivo na disputa presidencial de 2026. Segundo a pesquisa, esse grupo corresponde a 32% do eleitorado.
Entre esses eleitores, a aprovação de Lula passou de 32% para 37%, enquanto a rejeição caiu de 58% para 52% entre abril e maio. No mesmo período, as intenções de voto no presidente em cenários de segundo turno subiram de 26% para 29%.
“O eleitor independente oscilou marginalmente em favor de Lula. Havia uma tendência negativa desde janeiro de 2026, mas ela foi interrompida”, afirmou Lira.
Para o analista, o crescimento desse grupo reflete não apenas a polarização entre eleitores alinhados ao PT e ao PL, mas também o esvaziamento partidário. Segundo ele, uma parcela do eleitorado deixou de se identificar com partidos tradicionais ou alternativas da chamada terceira via, o que ajuda a explicar a dificuldade de nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado ampliarem apoio nacional.
Pucci afirma que o principal desafio para Flávio será justamente recuperar apoio entre independentes após o desgaste recente. “Com certeza haverá aumento da dificuldade na campanha, principalmente pela rejeição. Isso pode significar diminuição da intenção de voto entre independentes, e será o grande desafio de Flávio”, afirmou.
Os números de rejeição mostram cenário adverso para ambos os possíveis candidatos. Lula aparece com 53% de rejeição, enquanto Flávio registra 54%, em empate técnico dentro da margem de erro. Ainda assim, Pucci avalia que a rejeição ao senador pode crescer nos próximos levantamentos justamente por causa da repercussão das mensagens envolvendo Vorcaro.
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