Último desabafo de Isabelle Caracristi antes de morrer revela ameaças e cobrança de dinheiro
Estudante de Direito de 22 anos enviou áudios e mensagens a familiares e amigas minutos antes da queda
“Estão acontecendo coisas sérias, coisas graves, que eu venho guardando só para mim. São ameaças diretas vindas dele, entendeu? Que eu simplesmente não estou suportando mais”. Foi assim que Isabelle Caracristi, de 22 anos, descreveu o que estava vivendo com o namorado, João Munhoz Neto, em um áudio enviado ao primo minutos antes de morrer em Fortaleza.
As últimas mensagens da estudante de Direito foram obtidas com exclusividade pelo Fantástico e exibidas no programa neste domingo (27). Nos áudios e textos enviados a familiares e amigas, Isabelle relatou ameaças, controle e um comportamento que classificou como “doente” por parte do namorado. João está preso preventivamente e é investigado pela morte da jovem.
No áudio encaminhado ao primo, Isabelle pediu que ele não apagasse a gravação e que desse “muita força” à mãe dela, porque, segundo a jovem, ela iria precisar. O conteúdo foi recuperado pela polícia no celular de Isabelle, encontrado junto ao corpo.
A estudante foi encontrada morta no dia 13 de setembro, no pátio do condomínio onde morava com João, na Aldeota, bairro nobre de Fortaleza. A investigação apura as circunstâncias da queda do terraço do edifício, de uma altura superior a 70 metros.
Isabelle relatou controle e ameaças
Segundo as mensagens exibidas pelo Fantástico, Isabelle passou os últimos momentos de vida tentando conversar com pessoas próximas sobre o relacionamento. Em outro áudio enviado a amigas, já na cobertura do prédio, ela afirmou que não estava bem e voltou a falar sobre o namorado.
“Eu não tô legal. Eu tô passando muito, muito mal. Eu até mandei um áudio pro meu primo e pra algumas pessoas da família, porque simplesmente esse João é um louco, é um louco”, relatou.
Em seguida, a jovem descreveu situações que, segundo ela, envolviam controle sobre sua rotina.
“Tudo que eu faço é ameaça, ameaça, tudo, absolutamente tudo. Eu não consigo, por exemplo, fazer nada sozinha, porque se ele não estiver junto, ele fica supondo coisas. Eu não posso postar foto, porque ele acha ruim, enfim, vários fatores de uma pessoa doente, sabe?”, disse Isabelle.
A estudante também afirmou que o namorado a impedia de sair sozinha do próprio prédio e que chegava a permanecer na porta para impedir sua passagem. “Eu simplesmente não aguento mais, eu não aguento mais. Eu estou cansada. Hoje foi a gota d'água”, afirmou.
Cobrança de dinheiro também aparece nas conversas
O celular de Isabelle também tinha conversas mantidas com João no domingo em que ela morreu. Em uma delas, o namorado cobrava R$ 13,5 mil e dizia que também precisava do dinheiro da mãe dela até quarta-feira.
Isabelle respondeu que havia tido gastos durante a semana. Na sequência, João afirmou que os dois estavam em um “beco sem saída” e que precisavam do dinheiro.
A advogada da família da jovem, Patrícia Viana, confirmou que houve um empréstimo, mas afirmou que, depois da movimentação financeira, a postura de João teria mudado.
“Nesse ato desse empréstimo, ele transforma a generosidade com outros pedidos: 'Eu confio em você, me passa a localização. Eu te dei dinheiro. Por que você não me desbloqueia?'. Ela mostrava um cansaço absoluto”, afirmou a advogada ao Fantástico.
Em depoimento à polícia, João apresentou outra versão. Ele afirmou que havia emprestado pouco mais de R$ 14 mil a Isabelle e que a mãe dele teria emprestado outros R$ 7 mil. Também negou ameaças e disse que a cobrança mais firme ocorreu depois do vencimento do prazo, mas sem agressões.
O que aconteceu entre a chegada de Isabelle e a queda
Imagens das câmeras de segurança são analisadas pela polícia para reconstruir os últimos momentos da estudante. Os registros mostram Isabelle chegando ao condomínio acompanhada de João e subindo para o apartamento, localizado no 15º andar. Posteriormente, João deixou o prédio para ir à missa, enquanto Isabelle permaneceu no local.
Às 19h12, ela foi registrada pela última vez entrando sozinha em um elevador com destino à cobertura. O horário estimado da queda é 20h40.
De acordo com a investigação apresentada pelo "Fantástico", a jovem passou boa parte desse intervalo enviando mensagens para familiares e amigas. A polícia analisa ao menos 700 vídeos das câmeras do condomínio. Não existem câmeras no terraço nem nas escadas, o que deixa lacunas na reconstrução do momento exato da queda.
A perícia concluiu que Isabelle caiu de forma voluntária. A análise também descartou a hipótese de uma queda acidental em razão da altura do parapeito.
O perito Wellison da Silva Tavares, coordenador da perícia técnica, afirmou que a velocidade estimada do impacto foi de aproximadamente 130 km/h. “Ela caiu em posição vertical, em pé, trazendo assim uma grande parte das lesões dos membros inferiores”, explicou.
Segundo o perito, a posição da laje técnica do edifício e o ponto em que o corpo atingiu o solo foram considerados na análise da dinâmica da queda. “No caso de um confronto, de uma luta corporal, você teria um vetor de força horizontal aqui tentando jogar ela contra essa grade”, afirmou.
A perita do Instituto Médico Legal Ana Leopoldina Rocha também declarou que não foram identificadas lesões de defesa que indicassem uma possível luta corporal.
O laudo cadavérico apontou politraumatismo compatível com o impacto da queda, e o exame toxicológico não identificou substâncias no organismo da jovem. Ainda assim, a polícia continua investigando o contexto que antecedeu a morte.
Síndica contou que João procurou o celular de Isabelle
O "Fantástico" também teve acesso ao depoimento da síndica do condomínio. Segundo ela, no dia seguinte à morte, João teria pedido ao porteiro que verificasse se o celular de Isabelle estava nas lixeiras. A síndica afirmou ainda que o namorado proibiu a entrada da família da estudante no edifício.
A mãe de Isabelle, Isorlanda Caracristi, contou que só descobriu oficialmente a morte da filha quando foi ao condomínio no dia seguinte.
“Ele não me ligou. Eu estava dormindo. Quando eu vejo, foi uma ligação de um número desconhecido. Porque, se fosse ele me ligando, o número era conhecido, eu teria imediatamente atendido. E eu tive que ir lá para saber da morte da minha filha”, relatou.
Segundo as informações apresentadas no programa, João também teria retornado ao apartamento depois da morte, retirado objetos, solicitado a limpeza do imóvel e colocado o apartamento à venda.
Isabelle e João haviam se conhecido em um escritório de advocacia onde ele era gestor e ela trabalhava como estagiária. O proprietário do escritório, Rudá Bezerra de Carvalho, relatou em depoimento que a jovem o procurou e disse que se sentia “sufocada” profissionalmente pelo namorado.
Ainda segundo o depoimento, João não permitiria que Isabelle realizasse determinadas atividades profissionais de maneira independente, incluindo audiências.
A defesa de João contesta a existência de controle ou abuso psicológico. A advogada Lígia Peixe afirmou que o relacionamento era recente e que Isabelle tinha liberdade para ir e voltar do apartamento do namorado quando quisesse.
João deixou a igreja acompanhado da ex-mulher
As imagens analisadas pela polícia também foram usadas para tentar estabelecer os passos de João na noite da morte. Segundo o Fantástico, ele saiu da igreja acompanhado da ex-mulher. Os dois fizeram um lanche em uma praça. Depois, quando João recebeu a notícia da morte de Isabelle, teria solicitado um carro de aplicativo até uma rodoviária no mesmo bairro.
De lá, ele entrou sozinho no carro do irmão e seguiu para o prédio onde morava. A polícia ainda tenta determinar exatamente em que momento João soube da queda.
“O que nós buscamos ainda é comprovar o horário exato em que ele toma conhecimento da queda da Isabelle”, afirmou o delegado Márcio Gutiérrez.
O investigador disse que os policiais analisam o celular de João, que teria mais de 400 mil mensagens, além de e-mails e dados de localização.
Até agora, 25 pessoas foram ouvidas no inquérito.
O delegado Márcio Gutiérrez afirmou que a investigação encontrou indícios de uma relação marcada por controle e limitações. “A violência psicológica está ali presente nos indícios que nós tínhamos e temos até hoje, no momento, nessa relação de controle, relação de limitação”, declarou.
A defesa de João nega as acusações de controle e abuso psicológico e sustenta que a relação entre os dois era recente. João está preso preventivamente e sua defesa apresentou um pedido de habeas corpus para tentar conseguir a liberdade dele. A investigação sobre a morte de Isabelle continua.
Isabelle deixou mensagem para a mãe e o irmão
Antes de morrer, Isabelle também enviou uma mensagem de despedida à mãe e ao irmão. No texto, pediu perdão, afirmou que havia sido vencida pelo medo e declarou seu amor aos dois.
Ela ainda pediu ao irmão que protegesse a mãe e que fosse forte. Para Isorlanda, mãe da estudante, o caso precisa ir além da responsabilização individual e servir de alerta para outras mulheres que estejam vivendo situações semelhantes.
“Eu quero que isso que aconteceu com minha filha, essa relação abusiva, controladora, não se repita. Então, são coisas todas que eu, como mãe, quero as respostas e quero justiça para minha filha”, afirmou.
A polícia segue analisando as imagens de segurança, o conteúdo dos celulares e outros elementos reunidos durante a investigação. Até o momento, João é investigado pela morte de Isabelle e não há condenação contra ele.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.