Defesa leva antropóloga para tentar desfazer imagem negativa de Rugai
Pesquisadora insistiu que jurados devem decidir pró-réu em caso de dúvida. Gil Rugai é acusado de matar o pai e a madrasta em março de 2004
Os advogados do publicitário e ex-seminarista Gil Rugai, 29 anos, levaram nesta quarta-feira uma antropóloga especializada em Direito para ser ouvida como testemunha, na tentativa de desmistificar a imagem negativa do réu, acusado de ter matado o pai, Luiz Carlos Rugai, 40 anos, e a madrasta, Alessandra de Fátima Troitiño, 33 anos, em março de 2004, em São Paulo. Durante uma hora de depoimento, a pesquisadora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, que é professora na Universidade de São Paulo (USP), destacou que nunca teve contato com o réu e, por isso, não traçou um perfil do acusado, mas explicou e citou pesquisas que demonstram como a imagem que os jurados têm da pessoa influenciam na decisão final.
"A construção de bodes expiatórios nas narrativas transformam a pessoa indesejada pela sociedade. (...) Em muitos julgamentos, os valores morais têm um peso forte no final", disse a pesquisadora, que também é formada em Direito.
Desde o início do julgamento, que acontece desde a última segunda-feira no Fórum Criminal da Barra Funda (na zona oeste de São Paulo), os advogados de Gil Rugai têm insistido que o perfil do réu não pode ser usado como indicativo de que ele tem culpa no caso. Na época em que ele foi apontado como suspeito, várias reportagens que o descreviam como introvertido e "estranho" foram divulgadas. Na ocasião, foi veiculado também que a Polícia Civil havia encontrado no quarto dele várias imagens que o ligavam ao nazismo (como suástica) e, por isso, a defesa apresentou um vídeo ao júri para explicar que os objetos achados foram usados durante um trabalho escolar a respeito do holocausto.
A antropóloga também foi questionada pela defesa sobre como o fato de Gil Rugai não chorar em público o prejudica perante o júri. Ela minimizou a questão e afirmou que, em várias circunstâncias, há pessoas que riem mesmo estando tristes. A ausência de lágrimas e "sentimentos" tem sido bastante enfatizada pelos advogados do réu, que, em mais de uma ocasião, em entrevistas à imprensa, lembraram que Suzane Von Richthofen - condenada pela morte dos pais - foi filmada "chorando copiosamente" no enterro das vítimas.
A especialista também foi questionada sobre a relevância da apreensão, por parte da polícia, de uma carta enviada por uma amiga de Gil Rugai em que ela o questiona sobre sua orientação sexual. "Dar ênfase à orientação sexual faz parte da construção de um perfil negativo. Ninguém está interessado em saber quais são os pratos preferidos do réu", disse.
Tensão com a promotoria
Por fim, a especialista comparou o sistema judiciário brasileiro ao francês e lembrou que, no Brasil e em muitos países, os jurados têm a obrigação de absolver o réu, caso não tenham certeza se é ele o autor dos crimes. "Na dúvida, é sempre pró-réu", explicou.
O depoimento não agradou à acusação. O promotor Rogério Leão Zagallo, responsável pela acusação, minimizou a importância do depoimento da testemunha, lembrando que a antropóloga não teve acesso ao processo e, portanto, não poderia influenciar o júri sobre o caso. "Da mesma forma que eu não li as 5 mil páginas do processo, os jurados também não", rebateu a antropóloga.
Silêncio
Desde o início do julgamento, Gil Rugai tem se mantido muito discreto, evitando manifestar reações durante os depoimentos - tanto os contrários quanto os favoráveis -, e, em raras ocasiões, demonstra contrariedade ou satisfação com o que ouve. O comportamento dele destoa do apresentado por outros réus "famosos", como a advogada Carla Cepollina, por exemplo, que no julgamento que a absolveu da acusação de ter matado o coronel Ubiratan Guimarães chegou a ser expulsa do plenário, ao tentar discutir com uma das testemunhas, um delegado da Polícia Civil, que a acusara.
Sentado ao lado dos advogados no plenário, Gil Rugai interage pouco com os defensores, mas cumprimenta com um sorriso os policiais militares que o escoltam sempre que é abordado para receber café ou água. Uma das poucas vezes em que se movimentou durante o júri foi na terça-feira, durante o depoimento do delegado que apurou o caso, quando foi mostrada em um telão uma foto de Alessandra, sua madrasta, morta na casa onde viviam. Nesse momento, ele virou a cadeira de costas para a tela para não olhar as fotos.
Ele, que todos os dias chegou ao tribunal acompanhado da mãe, Maristela Grego, se limitou a afirmar à imprensa que está "confiante", pois "não matou ninguém" e, segundo ele, irá provar que é inocente.