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Em interrogatório, Bruno admite omissão: 'eu deixei acontecer'

"As coisas aconteceram na minha frente, eu deixei. Por isso, de certa forma, me sinto culpado", analisou o atleta

6 mar 2013 21h19
| atualizado às 21h49
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<p>Bruno chorou muito durante seu depoimento</p>
Bruno chorou muito durante seu depoimento
Foto: Renata Caldeira / TJMG / Divulgação

Em depoimento emocionado na tarde desta quarta-feira, no Fórum de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde acontece o julgamento do caso Eliza Samudio, o goleiro Bruno Fernandes contou toda a história na sua versão, em mais de seis horas. No ápice do julgamento, após muito choro, o atleta deixou escapar que "não mandou, mas aceitou o crime". O réu também reconheceu que foi omisso. "As coisas aconteceram na minha frente, eu deixei. Por isso, de certa forma, me sinto culpado", analisou.

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Por longas horas, Bruno ficou sentado no banco dos réus e respondeu a todas as perguntas feitas pela juíza Marixa Fabiane. No entanto, a defesa decidiu que ele não responderia aos questionamentos da acusação. Com isso, as mais de 50 perguntas feitas pela promotoria não foram rebatidas.

O dia de trabalhos no Fórum começou por volta das 13h15. Bruno entrou no plenário apenas às 14h. Vinte minutos depois, ele começou a ser interrogado pela magistrada. Porém, antes de qualquer coisa, o ex-atleta pediu a palavra. "Excelência, como mandante dos fatos, não é verdade. Mas, de certa forma, eu me sinto culpado", iniciou.

Calmamente, o atleta seguiu. De acordo com Bruno, ele conheceu Eliza em uma festa, e os dois tiveram relacionamento amoroso em apenas uma oportunidade. Segundo o jogador, a partir desse envolvimento nasceu a criança.

O atleta revelou que, durante toda a gravidez, ele e a ex-modelo brigaram bastante. Sempre por telefone. Por este desgaste, ele achou melhor que o contato com a mulher fosse feito apenas através de seus advogados.

O jogador contou que, quando a criança nasceu, Eliza foi até o Rio de Janeiro para ele conhecer o bebê. "Fiquei feliz, nasceu saudável. Era um filho, um menino", disse.

Bruno explicou que, nesta época, Macarrão foi ganhando importância em sua vida. O atleta levou o amigo para o Rio de Janeiro para administrar sua vida financeira. "A partir do momento que eu deixei de conversar com a Eliza, o Macarrão assumiu o papel. Ele fez isso pra mim. O Macarrão passou a conviver mais com ela do que eu", disse.

O goleiro explicou que, no dia da concentração para um jogo, foi para a praia com Ingrid, para reatar o noivado. No fim da tarde, Macarrão encontrou com ele em um posto de gasolina e pediu o carro emprestado para resolver um problema. "A minha noiva me levou para a concentração. Eu deixei o carro com ele", afirmou.

No outro dia, Macarrão foi até o hotel onde Bruno estava com o resto do time do Flamengo e falou da briga entre Jorge e Eliza dentro do veículo. "Naquele momento, eu perdi o foco no jogo. Fiquei preocupado. Fiz um péssimo jogo", disse. A partida foi entre Flamengo e Goiás, no dia 5 de junho. O time rubro-negro perdeu por 2 a 1, de virada, sendo que o segundo gol foi uma falha de Bruno.

Quando voltou para casa, no Recreio dos Bandeirantes, o goleiro encontrou Eliza no quarto. Ele afirmou que a modelo estava machucada, com hematomas na cabeça. "Quando eu vi aquilo, fui ver com o Macarrão o que aconteceu. Tive que repreender o Jorge para ensinar. Eu tive que bater nele, a Eliza que pediu para parar", disse.

O acusado revelou que Eliza precisava de dinheiro, porém, ele disse que não tinha a quantia. "Ela pediu R$ 50 mil. Eu falei com só tinha R$ 30 mil. Era para resolver problemas pessoais", afirmou.

"Eliza insistiu para vir para Minas com a gente. Eu falei que depositaria o dinheiro, mas ela não confiava. Ela tinha medo, porque eu tive um funcionário que não arcava com os compromissos, por isso convidei o Luiz Henrique para trabalhar para mim", relatou.

Logo após, Bruno explicou detalhadamente a viagem para Minas Gerais. Depois, ele falou do crime. De acordo com o atleta, Eliza deixou o sítio no dia 10 de junho dizendo que faria uma viagem para São Paulo. Segundo o atleta, Macarrão foi levar a ex-modelo para um ponto de táxi. Porém, poucas horas depois, eles voltaram no veículo EcoSport com Bruninho. "Eu não entendi e perguntei ao Macarrão. O Jorge me falou o que tinha acontecido", disse Bruno, neste momento chorando bastante.

"O Jorge me contou que eles encontraram com um homem (Bola) próximo ao Mineirão. Depois, eles foram para Vespasiano, e lá um homem perguntou se a Eliza usava drogas. Ele deu uma gravata nela. Depois, esquartejou e jogou pedaços para os cachorros", afirmou. Foi a primeira vez que o ex-atleta citou Bola no processo.

Após Bruno passar mais detalhes da viagem de volta para o Rio e de como se comportou após saber da morte da modelo, a palavra foi passada ao promotor Henry Vasconcelos. O atleta, no entanto, não respondeu os questionamentos da acusação.        

O advogado de Bola, Ércio Quaresma, começou então seu trabalho. Bruno, porém, também não quis responder as perguntas do defensor e, inclusive, se retirou do plenário. Logo após, algumas perguntas pontuais dos jurados foram respondidas. A juíza encerrou os trabalhos por volta das 20h20 e determinou que Bruno retornasse para a penitenciária Nelson Hungria.

Nesta quinta-feira, o goleiro terá o resultado do julgamento. Às 9h, defesa e acusação farão os debates e, depois, a sentença será divulgada pela juíza.

O caso Bruno
Eliza Samudio desapareceu no dia 4 de junho de 2010 após ter saído do Rio de Janeiro para ir a Minas Gerais a convite de Bruno. Vinte dias depois a polícia recebeu denúncias anônimas de que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. O filho de Eliza, então com quatro meses, teria sido levado pela mulher de Bruno, Dayanne Rodrigues. O menino foi achado posteriormente na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves.

Conheça as acusações e penas máximas possíveis contra os réus

Réu Acusações Pena máxima
Bruno Homicídio triplamente qualificado, sequestro e cárcere privado de Eliza Samudio 41 anos
Dayanne Sequestro e cárcere privado do filho de Eliza Samudio 5 anos
 

Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza, um motorista de ônibus denunciou o primo do goleiro como participante do crime. Apreendido, jovem de 17 anos relatou à polícia que a ex-amante de Bruno foi mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães. 

No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. 

No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno foi apontado como mandante e executor do crime. No início de dezembro, Bruno e Macarrão foram condenados pelo sequestro e agressão a Eliza, em outubro de 2009, pela Justiça do Rio. O goleiro pegou quatro anos e seis meses de prisão. 

Em 17 de dezembro, a Justiça mineira decidiu que Bruno, Macarrão, Sérgio Rosa Sales e Bola seriam levados a júri popular por homicídio triplamente qualificado, sendo que o último responderá também por ocultação de cadáver. Dayanne, Fernanda, Elenilson e Wemerson responderiam por sequestro e cárcere privado. 

No dia 19 de novembro de 2012, foi dado início ao julgamento de Bruno, Bola, Macarrão, Dayanne e Fernanda. Dois dias depois, após mudanças na defesa do goleiro, o tribunal decidiu desmembrar o processo.  O júri condenou Macarrão, a 15 anos de prisão, e Fernanda Gomes de Castro, a cinco anos. O julgamento de Bruno e de Dayane Rodrigues do Carmo, ex-mulher do goleiro e acusada de ser cúmplice no crime, foi remarcado para 4 de março de 2013. O ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, que é acusado como autor do homicídio, teve o júri marcado para abril de 2013. 

Fonte: Terra
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