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Eleições no Terra: confira como foi a apuração do 1º turno

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Os maiores vencedores e os maiores perdedores do primeiro turno das eleições 2026

Especialistas apontam os personagens e partidos que sagraram-se vencedores e os que sofreram derrotas neste domingo e como eles se posicionarão no xadrez eleitoral das próximas semanas.

5 out 2026 - 06h04
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Resumo
O primeiro turno de 2026 consolidou o avanço da direita com a liderança de Flávio Bolsonaro rumo ao segundo turno contra Lula, que teve seu pior desempenho histórico ao ficar em segundo lugar. O PL e Jair Bolsonaro saíram como os maiores vencedores, ampliando a bancada no Congresso e elegendo aliados-chave. Já o PT, o PSD de Gilberto Kassab — enfraquecido pela perda de espaço do centro — e o STF, sob pressão de um Senado mais conservador, figuram entre os principais derrotados do pleito.
Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto
Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciará nesta segunda-feira (5/10) a disputa pela Presidência mais difícil de sua biografia.

Confirmando as projeções feitas por diversos especialistas ao longo dessas eleições, o pleito deste domingo foi o mais apertado desde a redemocratização. Somente 2,2 milhões de votos separam Flávio Bolsonaro (PL), que ficou em primeiro lugar, de Lula.

Por outro lado, o resultado contrariou as pesquisas eleitorais, que apontaram Lula à frente no primeiro turno com pequena vantagem.

Para o cientista político Murillo Aragão, da Arko Advice, a "onda azul" a favor de Flávio era esperada. "Há uma tendência histórica de os candidatos de esquerda aparecerem melhor nas pesquisas", afirma.

"Com o resultado dos demais candidatos, cerca de dois terços devem migrar para Flávio. Ele se torna o favorito, salvo se vier uma bomba atômica. Mas mesmo uma bomba teria um efeito limitado."

O resultado só será conhecido no dia 25 de outubro, quando ocorrerá o segundo turno. Mas a BBC News Brasil conversou com especialistas para entender quem são os grandes vencedores e perdedores deste domingo. E como eles se posicionarão no xadrez eleitoral das próximas semanas.

VENCEDORES

Jair Bolsonaro

Eleitor com um quadro com um retrato de Jair Bolsonaro.
Eleitor com um quadro com um retrato de Jair Bolsonaro.
Foto: Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images / BBC News Brasil

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), embora preso e inelegível, é um dos grandes vencedores deste primeiro turno.

Desde o início, Bolsonaro defendeu a candidatura do filho mais velho, em meio a uma disputa pelo seu legado que envolvia os outros filhos, a mulher, Michelle Bolsonaro, e o governador de São Paulo reeleito neste domingo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

"O Jair sai como um dos vitoriosos, porque se confirmando a vitória do filho, que ele bancou a candidatura, que muitos acharam que não ia decolar, abre-se a oportunidade da anistia", afirma Aragão.

Para além de Flávio, Carlos Bolsonaro (PL) foi eleito senador por Santa Catarina, e Michelle (PL), pelo Distrito Federal. Jair Renan, o filho mais novo do ex-presidente, elegeu-se deputado federal por Santa Catarina.

Desde o ano passado as pesquisas já mostravam que Jair Bolsonaro era o nome mais competitivo para disputar com Lula a Presidência. Preso e inelegível, seu herdeiro direto teria grande potencial.

Ao longo dos meses, até que o nome de Flávio fosse oficialmente lançado pelo PL, disputas e brigas públicas entre a família confirmaram a tensão em torno de quem herdaria esse legado.

Em julho, cumprindo prisão domiciliar, Jair Bolsonaro escreveu uma carta dizendo que Flávio era seu porta-voz e pedindo que as diferenças fossem deixadas de lado.

"Saudoso do contato com o povo, ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão para o futuro de todos nós. O momento é de arregaçar as mangas e deixar de lado possíveis diferenças, e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro", escreve o ex-presidente.

"Meu porta-voz no qual confio para resgatar o Brasil e nos conduzir para a paz e prosperidade", completou Bolsonaro, no documento, que foi lido por Flávio nas redes sociais.

A carta se tornou pública no dia seguinte à deflagração de uma investigação da Polícia Federal (PF) que tinha como alvo o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

Os investigadores apuraram supostas irregularidades na indicação de emendas parlamentares.

Segundo a Polícia Federal (PF), ele teria influenciado a destinação de recursos públicos mesmo sem exercer mandato no Congresso Nacional. Na época, especialistas disseram que a carta do ex-presidente era também uma tentativa de desviar o foco das notícias.

PL e Valdemar Costa Neto

Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro.
Foto: NELSON ALMEIDA / AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O Partido Liberal (PL), sigla de todo o clã Bolsonaro, é apontado pelos especialistas como outro grande vencedor deste domingo.

Não só pela ida de Flávio para o segundo turno, mas também "pelo tamanho da bancada que elegeu no Senado, e, ao que parece, na Câmara dos Deputados também", afirma Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A sigla elegeu 19 senadores, totalizando, com os parlamentares que permanecem na Casa, 28 representantes. E também deve seguir com a maior bancada na Câmara dos Deputados, o que pode levá-la à Presidência da Casa.

Até o fechamento desta reportagem, os resultados da Câmara ainda não estavam totalmente consolidados.

Essa bancada pode viabilizar a aprovação da anistia ao ex-presidente, uma bandeira levantada por muitos dos candidatos deste pleito.

"A direita, como campo político, é uma grande vitoriosa", diz Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria. "Está com o líder preso, tentou interrupção democrática e ainda assim retomou o prestígio e conseguiu voltar com mais força."

"O grande vencedor é o PL, que tem uma bancada grande. A direita vai ficar mais forte no Senado, com a esquerda mais fraca", afirma Aragão.

Para ele, além da direita estar ainda mais forte no Congresso, a coordenação política de Lula joga contra o petista. "[Lula]Teve que apelar ao Supremo e teve até que pedir auxílio para [o ministro Alexandre de] Moraes, para reestabelecer relações com [Davi] Alcolumbre. Se ele for reeleito, o histórico do último mandato é muito ruim e aponta para um Senado mais hostil", diz.

O PL também amealhou a maior quantidade de votos para um único candidato. Na verdade, dois: Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) bateram a marca de 3 milhões de votos e sagraram-se como os primeiros deputados a bater a marca em toda a história da Câmara.

"Nikolas teve impacto pela habilidade dele em operar as redes sociais. Ele é um opinion maker, um influenciador. O que fez ele ter essa votação extraordinária é que ele é quem mais bem trabalha as redes sociais", explica Aragão. "É uma vitória pessoal, mas não é uma vitória politica, no sentido de que não será muito diferente dos outros [na Câmara]. O grande vencedor é o PL, que tem uma bancada grande."

Jacqueline Teixeira, professora do Departamento de Sociologia da UnB, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), lembra que o PL emplacou candidaturas expressivas entre as mulheres também. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, eleitas pelo Distrito Federal, e Carolina de Toni por Santa Catarina são três exemplos.

"O PL realmente pode ser compreendido como, dos partidos, o mais vencedor. O partido tem disputado o Nordeste, tendo uma votação expressiva em vários nomes na região", diz ela.

"E mesmo que no segundo turno Flávio não vença, o PL mantém a sua vitória e a sua conquista porque consegue, de alguma maneira, desenhar um cenário nacional tanto de Legislativo quanto de Executivos estaduais, com uma pressão signficativa, independentemente do governo federal, e nessa pressão consegue pautar projetos e ideias."

Já Rafael Cortez opina que Valdemar Costa Neto, presidente da sigla, é um dos vitoriosos também, já que "apostou no bolsonarismo como sobrevivência política e acertou."

uma pessoa vestindo vermelho com uma capa de chuva caminha numa calçada com posteres de críticas à Jair Bolsonaro.
uma pessoa vestindo vermelho com uma capa de chuva caminha numa calçada com posteres de críticas à Jair Bolsonaro.
Foto: Luca Meola/Getty Images / BBC News Brasil

Governadores do PT no Nordeste

Historicamente o grande bastião do PT, o Nordeste vem dando menos força ao partido nos últimos anos nas eleições estaduais.

A região foi a única na qual Lula ficou em primeiro lugar neste primeiro turno, mas a votação não foi suficiente para segurar o presidente na liderança no âmbito nacional.

Sobraram, no entanto, as "joias da coroa": no Piauí, Rafael Fonteles foi o governador reeleito com o maior percentua de votos do país. E no Ceará e na Bahia, o PT reelegeu Elmano Freitas e Jerônimo Rodrigues, respectivamente.

Nos demais Estados da região, a sigla sequer chegou ao segundo turno.

PERDEDORES

Lula.
Lula.
Foto: NELSON ALMEIDA / AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Campanha de Lula e o PT

Desde que se tornou presidente pela primeira vez, em 2002, esta é a primeira vez que Lula fica em segundo lugar no primeiro turno, certamente um alerta vermelho para a campanha do petista.

Mesmo lançando mão de um pacote de medidas às vésperas do pleito, como o reajuste do Bolsa Família e a promessa da distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, o presidente patinou nas pesquisas.

Nem mesmo a fake news envolvendo Nossa Senhora Aparecida foi capaz de mudar o jogo que, inclusive, terminou pior para Lula do que a maioria das pesquisas apontava.

A aprovação de seu governo ficou inerte, subindo pouco do começo do ano para cá, assim como o percentual de intenções de voto.

"A esquerda é uma derrotada porque a campanha foi ruim, foi feita para quem vota no PT, com o Lula arrogante, autoritário, debochado, irônico demais. Ele nunca fez um aceno consistente, sempre deu a presença de Geraldo Alckmin como a concessão dele para o centro, nunca fez nada mais concreto para o eleitor do centro", diz Aragão.

Para Marco Teixeira, o jogo também é desfavorável para o futuro do partido, já que essa é, em tese, a última eleição da qual Lula participa na disputa para a Presidência.

"O que será do PT sem Lula e o que será do bolsonarismo sem o antipetismo? Será que o bolsonarismo sobrevive sem o antipetismo?", questiona Teixeira.

Gilberto Kassab, Eduardo Paes e o PSD

Há dois anos, no primeiro turno das eleições municipais, Gilberto Kassab e o PSD despontaram como os grandes vencedores do pleito. A sigla desbancou o MDB e levou o maior número de prefeituras.

Agora, a história mudou. A sigla e seu presidente-fundador estão entre os maiores perdedores da eleição deste domingo.

"Gilberto Kassab quis ser vice do Tarcísio [de Freitas] e não conseguiu, perdeu o vice do Tarcísio para o MDB, virou vice do [Ronaldo] Caiado [que ficou em 5º lugar] e viu o PSD sofrer várias derrotas, inclusive a maior delas [foi a] do Ratinho Jr. no Paraná", resume Marco Teixeira, da FGV.

"Ele montou toda uma estratégia para ser uma grande liderança política e acabou se enfraquecendo num PSD completamente fragmentado. Resta agora o segundo turno no Rio de Janeiro com Eduardo Paes, que de franco favorito passou a ser azarão."

Para Rafael Cortez, a derrota de Kassab personifica a derrota do centrão, que perdeu lugar para a direita radical. No Congresso, a sigla elegeu somente dois senadores, com Lucas Barreto, pelo Amapá, e Júlio César, pelo Piauí.

Alexandre de Moraes e o STF

Esta campanha ao Senado foi pautada pela discussão sobre o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

"Considerando a crise do STF, isso mobilizou e garantiu que mais candidaturas à direita se concretizassem no Senado", afirma Jacqueline Teixeira.

Na escalada de tensão da direita radical com a Corte, cujo auge foi o pedido de prisão de Jair Bolsonaro determinado por Alexandre de Moraes, a expulsão de ministros foi a bandeira de muitos dos candidatos.

Nesse contexto, o fato de o PL aumentar sua bancada para 28 senadores já pode ser interpretado como uma derrota ao ministro e para o Supremo de maneira geral, segundo Rafael Cortez.

"A bancada do PL foi toda eleita com uma pauta anti-Supremo", diz ele.

Aragão, no entanto, pondera que a eleição de uma bancada maior do PL não significa que um impeachment será fácil.

"O impeachment dos ministros não será fácil no Senado. Primeiro porque o STF tem bala na agulha. Tem muitos políticos investigados", afirma.

"O Senado é refém do STF e o STF é refém do Senado. O Supremo pode dizer que essas regras não valem mais. Vai ser complicado e a crise constitucional que vem sendo constante deverá ser ainda pior."

*Colaborou Vitor Tavares

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