O que explica a diferença entre o resultado das urnas e as pesquisas
Maior parte dos institutos ficou fora da margem de erro e subestimou Flávio Bolsonaro, mas voto de última hora, abstenção e desconfiança dos entrevistados limitam o alcance dos levantamentos, dizem especialistas.
A discrepância entre pesquisas e urnas no primeiro turno decorre de limitações metodológicas e comportamentais do eleitorado. Especialistas explicam que esses levantamentos retratam o momento e não preveem resultados, sendo impactados por decisões de última hora, voto útil, alta abstenção e a sub-representação histórica do voto conservador, que resiste a responder sondagens. Diante das críticas e de divergências metodológicas, analistas recomendam modernizar a coleta e ponderar amostras.
Um dia depois de se tornar o deputado federal mais votado da história, Nikolas Ferreira (PL-MG) abriu fogo contra os institutos de pesquisa.
O parlamentar contestou nesta segunda-feira (5/10) o Datafolha, que, dois dias antes do pleito, indicava sete pontos de vantagem para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Minas Gerais. Na véspera da votação, o instituto mostrou empate técnico dos candidatos no eleitorado mineiro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou cinco pontos à frente no estado — recebeu 48,24% dos votos válidos, ante 43,33% de Lula.
"Prometi e lutarei para isso: faremos a CPI dos institutos de pesquisa ano que vem", escreveu o deputado na rede social X. Uma CPI, a Comissão Parlamentar de Inquérito, é um grupo criado no Congresso Nacional com o objetivo de investigação.
Pesquisas nacionais divulgadas na véspera do primeiro turno colocaram Flávio abaixo do que ele obteve nas urnas.
AtlasIntel, Quaest e Datafolha, alguns dos institutos mais conhecidos no país, apontaram, nos levantamentos que antecederam a votação, uma vantagem para Lula que não se confirmou nas urnas.
Ou seja, a maioria das pesquisas captou uma eleição apertada. Mas, em diferentes graus, subestimou o tamanho do voto em Flávio.
A discussão sobre o desempenho das pesquisas eleitorais não é nova no país. Em 2018, o Datafolha e o Ibope da véspera mostravam Jair Bolsonaro com 40% e 41% dos votos válidos, respectivamente, e ele teve 46,03% nas urnas.
Em 2022, o Datafolha da véspera dava Lula com 50% dos votos válidos e Bolsonaro com 36%, e as urnas registraram 48,43% e 43,20%, o que significa que o ex-presidente recebeu 7,2 pontos a mais do que o instituto indicava.
Depois daquela eleição, os institutos, como a Quaest, disseram ter ajustado seus métodos para captar melhor o voto conservador. Então, por que elas estiveram distantes do resultado?
A resposta, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, é complexa.
Eles apontam uma combinação de fatores: mudanças de voto nos últimos dias, voto útil, abstenção e dificuldades para representar determinados segmentos do eleitorado.
O que os institutos indicavam e o que saiu das urnas
Com todas as seções apuradas, o senador do PL teve 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual, a menor entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno desde a redemocratização.
A comparação mais justa é feita em votos válidos, a mesma base usada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na apuração, que exclui brancos, nulos e, nas pesquisas, os indecisos.
Entre os levantamentos de sábado (3/10), a maior diferença sobre Flávio foi o do Datafolha, que apontava 42% para ele e 45% para Lula. O instituto ficou 5,03 pontos abaixo do resultado do candidato, mais que o dobro da própria margem de erro, de 2 pontos, e errou por apenas 0,16 ponto a votação do petista.
A CNT/MDA, que dava 47,8% a Lula e 42,1% a Flávio, foi a que mais se distanciou no conjunto, com erro de 4,93 pontos sobre o senador e de 2,64 sobre o presidente. O PoderData, com 45% a 43%, também subestimou o candidato do PL em mais de 4 pontos.
A AtlasIntel, que trabalhava com a menor margem entre os institutos, de 1 ponto, estimou 47% para Lula e 44,1% para Flávio e errou os dois candidatos para fora dela, com 1,84 ponto a mais para o petista e 2,93 a menos para o senador.
Já a Quaest, que ouviu 3.702 eleitores nos dias 2 e 3 de outubro, apontou empate técnico, com 46% para o presidente e 45% para o senador. O número de Flávio ficou 2,03 pontos abaixo do resultado, praticamente no limite da margem de erro de dois pontos.
Outros institutos já mostravam o senador à frente. A Futura, que ouviu eleitores entre 25 e 29 de setembro, estimava 44,8% para Flávio e 42,6% para Lula. A Palver colocou o senador numericamente à frente, com 47% dos votos válidos contra 43% do petista.
Limites das pesquisas
Os resultados não foram uniformes entre os institutos, mas houve uma direção em comum: o voto em Flávio foi subestimado, enquanto o desempenho de Lula foi medido com maior precisão pela maioria dos levantamentos.
Para o estatístico Raphael Nishimura, pesquisador da Universidade de Michigan, isso não permite concluir que os institutos simplesmente falharam.
Ele afirma que as pesquisas eleitorais têm limitações próprias e lembra que elas não têm como objetivo prever com exatidão o resultado da votação. "As pesquisas são retratos do momento", diz.
Uma das limitações é o tempo de coleta. Mesmo uma pesquisa divulgada na véspera pode ter começado a ouvir eleitores vários dias antes, quando parte deles ainda não havia decidido o voto, e o número final reflete o que os entrevistados pensavam no período em que foram consultados, não necessariamente o que fizeram diante da urna.
Segundo a Quaest, cerca de 10% do eleitorado só define o voto para presidente no dia da eleição. "As pesquisas não vão conseguir captar muito bem esse voto de última hora", afirma Nishimura.
O pesquisador lembra ainda que as próprias pesquisas podem alterar o comportamento que tentam medir.
Na reta final, o eleitor pode mudar de candidato ao concluir, pelos levantamentos, que sua primeira opção não tem chance de avançar, ou votar menos por preferência e mais para impedir a vitória de outro nome — o chamado voto útil.
"Você está votando ali porque você quer que o outro candidato não vença", descreve o pesquisador.
A abstenção é outro fator que distorce a comparação. Neste ano, o índice de pessoas que não compareceram às urnas no primeiro turno foi o maior desde 1998: mais 33,4 milhões, ou seja, 21,07% do eleitorado.
A maioria das pesquisas pergunta em quem o entrevistado pretende votar, e não se ele de fato comparecerá. E a literatura metodológica, diz Nishimura, mostra que as pessoas tendem a superestimar a própria disposição de ir às urnas.
"Mesmo se você simplesmente perguntar, você não vai conseguir captar muito bem essa abstenção que acontece no dia da eleição. E aí é por isso que a gente vê essas diferenças, porque todas essas coisas acontecendo na véspera, no dia da eleição."
Segundo Nishimura, nas últimas eleições o perfil de quem deixa de votar coincidiu mais com o eleitorado de Lula.
O pesquisador Pablo Ortellado, professor do curso de gestão de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da mesma universidade, faz a mesma leitura. "A gente sabe que aqui no Brasil, as pessoas mais pobres, menos escolarizadas se abstêm mais", afirma.
Como Lula tem mais votos nesses segmentos, isso gera uma perda de votos quando a abstenção é computada, explica o professor.
Alguns institutos já tentam corrigir esse efeito. A Quaest, por exemplo, calcula os votos válidos com um modelo de likely voter ("eleitor provável", em tradução )que combina a intenção declarada com o perfil de comparecimento de cada grupo, Mesmo assim, a estimativa ficou fora da margem no caso de Flávio.
Nishimura menciona ainda uma abordagem defendida por outros analistas, a de comparar as pesquisas com o total do eleitorado, incluindo brancos, nulos e abstenções, e não só com os votos válidos.
Segundo ele, quando esse método foi aplicado aos dados de 2022, as pesquisas teriam captado melhor o desempenho de Jair Bolsonaro do que a comparação tradicional sugeria.
Existe dificuldade para captar o eleitor de direita?
Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, afirmou nesta segunda-feira que uma análise preliminar aponta "uma subrepresentação sistemática de eleitores que trocaram de lado em relação ao voto passado".
Segundo ele, essa mudança se concentrou em cidades pequenas e entre eleitores de menor renda e escolaridade, enquanto nas grandes cidades Lula teria mantido sua votação.
"Uma tese também preliminar é que o eleitor que trocou de lado fez isso de uma forma silenciosa e sem muito entusiasmo, talvez em função da própria decisão de se arrepender do voto passado", completou.
Roman disse ainda que o fenômeno seria difícil de captar em qualquer metodologia, já que pesquisas online, telefônicas e presenciais tiveram dificuldade.
Nishimura é cauteloso para usar essa explicação a todas as pesquisas. Ele associa a hipótese a métodos específicos de recrutamento, como anúncios em redes sociais, que tendem a atrair pessoas mais interessadas em política e deixar menos engajados sub-representados.
Pablo Ortellado considera a possibilidade de um "voto tímido" de eleitores de direita que desconfiam dos institutos e a de um "antipetismo de chegada", formado por eleitores que, na última hora, definem o voto mais à direita.
Ele trata as duas como hipóteses a serem testadas e vê um problema mais antigo: "De 2018 para cá, a gente ainda está sub-representando o voto da direita".
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro, lembra Nishimura. Em 2016, pesquisas em estados decisivos dos Estados Unidos subestimaram Donald Trump, e análises posteriores mostraram que faltava, em alguns casos, ajuste por escolaridade.
"Se essas pesquisas tivessem sido ajustadas, na verdade, elas teriam indicado que o Trump estava na frente", diz.
O estatístico aponta também um ciclo difícil de quebrar.
"Acaba virando um ciclo vicioso, porque eles desconfiam das pesquisas e, por conta disso, eles não respondem às pesquisas. Agora, se eles não respondem às pesquisas, eles vão estar subestimados."
Por que alguns institutos chegaram mais perto?
A diferença entre os resultados também chama atenção para as metodologias utilizadas por cada empresa.
Pesquisas presenciais, telefônicas e online podem alcançar segmentos diferentes da população. O tamanho e a seleção da amostra, o método de recrutamento, a forma de ponderação e o modelo utilizado para estimar votos válidos também podem produzir resultados distintos.
O desempenho da Palver é um exemplo.
A empresa realizou pesquisas online com recrutamento por anúncios em redes sociais e, na reta final, chegou a colocar Flávio numericamente à frente. Em nota divulgada nesta segunda, a empresa rejeitou a interpretação de que os institutos tenham simplesmente "errado".
Para a Palver, uma pesquisa pré-eleitoral registra a intenção de voto declarada nos dias em que os entrevistados são ouvidos, enquanto o voto propriamente dito só é conhecido na urna.
"Intenção de voto não é voto", diz a empresa.
A Palver também explicou por que não divulga votos válidos. Segundo o instituto, calcular esse número exige hipóteses sobre o comportamento do eleitor no dia da eleição, como a decisão de quem hoje se declara indeciso e a permanência de quem pretende votar em branco ou anular.
"Essas hipóteses transformam o retrato em projeção, e uma projeção eleitoral requer modelagem própria, com escolhas que vão além do que a pesquisa observou."
A empresa afirma que, no seu caso, a diferença seria pequena, porque o perfil mais engajado de quem responde a uma pesquisa online faz com que a amostra já registre níveis baixos de brancos, nulos e indecisos.
Sobre os demais institutos, a posição da empresa é que não houve erro. A nota afirma que cada empresa adota um método próprio, com entrevistas presenciais, telefônicas ou online, desenhos amostrais distintos e calibrações diferentes, e que cada uma fotografa o eleitorado de um ângulo.
O que esperar das próximas pesquisas
Nos próximos dias, os institutos começam a divulgar levantamentos para o segundo turno. Na quinta-feira (8/10), Datafolha e PoderData publicam suas pesquisas de intenção de voto, seguidos por AtlasIntel e Vox Brasil na sexta (9/10). No dia seguinte, no sábado (10/10), o Ipespe divulga o seu levantamento.
Nishimura recomenda olhar para o conjunto dos levantamentos e não para uma pesquisa isolada. O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, feito com a consultoria Polling Data, calcula uma média ponderada das pesquisas e compensa os desvios sistemáticos de cada instituto.
No momento, o agregador indica Flávio com 46% das intenções de voto no segundo turno e Lula, 45%. O monitoramento foi atualizado no domingo, 4 de outubro.
Para a disputa de 25 de outubro, Nishimura defende que os institutos usem o voto do primeiro turno como variável de controle. Como há forte correlação entre o candidato escolhido na primeira rodada e a preferência na segunda, ajustar a amostra para que espelhe o eleitorado de domingo pode produzir um retrato mais fiel.
"Se você conseguir ajustar sua amostra de forma que ela espelhe o que o eleitorado foi no primeiro turno, em tese, você consegue ter ali um bom retrato também de como vai ser o segundo turno", afirma.
Mas ele faz uma ressalva: a pesquisa continua sendo uma fotografia do momento em que é feita. E pesquisa é diferente de apuração, diz.
A médio e longo prazo, o pesquisador defende mudanças mais profundas na metodologia das pesquisas eleitorais. Em sua avaliação, parte dos institutos ainda usa métodos semelhantes aos de décadas atrás, em uma sociedade mais digital e com segmentos mais difíceis de alcançar.
Ele sugere combinar coleta presencial, telefônica e online, de modo que um método alcance quem o outro não alcança, e ampliar o uso da ponderação estatística, inclusive pelo voto na eleição anterior, informação muito ligada ao comportamento atual do eleitor, mas difícil de controlar por cotas tradicionais de sexo, idade ou escolaridade.
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