'Não há razão para sermos alvo de tarifas dos EUA', diz Mauro Vieira em Paris
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira (4) a jornalistas, em Paris, que o Brasil deve continuar negociando com os Estados Unidos sobre a proposta do Escritório de Comércio dos EUA de impor tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras. Segundo ele, ainda não há previsão de um encontro entre os presidentes Lula e Donald Trump às margens da cúpula do G7 na França. O chanceler brasileiro também reiterou que o Brasil pretende manter o canal diplomático aberto e não considera, neste momento, medidas retaliatórias.
Vieira conversou, de maneira informal, com o representante para o Comércio Exterior americano, Jamieson Greer, às margens da Reunião do Conselho Ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Segundo o chanceler brasileiro, a conversa foi rápida e iniciada pelo representante americano.
"Ele se aproximou de mim e conversamos. Disse que estava tendo ótimas conversas com o Brasil. Eu respondi que é do nosso interesse manter o diálogo, sobretudo após o anúncio dos relatórios finais das duas investigações sobre a Seção 301, que acabavam de ser divulgados, antes do prazo estabelecido na reunião dos presidentes em Washington", disse.
Vieira destacou que, durante o encontro ocorrido na visita de Lula aos EUA, no início de maio, havia sido fixado um prazo de 30 dias para o início das negociações. "Mas ele disse que estava pronto para continuar essas conversas e que o diálogo sempre foi muito bom", afirmou, acrescentando ter aceitado o convite para negociar.
A conversa entre Vieira e Greer ocorreu nos corredores da OCDE, no início da sessão ministerial. O prazo para a eventual aplicação das tarifas vai até 15 de julho de 2026, segundo o Escritório de Comércio dos EUA.
Além das tarifas, Washington também incluiu as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) na lista de organizações terroristas.
Segundo o ministro, o Brasil continuará apostando nas negociações. "Ele disse que estão prontos para negociar. Nós também estamos", afirmou.
"No ano passado, quando começaram essas questões relacionadas a impostos americanos, sempre buscamos negociar. Temos um longo histórico de reuniões, tanto virtuais quanto presenciais, e sempre estivemos dispostos a dialogar. E continuamos, não apenas na área comercial, mas também em outras frentes, como o combate ao crime organizado. Ou seja, temas tratados pelo presidente Lula nas duas últimas reuniões com o presidente americano. Queremos seguir conversando."
Déficit
De acordo com Vieira, durante o período de consultas da Seção 301, o governo respondeu "com uma equipe muito robusta", envolvendo todos os ministérios, e forneceu todas as informações solicitadas ao longo da investigação.
"O que esperamos é que tudo isso seja levado em conta e que fique comprovado que não há razão para sermos alvo de tarifas, porque demonstramos que os argumentos apresentados não são legítimos", disse.
Segundo ele, o principal argumento americano é o de que o Brasil teria um superávit na relação com os EUA. Vieira, no entanto, contestou essa leitura. "Não temos superávit com os Estados Unidos. Ao contrário: nos últimos 15 anos, incluindo o déficit do ano passado, acumulamos cerca de US$ 450 bilhões. Portanto, não há razão para medidas de proteção ao comércio americano", afirmou.
"Nós é que temos um grande déficit. Em tese, seríamos nós a considerar medidas de proteção nesse aspecto, mas seguimos dialogando", acrescentou, reiterando que o Brasil pretende manter o canal diplomático aberto e não considera, neste momento, medidas retaliatórias. "Vamos acompanhar tudo o que está acontecendo. O que for necessário fazer, será feito", concluiu.
O presidente Lula confirmou, na quarta-feira, que participará do G7, que ocorrerá na França entre os dias 15 e 17 deste mês e contará com a presença de Donald Trump. A viagem abre espaço para uma eventual reunião bilateral com o presidente dos Estados Unidos. Até o momento, porém, não há encontro confirmado entre Lula e Trump na cúpula.
Esta será a décima vez que o presidente brasileiro é convidado a participar da reunião das sete maiores economias do mundo, destacou Vieira.
"Eles estarão todos presentes e haverá oportunidade de conversar. Acho que, havendo ocasião para uma reunião, haverá diálogo", disse.
Acordos comerciais
Questionado sobre a importância do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul nesse contexto, Vieira afirmou que o tratado é estratégico e "já está plenamente firmado".
"A conclusão veio após um longo período de negociação, acelerado em sua fase final. Ficou claro que é necessário ampliar a rede de acordos com outros centros de comércio, diversificando parcerias, já que outros países e blocos concentram parcela significativa do comércio exterior brasileiro. O acordo é muito importante e continuará sendo", disse.
Durante o evento na OCDE, Vieira realizou diversos encontros bilaterais e, segundo ele, mantém contatos exploratórios com Reino Unido e Japão.
"Acabei de voltar da China, onde participamos de uma reunião do diálogo estratégico global, na qual também discutimos temas comerciais. Este encontro na OCDE proporcionou uma série de reuniões bilaterais importantes para estreitar contatos e ampliar a troca de informações. Foi muito produtivo. Saio daqui bastante satisfeito com os resultados destes dois dias", afirmou.
No entanto, segundo o ministro, o governo brasileiro ainda não tem previsão para resolver a questão tarifária com os Estados Unidos. "Vamos continuar conversando. Estou retornando ao Brasil e terei reuniões com os ministérios envolvidos. Seguiremos dialogando. Não há prazo definido para essas negociações."
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