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Mulheres ganham destaque na corrida eleitoral ao Senado

1 out 2026 - 07h31
(atualizado às 08h27)
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Resumo
Com candidaturas competitivas em todos os estados, as mulheres ganham destaque na disputa pelo Senado e representam 21,9% dos postulantes. A expectativa é que a bancada feminina chegue a um quarto das cadeiras na próxima legislatura, patamar recorde. De olho em temas cruciais como sabatinas e impeachment de ministros do STF, siglas de esquerda e direita priorizaram puxadoras de votos para ampliar seu poder, embora analistas apontem que a representação feminina ainda esteja aquém da sociedade.

Partidos lançam candidatas com chance de serem eleitas, buscando assegurar cadeiras na Casa de olho em votações como as sabatinas de indicados ao Supremo e impeachment de ministros da Corte.Na contramão das disputas para governos estaduais e para a Presidência da República, as mulheres ganharam destaque na disputa eleitoral ao Senado, apesar de ainda representarem uma pequena parcela entre os candidatos - apenas 70 dos 319 inscritos no pleito.

Cada estado vai eleger dois senadores que vão ocupar as 54 cadeiras vagas. Dois terços da Casa serão renovados. Em 2018, 17,2% das candidatas eram mulheres; agora são 21,9%. Além disso, desta vez, assim como em 2014, há mulheres concorrendo em todos os estados.

Essa alta nas candidaturas pode se converter em uma ampliação da bancada feminina no Senado a um patamar inédito. A perspectiva de especialistas é de que elas passem a ocupar pelo menos um quarto das cadeiras na próxima legislatura. A proporção nunca passou dos 18,5%. Atualmente, 15 mulheres integram a Casa, formada por 81 senadores, das quais seis seguem nos cargos para cumprir mais 4 anos de mandato.

"Essa é uma eleição em que há uma chance real, caso as pesquisas se confirmem, desse avanço feminino", avalia o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Murilo Medeiros.

O Distrito Federal, por exemplo, pode ser uma das únicas unidades da federação a ter uma bancada 100% feminina. Por lá, duas candidatas da direita, Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL), e uma de centro e outra da esquerda, Leila Barros (PDT) e Érika Kokay (PT), despontam na corrida e podem compor a bancada com a senadora Damares Alves (Republicanos), que fica no cargo até 2031.

O mais usual era que os partidos reservassem às mulheres as suplências. Entre as atuais integrantes do Senado, cinco passaram a ocupar as cadeiras depois que os titulares deixaram os cargos. Esse cenário mudou desde que o Senado passou a ser uma Casa visada pelos partidos políticos. Cabe, por exemplo, aos senadores sabatinar indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e votar o impeachment de ministros da Corte.

Por isso, as siglas identificaram entre seus quadros, as candidaturas que já não teriam chance de vencer para os governos estaduais ou Presidência, e as direcionaram ao Senado. "Tanto à direita, como no centro e à esquerda, os partidos priorizaram as mulheres de densidade eleitoral, e recrutaram lideranças femininas que poderiam estar no mandato de deputada federal, por exemplo, e que são grandes puxadoras de votos, com essa visão de ocupação do poder na próxima legislatura", afirmou Medeiros.

Articulação da bancada feminina

Com o possível reforço no número de senadoras na bancada feminina, o bloco ganha relevância nas votações de interesse dos partidos. "É muito provável que as mulheres comecem a ganhar mais espaço para além das pautas tradicionais e comecem a influenciar os rumos da agenda do Senado Federal. Sem a bancada feminina, o próximo presidente do Senado não vence", frisou Medeiros. Para tanto, são necessários 41 votos.

Em 2021, a bancada feminina foi institucionalizada no Senado e se articulou para atuar na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19. Nenhuma senadora foi indicada pelos partidos para compor a CPI. Ainda que sem direito a voto no colegiado, elas decidiram se revezar para acompanhar os trabalhos a cada reunião.

As intervenções delas deram resultado: à Simone Tebet, o ex-deputado federal Luís Miranda revelou que o então presidente Jair Bolsonaro sabia do envolvimento do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, em irregularidades na compra de vacinas. À Leila Barros, o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, admitiu que errou ao lidar com a pandemia. Já Kátia Abreu afirmou ao ex-chanceler Ernesto Araújo que a diplomacia do Brasil prejudicou a negociação para a compra de imunizantes.

Para a pesquisadora do Instituto Representação e Legitimidade Democrática (ReDem), Karolina Roeder, essa união suprapartidária é uma das possibilidades de atuação das mulheres na Casa. Porém, ela ressalta que pautas que dividem a opinião das senadoras podem não alcançar essa unidade nos próximos anos.

"Dentro de uma democracia é normal termos mulheres progressistas e conservadoras, faz parte do jogo", ponderou. "Em políticas de dignidade menstrual, por exemplo, vimos uma união de mulheres da esquerda e da direita, mas tem muitas mulheres que também vão legislar contra mulheres".

Partidos querem cadeiras

As siglas do campo progressista são as que mais recrutaram mulheres. A Unidade Popular é a que tem mais candidatas (10), seguida de PSOL (9) e PT (7). Além das candidaturas próprias em 18 estados, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por apoiar aliados de outras siglas. "É a estratégia de formação de uma base política ampla para a disputa nacional", afirma o PT.

Já no campo da direita, é o PL de Flávio Bolsonaro que desponta com quatro mulheres na corrida ao Senado. O partido pretende ampliar a bancada no Senado e candidatos querem influenciar a possível deliberação sobre o impeachment de ministros do STF.

"Historicamente, a esquerda candidata mais mulheres e elege mais mulheres. Também há incentivos dentro dos partidos para que as mulheres sejam eleitas em cargos diretivos. É comum ter mulheres com trajetórias longevas de militância política", explica Roeder. "Agora, na direita isso é algo mais novo e que eles têm de fato investido nessas candidaturas porque as mulheres são maioria do eleitorado e estão decidindo a eleição". Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres somam 53% do eleitorado.

No entanto, para Roeder, a alta nas candidaturas femininas e possível aumento da bancada não soluciona a baixa representação das mulheres na Casa. "Embora se tenha mais do que 20% de candidaturas ao Senado, ainda estamos aquém de espelhar a população". Ela reforçou que a principal preocupação dos partidos é com a eleição, e não com essa agenda.

"Calhou de nós termos hoje candidaturas de mulheres competitivas que têm chances de ganhar a eleição. Se nós não tivéssemos, os partidos lançariam mais homens competitivos", completa.

Desafio começa na campanha

O Senado costuma ter um perfil menos permeável às mulheres. O banheiro feminino do Plenário só foi inaugurado em 2016. As duas primeiras senadoras, Júnia Marise e Marluce Pinto só tomaram posse em 1991. "Apesar dos avanços, o caminho ainda é árduo para as mulheres na política", conta a senadora e candidata à reeleição, Soraya Thronicke (PSB-MS).

"Enfrentamos dificuldades dentro dos próprios partidos", afirma. Para ela, "faltam políticas internas efetivas para eleger mais mulheres e reconhecer a importância da representatividade". Thronicke diz que "não temos participação real nas decisões e nem autonomia para administrar os recursos destinados às nossas candidaturas".

De acordo com o Painel de Monitoramento da Câmara dos Deputados, neste ano, as legendas já destinaram 26,2% dos recursos do Fundo Eleitoral para promover as campanhas das candidatas ao Senado. Em 2018, a proporção foi de 16,9% no mesmo período. A legislação eleitoral exige que os partidos destinem pelo menos 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do Partidário, assim como do tempo de propaganda de rádio de TV, para as campanhas de mulheres.

"Mas esse dinheiro só vai para algumas candidatas, as novatas acabam não tendo recurso, ou se recebem, tem que repassar para homens", acrescenta Roeder.

A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) foi a primeira senadora negra do Brasil, em 1995. Aos 84 anos, em campanha para o último mandato ao Senado, ela diz que não é hora de parar. "Tenho que estar presente. Em discussão partidária vimos que precisamos mudar o Senado. Vejo hoje uma grande radicalização que não é boa para o Brasil".

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