Lula diz que Brasil pode reagir à expulsão de delegado da PF dos EUA
Presidente diz que governo pode tomar medidas recíprocas contra policiais americanos baseados no Brasil, se for comprovado "abuso" na expulsão de delegado brasileiro em Miami.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou nesta terça-feira (21/04) que o governo pode tomar eventuais medidas contra agentes policiais dos EUA baseados no Brasil se houver comprovação de que houve abuso por parte do governo Donald Trump na expulsão de um delegado da Polícia Federal (PF) baseado em Miami.
"Se houve um abuso dos americanos em relação ao nosso policial, nós vamos aplicar reciprocidade com um deles no Brasil. Não tem conversa", disse Lula.
"Nós queremos que as coisas aconteçam da forma mais correta possível. Mas não podemos aceitar essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas personalidades americanas querem ter em relação ao Brasil", acrescentou Lula, ao falar com imprensa quando estava deixando a cidade de Hannover ao final de uma viagem de três dias à Alemanha.
As declarações de Lula se referem ao caso de delegado Marcelo Ivo de Carvalho, adido da Polícia Federal em Miami, que na semana passada teve participação na prisão do ex-deputado e ex-delegado Alexandre Ramagem por agentes da imigração dos EUA. Ramagem, um aliado da família Bolsonaro, acabou sendo solto por autoridades dos EUA dois dias depois.
EUA pedem que brasileiro deixe o país
Na segunda-feira, o caso teve um novo desdobramento quando o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental dos Estados Unidos informou que havia pedido a saída de um "funcionário brasileiro" do território americano. Logo ficou claro que se tratava do delegado Marcelo Ivo e que o caso tinha relação com a prisão de Ramagem.
Em manifestação publicada na rede social X, o órgão americano acusou que o delegado brasileiro de tentar contornar mecanismos formais de cooperação jurídica para assegurar a prisão de Ramagem, que acabou sendo detido pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) dos EUA.
"Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso", afirmou o escritório na publicação.
Pouco antes da fala de Lula em Hannover, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que acompanhava o presidente na viagem, afirmou aos jornalistas que aguardavam Lula na saída do hotel em Hannover que a expulsão do delegado pelos EUA "não têm fundamento".
"O delegado da PF que estava em Miami trabalha em conjunto com as autoridades americanas e está lá justamente para isso. E essa função é baseada em um memorando de entendimento entre a PF brasileira e as autoridades americanas. Portanto, todos sabiam e trabalharam em conjunto", afirmou o ministro.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que também acompanhava a comitiva de Lula na Alemanha, comentou brevemente o episódio, apontando que o delegado Marcelo Ivo fazia em Miami "atividade policial que normalmente a corporação faz em 34 países".
Caso Ramagem
Ex-deputado e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem fugiu aos EUA no ano passado para evitar o cumprimento de sua pena estabelecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que o condenou a 16 anos de prisão na ação penal relacionada à trama golpista liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em dezembro de 2025, o ministro Alexandre de Moraes determinou o envio de um pedido formal de extradição aos Estados Unidos, por meio do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em abril, a Polícia Federal informou que o serviço de imigração americano havia prendido Ramagem como resultado de cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos. Contudo, aparentemente a prisão acabou acontecendo por questões envolvendo o visto de Ramagem nos EUA, e não como desdobramento direto do pedido de Moraes.
Na ocasião, o diretor-geral da PF afirmou que o ex-deputado é "um cidadão foragido da Justiça brasileira e, segundo autoridades norte-americanas, está em situação migratória irregular".
Ramagem acabou detido na cidade de Orlando, mas foi solto dois dias depois. Ao deixar a cadeia, ele chegou a agradecer ao governo de Donald Trump. Agora, ele poderá aguardar em liberdade a conclusão de seu pedido de asilo político ao governo americano.
Após o episódio, autoridades dos EUA próximas ao grupo político de Ramagem e do clã Bolsonaro passaram então a acusar "um funcionário brasileiro" de acionar indevidamente o ICE para contornar o processo legal de extradição de Ramagem. O órgão responsável nos EUA por deliberar sobre extradições é o Departamento de Estado.
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