Imprensa francesa analisa ofensiva bolsonarista contra o STF e recuo da esquerda entre jovens
O cenário político brasileiro entra no período pré-eleitoral marcado por dois movimentos simultâneos, segundo os jornais franceses: a intensificação dos ataques de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal e a reorganização da disputa pelo voto jovem, segmento que vem se afastando da esquerda e demonstrando maior receptividade ao discurso da direita, em um contexto de forte polarização institucional e social.
O jornal Le Figaro, em sua edição desta terça-feira (21), analisa a ofensiva de Flávio Bolsonaro contra os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A reportagem integra uma série dedicada à guinada à direita na América Latina, região onde onze países são atualmente governados por forças políticas que vão do centro à extrema direita. Segundo o diário francês, trata-se de um novo conservadorismo que avança em países marcados, por longos períodos, por governos de esquerda.
No caso brasileiro, o Le Figaro destaca a crise que envolve o STF às vésperas das eleições gerais de outubro, em um ambiente de intensa polarização política. Pilar do sistema institucional do país, o tribunal é acusado por setores bolsonaristas de agir de forma politizada e foi atingido por um escândalo de corrupção revelado pela imprensa, relacionado à falência do banco Master. O caso envolve suspeitas de contratos fictícios e possíveis irregularidades que alcançariam diretamente o ministro Alexandre de Moraes, descrito pelo jornal como "figura central nas decisões contra Jair Bolsonaro após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023".
Ainda segundo o Le Figaro, essas revelações alimentam a estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo Partido Liberal, que faz campanha aberta contra os ministros do Supremo e defende a anistia dos condenados pelos ataques às instituições. O jornal ressalta que pesquisas recentes indicam um aumento da desconfiança da população em relação ao STF. Entre apoiadores do bolsonarismo, famílias de condenados veem os presos como "perseguidos políticos" e sustentam a narrativa de que os eventos de 8 de janeiro teriam sido apenas uma manifestação popular, não uma tentativa de golpe, reforçando a ideia de que a Justiça atuaria em defesa do presidente Lula.
A reportagem aponta que o movimento bolsonarista vai além da crítica direta e defende mudanças estruturais no sistema político, como a revisão da Constituição e a ampliação dos poderes do Senado para destituir ministros do Supremo. Deputados influentes e juristas conservadores denunciam o que chamam de "magistocracia", um Judiciário que, segundo eles, extrapolaria suas atribuições ao criar crimes e interferir no debate público.
Do outro lado, aliados do governo Lula defendem o STF, afirmando que a corte apenas cumpre a lei. Eles alertam para os riscos da desinformação e da crise de confiança nas instituições democráticas, em um momento em que o Brasil enfrenta profundas divisões políticas e um crescente ceticismo em relação ao funcionamento do Estado de Direito.
Esquerda perde terreno entre os jovens
O jornal Le Monde chama a atenção para outro fenômeno político: a perda de influência da esquerda entre os jovens brasileiros, tradicionalmente um de seus principais pilares eleitorais. Apesar de políticas de Lula voltadas a essa faixa etária — como o aumento do salário mínimo e propostas de redução da jornada de trabalho — muitos jovens não se sentem representados, sobretudo aqueles que migraram para o trabalho em plataformas digitais.
A retórica da extrema direita, centrada no empreendedorismo, na autonomia individual e no sucesso pessoal, mostra-se mais atraente para uma geração que valoriza flexibilidade e rejeita o emprego assalariado tradicional. Dados do IBGE indicam que esse setor cresceu rapidamente e é composto majoritariamente por trabalhadores com menos de 39 anos, revelando uma mudança estrutural no mercado de trabalho e nas expectativas dos jovens.
Relatos de entrevistados ouvidos pelo jornal francês ilustram esse afastamento das políticas sociais do governo, frequentemente percebidas como assistencialistas e pouco compatíveis com o desejo de independência econômica.
Diante desse cenário, o governo e o Partido dos Trabalhadores tentam reagir com novas iniciativas para reconquistar esse eleitorado, como a criação do Observatório Nacional da Juventude e a defesa de uma maior presença de jovens na política institucional. Dirigentes e militantes do PT reconhecem, no entanto, que será necessário intensificar o trabalho de base e ocupar espaços culturais, educacionais e periféricos para enfrentar a hegemonia da direita nas redes sociais e reconectar a esquerda às aspirações dessa nova geração.
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