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'Geração Lava Jato' prefere Flávio, e idosos podem ser 'novo Nordeste' de Lula, diz diretora do Datafolha

Para Luciana Chong, esta é uma eleição movida pela alta rejeição aos dois líderes nas sondagens, o que deve fazer de um eventual segundo turno uma disputa bastante acirrada.

18 ago 2026 - 05h12
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Detalhes da pesquisa Datafolha mostram entre quais públicos Lula e Flávio aparecem com vantagem
Detalhes da pesquisa Datafolha mostram entre quais públicos Lula e Flávio aparecem com vantagem
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

As pesquisas eleitorais têm mostrado uma certa estabilidade na disputa presidencial, sinalizando, no momento, para um segundo turno apertado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com pequena vantagem para o petista.

O detalhamento das sondagens, porém, revela dados interessantes sobre a corrida eleitoral, ressalta a diretora do instituto Datafolha, Luciana Chong, em entrevista à BBC News Brasil.

Ela nota que o crescente eleitorado de idosos, com 60 anos ou mais, desponta como um possível "novo Nordeste" para o PT, em referência à região que tem dado larga vantagem de votos para o partido de Lula desde 2002.

Segundo a última pesquisa Datafolha, em eventual segundo turno, 55% desse grupo declaram apoio ao petista, contra 37% que preferem Flávio, uma diferença de quase vinte pontos percentuais.

Os idosos também chamam atenção por seu engajamento maior na eleição em relação a outros grupos, nota Chong. Na pesquisa espontânea para o primeiro turno, ou seja, quando os entrevistados são perguntados sobre em quem vão votar sem que lhes sejam apresentados os nomes dos candidatos, apenas 34% do eleitorado mais velho responde que ainda não sabe seu candidato, contra 46% dos mais jovens (16 a 24 anos).

"Os idosos são agora 23% dos eleitores. Nunca houve um percentual tão alto de pessoas com 60 anos ou mais dentro do eleitorado. E hoje, porque há a questão da longevidade, uma pessoa de 60 anos, 70 anos, está muito ativa, diferente do que era há algumas décadas. Hoje, as pessoas estão trabalhando, são ativas e querem ir votar", analisa.

"É um segmento importante que está bem engajado com o Lula nesse momento. Acho que também muito por conta de todas as políticas econômicas que acabam acenando para esse grupo, como a valorização do salário mínimo [que aumenta também o valor de benefícios do INSS]", nota Chong.

Por outro lado, a maior dificuldade de Lula está entre a população adulta, na faixa de 35 a 44 anos, que a diretora do Datafolha chama de "geração Lava Jato", em referência à operação que desmantelou um grande esquema de corrupção envolvendo a Petrobras e diferentes partidos políticos durante os governos de Dilma Rousseff (2010 a 2016).

É um grupo que passou boa parte de sua vida governada por governos petistas e acompanhou a grande repercussão do escândalo. Nessa faixa etária, Flávio aparece com 53% das intenções de voto em eventual segundo turno, contra 38% de Lula.

"Quando a gente pergunta qual o principal problema do país, eles citam a corrupção mais do que os outros grupos", destaca.

Para Chong, o período eleitoral de campanha, que começou em 16 de agosto, e a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV (a partir do dia 28) ainda são capazes de influenciar o voto do eleitor, apesar da importância das redes sociais como meio de informação hoje.

Até o momento, porém, ela vê pouco espaço para algum candidato romper a forte polarização entre Flávio e Lula, como os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) ou o novato Renan Santos (Missão).

Na sua visão, essa é mais uma eleição movida pela rejeição, em que o eleitor escolhe o seu candidato não tanto pelas propostas, mas em contraponto ao que mais rejeita, seja o presidente ou o filho de Jair Bolsonaro (PL).

Isso, diz Chong, contribui para o cenário de segundo turno apertado que vem sendo apontado nas pesquisas eleitorais, apesar da ampla vantagem de Lula nos levantamentos de primeiro turno.

"A gente vê que Lula vence todos os outros com percentuais parecidos, porque, para esse eleitor [anti-Lula], tanto faz se é Flávio, se é Caiado, se é Zema; ele é contra Lula. É mais um voto anti-Lula do que naqueles candidatos que estão ali apresentados. Então, quando houver realmente um segundo turno definido, toda essa direita vai se unir. Não vai ser uma eleição fácil", avalia.

Confira a seguir os principais destaques da entrevista, em que Chong rebate críticas de que o Datafolha "errou o resultado da disputa presidencial de 2022" e conta sobre como ferramentas de inteligência artificial estão sendo usadas para aprimorar instrumentos de checagem das pesquisas do instituto, que são realizadas de forma presencial, nos chamados pontos de fluxo (áreas de grande circulação de pessoas) das cidades onde ocorre o levantamento.

Luciana Chong é diretora do Datafolha desde março de 2022
Luciana Chong é diretora do Datafolha desde março de 2022
Foto: Divulgação / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Quais tendências do eleitorado chamam sua atenção nesta eleição?

Luciana Chong - O voto feminino, que em 2022 foi superimportante para a eleição do Lula, se mantém. As mulheres têm uma resistência maior ao candidato Flávio, assim como tinham em relação ao Jair Bolsonaro. Vemos também o voto dos mais jovens um pouco mais com o Lula, e os evangélicos sempre mais alinhados à família Bolsonaro.

Esse ano, estamos fazendo essa pergunta aos entrevistados: "Numa escala de bolsonarista a petista, de 1 a 5, em que grau você se coloca?". É para entendermos se a pessoa é um bolsonarista raiz, se é um bolsonarista moderado, se é um petista raiz, um petista moderado. E, no meio, aparecem os não alinhados, que é um grupo superimportante, que pode decidir a eleição. A intenção de voto desse grupo é um pouco mais para Lula do que para Flávio, mas isso pode mudar. É um grupo mais suscetível a mudanças.

BBC News Brasil - E como é o perfil social dos não alinhados?

Chong - Eles são mais jovens, têm escolaridade média, principalmente, e são mais de cidades grandes. Não têm partido político de preferência. E existe um índice alto de eleitores sem religião. É um perfil que não está tão engajado ainda com a eleição, algo que vemos com os jovens, por exemplo, pois eles têm um índice alto que responde que não sabe em quem vai votar na pesquisa espontânea. Esperamos agora, com o início da propaganda eleitoral, que esse grupo se engaje também. Vamos conseguir entender um pouco para que lado eles vão.

BBC News Brasil - As mulheres são a maioria do eleitorado, representam quase 53% dos eleitores. Com a vantagem que Lula tem entre elas, é possível dizer que o eleitorado feminino se tornou um novo Nordeste para o PT?

Chong - Acho que não, porque o Nordeste ainda tem uma força maior. Quando a gente vê o eleitorado feminino por faixa etária, por exemplo, as mais jovens são mais Lula e as mais velhas também, mas essa faixa intermediária já não é tanto, que é justamente uma faixa de idade que chamamos aqui de "geração Lava Jato", porque é a geração que cresceu vendo a Lava Jato. Então, é mais crítica em relação ao governo do PT, ao Lula, principalmente na questão da corrupção.

Talvez um segmento que esteja mais perto do que seria o Nordeste para o Lula sejam os mais velhos. Se você vê na faixa de 60 anos ou mais, aí sim ele tem uma vantagem muito maior. E aí parece um voto mais consolidado, pois os mais velhos também são os que estão mais engajados [na eleição]. O índice de eleitores que dizem que não sabe em que vai votar é menor [entre os idosos].

A vontade de votar é maior do que a dos mais jovens. Então, é um segmento importante e que está bem engajado com o Lula nesse momento. Acho que também muito por conta de todas as políticas econômicas que o Lula vem fazendo, que acabam acenando para esse grupo, como a valorização do salário mínimo [que aumenta também o valor de benefícios do INSS] e a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil.

BBC News Brasil - Então, o grupo que viveu a maior parte da sua vida política sob os governos do PT é o que menos vota em Lula?

Chong - Sim, no total da amostra, nessa faixa etária, de 35 a 44 anos, o Flávio fica na frente. E, quando perguntamos qual é o principal problema do país, eles citam a corrupção mais do que os outros grupos.

BBC News Brasil - Com o envelhecimento da população, os eleitores idosos estão ganhando peso na eleição, mas eles não são obrigados a votar a partir de 70 anos. Qual a importância desse grupo?

Chong - Os idosos são agora 23% dos eleitores. Nunca houve um percentual tão alto de pessoas com 60 anos ou mais dentro do eleitorado. É um grupo que, de fato, só vai crescer. E hoje, porque há a questão da longevidade, uma pessoa de 60 anos, 70 anos, está muito ativa, diferente do que era há algumas décadas. Hoje, as pessoas estão trabalhando, são ativas e querem ir votar. Então, é um segmento importante. Vamos ter que ver como vai ser a abstenção, mas, pela intenção de voto, a gente vê que eles têm um engajamento maior.

BBC News Brasil - A campanha eleitoral e a propaganda gratuita em televisão e rádio ainda têm relevância para mexer nas intenções de voto?

Chong - Eu acho que sim, porque, quando a gente faz pesquisas para medir o grau de confiabilidade nos meios de informação, as redes sociais são as em que as pessoas menos confiam, apesar de serem as mais utilizadas. Claro, atinge as pessoas muito mais rápido e tem muito mais conteúdo rodando, mas as pessoas ainda confiam mais nos meios tradicionais, como TV, rádio, jornais.

Maioria da geração que acompanhou escândalos de corrupção dos governos do PT vota em Flávio
Maioria da geração que acompanhou escândalos de corrupção dos governos do PT vota em Flávio
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - O Renan Santos, que disputa pela primeira vez uma eleição, tem aparecido na frente de nomes tradicionais, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema. De onde vem esse apoio? Tem espaço para ele crescer mais, nesse cenário tão polarizado entre Lula e Flávio Bolsonaro?

Chong - Ele tem apoio em um segmento muito nichado, entre os mais jovens, que é onde consegue ter algum destaque. O conhecimento dele ainda é muito baixo, então ele não consegue ainda chegar nas outras faixas de idade. Ele pode ter um crescimento, porque agora, que começa a campanha mesmo, ele vai começar a aparecer nos debates, nas entrevistas e vai se tornar mais conhecido. Mas eu acho que ainda não ameaça essa polarização.

É a primeira eleição, ele está construindo o nome dele, na verdade, não para esse ano, mas para daqui a quatro anos, oito anos.

BBC News Brasil - Por que Caiado não consegue decolar, mesmo concorrendo por um grande partido?

Chong - Ele foi governador por dois mandatos. Lá em Goiás, ele é super conhecido, mas no Brasil ainda não. Então, eu acho que, conforme ele for se tornando mais conhecido agora, pode ser que ele também tenha crescimento.

Assim, essa eleição está sendo marcada por várias denúncias de todos os lados, então tem denúncia contra o Flávio, tem denúncia contra o Lula. Então, a gente não sabe, daqui para frente, como isso vai seguir. E aí, talvez, seja uma chance do Caiado conquistar um eleitor mais à direita.

BBC News Brasil - Durante a redemocratização, nunca ocorreu de um candidato a presidente que ficou em segundo lugar no primeiro turno conseguir virar e ganhar a eleição no segundo turno. Este ano, porém, há alguns candidatos na direita que tendem a transferir votos para Flávio Bolsonaro no segundo turno, segundo o atual cenário das pesquisas eleitorais. É um cenário mais desafiador para Lula?

Chong - Sem dúvida, é o que a gente viu em 2022. Na última eleição, o Lula ainda tinha uma vantagem maior em relação ao Bolsonaro no primeiro turno. Só que, quando começou o segundo turno, essa vantagem desapareceu e eles foram seguindo muito empatados até o final. A diferença foi mínima. Então, eu acho que isso pode se repetir, sim.

Hoje, as simulações de segundo turno não servem para muita coisa, porque estamos falando para o eleitor se posicionar em relação a algo que ainda está distante.

Mas hoje, quando a gente faz essas simulações, a gente vê que o Lula vence todos os outros com percentuais parecidos, porque, para esse eleitor [anti-Lula], tanto faz se é o Flávio, se é o Caiado, se é o Zema, ele é contra o Lula. É mais um voto anti-Lula do que naqueles candidatos que estão ali apresentados. Então, quando tiver realmente um segundo turno definido, toda essa direita vai se unir. Não vai ser uma eleição fácil.

Idosos representam 23% do eleitorado brasileiro hoje, segundo a diretora do Datafolha
Idosos representam 23% do eleitorado brasileiro hoje, segundo a diretora do Datafolha
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil / BBC News Brasil

BBC News Brasil - O TSE deve julgar em breve a ação da campanha do Flávio Bolsonaro que questiona a pesquisa eleitoral da Atlas Intel, que, ao final do questionário sobre intenção de voto, reproduzia um áudio entre o candidato e o banqueiro Daniel Vorcaro e questionava o entrevistado sobre essa gravação. Essa pesquisa está suspensa por uma decisão do ministro Kássio Nunes Marques, presidente do TSE. Como o Datafolha está acompanhando esse julgamento? Isso gera alguma preocupação?

Chong - Sim, e ainda tiveram outras ações do Kássio nesses meses: ele propôs a criação daquele selo de acurácia, em que a gente se colocou contra. O objetivo da pesquisa não é acertar o resultado final. Não faz sentido você premiar as empresas que estão acertando.

Por que a pesquisa é importante? Justamente para contar a história da eleição, entender quais segmentos são mais importantes para cada candidato, como as pessoas estão se posicionando e entendendo a eleição. Então, esse selo vai contra tudo o que a gente entende por pesquisa. Depois, ele veio também dizendo que queria que a gente registrasse os bairros onde vai ser realizada a pesquisa antes de a pesquisa acontecer. Isso seria gravíssimo, inviabilizaria a pesquisa.

Todo ano de eleição, a gente sabe que os políticos querem, de alguma forma, tentar proibir as pesquisas. Eles consomem muita pesquisa, acreditam nas pesquisas, porque contratam e usam mesmo para as campanhas, mas são contra as pesquisas divulgadas, que é o mais importante para o eleitor ter acesso.

Então, eu acho que essa decisão do ministro contra a Atlas é muito ruim, porque realmente o áudio estava no final do questionário. De forma alguma interferiu na hora de dar a resposta dos entrevistados. E os institutos já têm que ser muito transparentes. Já têm que registrar a metodologia, registrar o questionário, entregar os bairros em que é realizado. As ferramentas de controle já são suficientes. Então, acho que não precisaria de outras coisas, ainda mais agora, faltando pouquíssimo tempo para a eleição.

Líder nas pesquisas de primeiro turno, Lula deve ter cenário desafiador no segundo, ressalta Chong
Líder nas pesquisas de primeiro turno, Lula deve ter cenário desafiador no segundo, ressalta Chong
Foto: Reuters / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Como você disse, questionamentos aos institutos não são novidade. Surpreende essa movimentação vindo do TSE?

Chong - Sim, porque acho que nunca foi assim, tão perto da eleição. A resolução [do TSE com regras para as pesquisas] já foi publicada no início do ano.

BBC News Brasil - Outros institutos apoiaram o selo proposto por Kássio Nunes Marques, como o Atlas Intel e o Paraná Pesquisas. Um argumento a favor é que ajudaria a tornar institutos menores mais conhecidos. Por que você discorda?

Chong - Porque vai contra o objetivo e a função da pesquisa. Se eu concordar com essa ideia, estou dizendo que a pesquisa tem que acertar o número final do TSE. E não é isso. A pesquisa tem que contar a história da eleição. A pesquisa é feita ao longo do período eleitoral para contar essa história e vai até a véspera da votação. A pesquisa de véspera é a última e, então, ela não pode ser comparada com a urna do TSE.

Tem sempre essas críticas de que "o instituto errou". Não acho certo falar que o instituto errou ou acertou. Tem alguns institutos que falam: "Ah, eu sou o que mais acerta".

Não é por aí, porque a pesquisa de véspera termina no sábado à tarde, ela não pode ser comparada com o resultado do TSE da votação de domingo. Porque as pessoas deixam para decidir depois, ou pode ser que o eleitor mude de ideia. Pode ser que, quando sair o resultado da pesquisa de véspera, por exemplo, sábado à tarde, a pessoa queira fazer um voto útil em algum sentido para tentar resolver a eleição em primeiro turno.

A única pesquisa que poderia ser comparada com o resultado do TSE seria a pesquisa de boca de urna realizada no dia da eleição. O Datafolha fazia isso quando ainda não tinha a urna eletrônica. Agora, a apuração é tão rápida que não justifica mais uma pesquisa cara. Mas seria a única que poderia confirmar: "Esse instituto acertou, esse instituto errou".

Do jeito que é hoje, não dá para criar um selo para premiar institutos, que é uma ideia que vai contra a razão de ser da pesquisa.

BBC News Brasil - Em 2022, os institutos foram acusados de errar porque subestimaram os votos no Bolsonaro no primeiro turno. O resultado do TSE ficou acima da margem de erro do Datafolha. Isso não poderia indicar alguma necessidade de melhoria da metodologia, por exemplo?

Chong - O TSE não tem capacidade técnica de avaliar as metodologias dos institutos. Cada instituto vai adotar a metodologia que considera melhor. Não tem uma regra: "Essa é a melhor ou a outra pior". Cada um vai utilizar aquela em que acredita mais.

De fato, a gente ficou distante do número final [no primeiro turno de 2022], mas o que é importante? A pesquisa, durante o período eleitoral, apontou, durante todo o caminho, que era uma eleição polarizada, que os dois candidatos [Lula e Jair Bolsonaro] iriam para o segundo turno, que não teria uma chance da terceira via com Simone Tebet ou Ciro Gomes, que aquela polarização ia ser até o final.

Então, as pesquisas apontaram tudo isso, né? Apontaram o voto dos evangélicos, apontaram o voto das mulheres. É isso que é importante. E, quando chega no final, teve uma mudança de última hora dos eleitores do Ciro e da Tebet, que optaram pelo voto útil: "Ah, não tem chance mesmo, vou votar no Bolsonaro".

Essas mudanças acontecem cada vez com mais frequência. Acho que isso não é um sinalizador de que as pesquisas erraram, é um sinalizador de que tem mudança e cada vez mais rápido.

Datafolha é contra a proposta do ministro Kássio Nunes Marques de criar selo para institutos que "acertam pesquisa"
Datafolha é contra a proposta do ministro Kássio Nunes Marques de criar selo para institutos que "acertam pesquisa"
Foto: Luiz Roberto/TSE / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Como o Datafolha está usando inteligência artificial (IA) nas pesquisas?

Chong - Nós usamos como ferramenta para os nossos processos, fazer a checagem do material. O pesquisador vai com o tablet e as entrevistas são gravadas, a gente recebe esse áudio aqui na nossa sede, do Brasil inteiro. Aí, a IA transcreve essas entrevistas, e a gente consegue comparar com o que o pesquisador anotou no questionário.

Então, eu sei, por exemplo, se você respondeu que vai votar no Renan Santos, mas um pesquisador colocou que você não sabe. E, se está incoerente, a gente já consegue identificar isso rapidamente e ouvir as outras entrevistas desse pesquisador e identificar alguns problemas de forma bem rápida. Usamos as ferramentas da IA para esse auxílio, em várias etapas, mas não para criar questionário.

BBC News Brasil - Essa checagem é feita em uma amostra da pesquisa.

Chong - Temos que checar pelo menos 20% do material de cada pesquisador. Se a gente identifica algum problema, aí a gente checa 100%, e, se for necessário, a gente faz a reposição desse material. Mas tudo tem que ser muito rápido, porque fazemos o [trabalho de] campo em dois, três dias.

A gente também consegue saber, pelo GPS do tablet, se o pesquisador realmente está no lugar determinado. O pesquisador vai para uma cidade, por exemplo, e tem dois pontos onde tem que fazer a pesquisa. Então, são todos controles de qualidade que a gente vai, a cada eleição, aprimorando justamente para garantir que essa coleta seja bem feita, porque tudo começa ali. Se tem algum problema de coleta, você não consegue resolver depois.

BBC News Brasil - Com os avanços tecnológicos, a pesquisa online é cada vez mais comum. Por que o Datafolha mantém a pesquisa presencial?

Chong - Porque ainda é a melhor forma de garantir a melhor representatividade do universo. A gente está falando do Brasil, que é muito desigual. O que a gente vê na Região Sudeste e Região Sul é um cenário. Você vai para o Norte, o Nordeste, é outro completamente diferente.

A pesquisa eleitoral tem que ser representativa. Então, eu tenho que ter eleitores de cidades de pequeno, médio e grande porte. Eu tenho que ter eleitores com nível fundamental, que hoje, na nossa amostra, são mais de 30%. No online, eu não consigo ter essa representatividade, eu vou ter um percentual muito baixo de pessoas com baixa escolaridade. Eu não vou ter pessoas que moram em municípios pequenos do Norte, do Nordeste, mesmo do Sudeste.

A gente faz pesquisas online para outras coisas, como pesquisa de mercado, com outros públicos, outros segmentos. Funciona super bem, mas, para isso, ainda não dá. Numa pesquisa online, você tem que fazer uma ponderação muito maior dos resultados [na etapa de processamento dos dados] para conseguir representar o universo de eleitores. Na nossa pesquisa presencial, as nossas ponderações são mínimas, são só ajustes.

BBC News Brasil - Você comentou sobre a importância da liberdade metodológica. É positivo ter diferentes metodologias no mercado e ferramentas de agregação de pesquisas, que mostram a tendência predominante das sondagens eleitorais?

Chong - Sim, acho super válido, porque se torna uma pauta. A gente está falando da pesquisa online porque tem instituto que faz pesquisa online. Quanto mais a gente discute pesquisa, metodologias e tudo mais, melhor é para o mercado de pesquisa, e vamos aprimorando cada vez mais.

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