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É possível falar em 'cura' para o coronavírus?

Entre histórias felizes de pessoas 'curadas' do coronavírus e a cautela da OMS de falar em casos 'recuperados', estão perguntas ainda cruciais sobre o novo coronavírus.

8 abr 2020
13h26
atualizado às 15h26
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De acordo com estimativas da universidade americana Johns Hopkins, pelo menos 1,4 milhão de pessoas já foram infectadas com o novo coronavírus no mundo.

Pacientes recuperados do coronavírus podem ser diagnosticados como livres da doença por critérios clínicos, como ausência de sintomas, e também por testes
Pacientes recuperados do coronavírus podem ser diagnosticados como livres da doença por critérios clínicos, como ausência de sintomas, e também por testes
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Destas, 80 mil perderam suas vidas. Outras 298 mil foram "recuperadas" (dados coletados na noite de 7 de abril; o sistema de monitoramento desenvolvido por pesquisadores da Johns Hopkins pode ser acessado aqui).

Na imprensa e na comunicação dos governos, casos assim, de pessoas que foram diagnosticadas com a covid-19 e depois se recuperaram da doença, têm sido mencionados como histórias de pessoas "curadas".

No entanto, a cautela em falar em "recuperação" em vez de cura, como tem feito a Organização Mundial da Saúde (OMS), tem a ver com incertezas sobre o coronavírus, como por exemplo seu potencial de transmissão após o desaparecimento de sintomas em uma pessoa já diagnosticada e até mesmo dúvidas sobre se uma nova infecção é possível — incógnitas sobre um vírus cujo potencial de afetar humanos é, afinal, novo.

Dificuldades encontradas pelo mundo, como a falta de testes para o coronavírus, também fazem com que existam diferentes critérios para se falar em cura ou recuperação.

Critério clínico ou virológico

Países como o Brasil vivem um gargalo para aumentar a testagem para o coronavírus na população — e, portanto, para cumprir o pedido da OMS de que todos os casos suspeitos sejam testados, uma medida vista como essencial para frear o alastramento do vírus.

Um dos principais meios para detectar o vírus é o teste molecular chamado RT-PCR. Ele detecta o material genético do novo coronavírus em amostras de secreções coletadas do nariz ou da garganta de uma pessoa.

Hoje, o Ministério da Saúde diz que a prioridade é da testagem de RT-PCR em casos de doentes graves.

Quadros com sintomas mais leves são diagnosticados por critério clínico — ou seja, a consideração do histórico de contato e da existência de sintomas, como febre associada a tosse, dor de garganta, coriza ou dificuldade respiratória.

Faltam testes moleculares para casos suspeitos da doença em países como o Brasil; para checagem sobre recuperação da doença, esse uso é ainda mais distante
Faltam testes moleculares para casos suspeitos da doença em países como o Brasil; para checagem sobre recuperação da doença, esse uso é ainda mais distante
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Assim, se nem os pacientes com suspeita da doença estão sendo submetidos a testes moleculares no país, os que têm se recuperado da covid-19 tampouco são, por regra, testados para verificar se estão mesmo livres da doença.

É mais uma vez o critério clínico, e não a testagem, que está sendo usado, com algumas exceções, para definir uma recuperação.

Isso é usual para doenças como a covid-19, de acordo com Bruce Ribner, diretor médico da Unidade de Doenças Transmissíveis Graves do Hospital da Universidade de Emory, nos Estados Unidos.

"Essa é a definição que se usa na maioria dos casos que uma pessoa tem uma infecção viral, como por exemplo a influenza. Não fazemos nenhum teste", descreveu Ribner à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

A BBC News Brasil perguntou na semana passada à assessoria de imprensa do Ministério da Saúde como são definidos casos de pessoas recuperadas do coronavírus no país, mas não teve resposta.

A Universidade Johns Hopkins, que mapeia os números apresentados no início da reportagem, também não detalhou como classifica casos "recuperados", afirmando por e-mail apenas que faz a estimativa a partir de notícias da mídia local de diferentes países.

Mas secretarias de Saúde de Estados brasileiros, como a do Distrito Federal, confirmaram que estão definindo a cura por critério clínico, sem a necessidade de teste.

"Após o período de quarentena, estipulado em 14 dias, se o paciente não apresentar mais nenhum sintoma da doença, ele é considerado curado", disse a Secretaria de Comunicação do Distrito Federal à BBC News Brasil.

O primeiro caso dito curado de um paciente internado com coronavírus no Brasil foi anunciado em 13 de março, o de um homem que ficou no hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Procurado pela reportagem, o hospital afirmou que também utiliza um protocolo baseado no quadro clínico: "Após 14 dias do diagnóstico laboratorial, o paciente deve estar sem febre há 3 dias, sem uso de antitérmicos e melhora dos sintomas respiratórios (tosse, falta de ar, odinofagia, popularmente chamada de dor de garganta)."

Entretanto, o hospital diz que pretende "associar ao critério clínico acima o exame de biologia molecular de amostras respiratórias em duas oportunidades com intervalo superior a 24 horas, demonstrando a cura virológica no caso dos testes negativos", mas que a limitação de testes disponíveis impediu até a agora a implementação disso.

De acordo com Fernando Gatti de Menezes, infectologista do Albert Einstein, eventuais testes para verificar recuperação da covid-19 devem ser feitos após a melhora do quadro clínico — já que, se realizados enquanto a pessoa ainda tiver sintomas, a probabilidade do teste dar positivo é muito alta.

Uma pessoa sem sintomas pode continuar transmitindo o coronavírus?

Gatti afirmou, em email enviado pela assessoria do hospital à BBC News Brasil, que a confirmação da recuperação pelo diagnóstico molecular é importante "para avaliar potenciais pacientes que permanecem excretando o vírus e, portanto, potenciais transmissores".

Ainda assim, estes testes também podem ter falhas: "É muito importante frisar que a positividade do teste molecular depende da forma como se coleta, transporte e técnica laboratorial, portanto, também é passível de falsos negativos."

Bruce Ribner também alerta que, hoje, o diagnóstico clínico não é suficiente para garantir que um paciente não carregue o vírus.

Ainda não há consenso científico sobre por quanto tempo o coronavírus pode ser encontrado no corpo após o desaparecimento de sintomas
Ainda não há consenso científico sobre por quanto tempo o coronavírus pode ser encontrado no corpo após o desaparecimento de sintomas
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Se este vírus se comportar como os demais coronavírus", diz Ribner, é muito possível que "pessoas que se sintam perfeitamente bem ainda possam ter o vírus nas secreções do nariz ou saliva vários dias depois de ter observado melhora".

Apesar de se saber que os primeiros dias de infecção são aqueles com maior perigo de transmissão do novo coronavírus, ainda está em estudo por quanto tempo o vírus pode ser encontrado no corpo e, mais do que isso, até quando dura seu potencial de transmissão para outras pessoas.

Um estudo considerando casos de Wuhan, cidade chinesa em que o vírus começou a infectar pessoas, mostrou que o vírus era detectável de oito a 37 dias de infecção, a depender do paciente.

Benedito da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), reforça porém que ter o vírus detectado não quer dizer que ele é transmissível.

"Alguns trabalhos estão mostrando que mesmo depois de dez, 20 dias, o paciente com melhora clínica testa positivo. Isso não significa necessariamente que ele seja infeccioso. Por quê? O PCR detecta o genoma do vírus, e esse genoma pode estar dentro de uma célula inativada, junto com anticorpos (que conseguem neutralizar a infecção)", aponta o infectologista, que tem doutorado em virologia molecular pela Universidade Yale, nos EUA.

Considerando a limitação de testes e insumos, Fonseca defende que os testes moleculares sejam usados principalmente para o diagnóstico inicial da doença. Como orientação geral, ele acredita que utilizar o PCR para verificar a recuperação de pacientes é desnecessário.

Neste caso, pode ser mais benéfico o uso dos chamados testes sorológicos, aqueles que identificam anticorpos produzidos pelo organismo contra o vírus em amostras de sangue.

Por darem resultado em 15 a 30 minutos, eles são conhecidos também como testes rápidos. No Brasil, eles estão sendo distribuídos para profissionais de saúde e de segurança, com o objetivo de garantir que estão aptos a trabalhar.

Os testes sorológicos têm no entanto limitações, como a sensibilidade de detecção mais baixa que os testes moleculares. Os testes rápidos também não servem para o diagnóstico no início da doença, uma vez que o organismo leva cerca de sete dias para desenvolver anticorpos contra um vírus.

Por isso, podem justamente ser úteis para acompanhar casos de pessoas diagnosticadas com covid-19 que não têm mais sintomas.

A pessoa 'curada' fica imune ao vírus?

Está a todo vapor na Ciência a busca por respostas para a incógnita sobre se, e por quanto tempo, uma pessoa fica protegida do coronavírus após uma primeira infecção.

Como a covid-19 existe há apenas alguns meses, faltam dados robustos para dar esta resposta — mas ela é essencial para o desenvolvimento de tratamentos e para a compreensão da doença a longo prazo.

"Se for similar a outros coronavírus como o do Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave) ou Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), a pessoa que se infecta provavelmente não voltará a ficar doente", aponta Bruce Ribner, da Universidade de Emory.

"Para infecções como essas, a duração (da proteção) pode ser de um ano ou dois. Mas para outras, como o sarampo, se você a teve nunca mais terá."

Equipe de hospital em Wuhan, na China, se despede de paciente curado da covid-19; OMS destaca que maioria dos infectados com a doença consegue se recuperar
Equipe de hospital em Wuhan, na China, se despede de paciente curado da covid-19; OMS destaca que maioria dos infectados com a doença consegue se recuperar
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No entanto, para o novo coronavírus, há relatos pelo mundo de seu "retorno" em um mesmo paciente — como uma pessoa de 70 anos no Japão que teve alta, voltou a ter febre e foi diagnosticada novamente com a covid-19.

Pesquisadores ponderam, todavia, que casos assim podem na verdade incluir falsos negativos no momento da alta; ou um retorno temporário da doença, em vez de uma nova infecção. De qualquer maneira, isso pode indicar que o vírus fica no corpo mais tempo do que se imaginava.

"Em geral, esse coronavírus imuniza a população, mas talvez a resposta imune (do corpo) não seja muito forte", explicou o virologista espanhol Luis Enjuanes, pesquisador do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), à BBC News Mundo.

"Então, quando essa resposta imunológica diminui, o vírus, que fica em algum reservatório do corpo, reaparece", explica ele.

"O padrão é que uma pessoa infectada teria de se tornar zero positiva, ou seja, gerar imunidade. E que, com a imunidade, o vírus não deveria ressurgir, mas o agente infeccioso pode ficar em tecidos especiais — que não estão tão expostos à defesa (pelo organismo) como outros órgãos", explica.

Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, o pesquisador Fernando Spilki reforça que ainda são necessários mais estudos não só sobre a possibilidade de novas infecções em um mesmo paciente, mas também sobre a capacidade de transmissão nesses casos — já que há relatos de que o paciente pode excretar o vírus após a melhora clínica, ainda que em cargas mais baixas que o normal.

"A proteção contra novas infecções, mesmo que sem sinais clínicos, ainda é um tema que tem de ser melhor estudado em humanos. Em animais experimentais, se detectou que há uma proteção contra a maioria dos sinais clínicos na reinfecção, mas é necessário entender melhor a importância disso quanto à transmissão", diz Spilki, doutor em genética e biologia molecular.

Há tratamento específico para o vírus?

Além da discussão sobre os pacientes "curados" ou recuperados, está o fato de que médicos e cientistas consideram que, hoje, não há uma cura para a covid-19 — ou seja, um tratamento específico para a doença. O que existe é o cuidado de seus sintomas.

"Embora alguns remédios da medicina ocidental, tradicionais ou domésticos possam proporcionar conforto e aliviar os sintomas da covid-19, não há evidências de que a medicina atual possa prevenir ou curar a doença", diz o site informativo da OMS.

"A OMS não recomenda a automedicação com nenhum medicamento, incluindo antibióticos, como prevenção ou cura para o COVID-19. No entanto, existem vários ensaios clínicos em andamento que incluem tratamentos ocidentais e tradicionais", reconhece a organização.

A organização reforça ainda que "maioria das pessoas que são infectadas com a doença consegue se recuperar e eliminar o vírus de seus corpos".

Hoje, a estimativa da OMS é que 3,4% das pessoas infectadas pelo vírus morrem, mas alguns cientistas estimam que esse índice gire em torno de 1%.

*Com informações da BBC News Mundo

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