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Dois Brasis distintos vão às ruas no último dia de campanha; pesquisas confirmam país fraturado

No último dia de campanha antes do primeiro turno das eleições de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ocuparam as ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro em uma disputa que chega à reta final marcada pela polarização, pela alta rejeição dos candidatos e por pesquisas que indicam vantagem do petista, mas sem sinal claro de definição já neste domingo. Lula tem 45% e Flávio Bolsonaro, 42% em votos válidos na véspera do 1º turno, segundo pesquisa Datafolha deste sábado (3).

3 out 2026 - 19h39
(atualizado às 20h08)
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Resumo
No último dia de campanha, Lula e Flávio Bolsonaro expuseram a profunda polarização do país em atos distintos. Em São Paulo, o petista apostou em uma frente ampla pela democracia, enquanto o candidato do PL mobilizou sua base conservadora no Rio de Janeiro com motociatas e apelo patriótico. Pesquisas apontam liderança de Lula, mas a margem apertada e o peso da abstenção deixam incerto se a eleição será definida no primeiro turno ou avançará para uma segunda rodada de votação.

Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Rio de Janeiro

No último sábado antes da abertura das urnas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) transformaram as ruas em vitrine de duas formas distintas de mobilização política. A disputa chega à reta derradeira sem a sensação de desfecho inevitável. Levantamentos divulgados na véspera atribuem vantagem a Lula, mas não o suficiente para afastar completamente a possibilidade de uma contagem apertada. No Datafolha deste deste sábado (3), o petista aparece com 45% dos votos válidos, ante 42% de Flávio Bolsonaro. Em outro levantamento, da CNT/MDA, os números são de 47,8% e 42,1%, respectivamente.

O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (ao centro) acena ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (à esquerda) e de seu candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, durante ato de campanha na véspera da eleição que reuniu centenas de milhares de apoiadores, em São Paulo, em 3 de outubro de 2026.
O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (ao centro) acena ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (à esquerda) e de seu candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, durante ato de campanha na véspera da eleição que reuniu centenas de milhares de apoiadores, em São Paulo, em 3 de outubro de 2026.
Foto: RFI

O resultado sugere liderança consistente de Lula, embora ainda abaixo da marca necessária para liquidar a disputa já neste domingo, cenário onde a abstenção é observada muito de perto. Ela se tornou uma das variáveis mais observadas pelas campanhas porque, em eleições presidenciais, o vencedor é definido pela maioria dos votos válidos, excluídos os brancos e os nulos. Em um cenário de diferença estreita entre os dois líderes, pequenas variações no comparecimento às urnas podem alterar o peso relativo de cada eleitorado e definir se a disputa será resolvida já no primeiro turno ou seguirá para uma nova votação.

A geografia eleitoral ajuda a explicar os movimentos da reta final. Lula concentrou esforços em redutos do Nordeste e em centros urbanos do Sudeste, enquanto Flávio apostou na força do eleitorado conservador do Rio de Janeiro, do interior paulista e do Distrito Federal. Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana mostrou o candidato do PL à frente no Rio de Janeiro, enquanto Lula mantém vantagem em Minas Gerais e larga liderança em Pernambuco. Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, o cenário é de empate técnico.

Mais do que buscar novos eleitores, as campanhas parecem concentradas em assegurar que seus apoiadores efetivamente compareçam às urnas, e essa preocupação não parece trivial. O não comparecimento atingiu patamares históricos em eleições recentes, tornando a participação eleitoral um fator de peso semelhante ao desempenho nas pesquisas.

Uma apoiadora do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva faz um gesto ao lado de uma enorme faixa com imagens que retratam diferentes momentos de sua trajetória durante ato de campanha na véspera da eleição geral, em São Paulo, em 3 de outubro de 2026.
Uma apoiadora do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva faz um gesto ao lado de uma enorme faixa com imagens que retratam diferentes momentos de sua trajetória durante ato de campanha na véspera da eleição geral, em São Paulo, em 3 de outubro de 2026.
Foto: RFI

Dois Brasis diferentes

Em São Paulo, Lula escolheu a avenida Paulista para o encerramento de sua jornada eleitoral. Cercado por aliados de diferentes correntes do campo progressista e do centro político, buscou projetar a imagem de uma frente ampla em defesa das instituições democráticas. O ato reuniu representantes que, em outros momentos da história recente, estiveram em campos rivais, mas que agora convergem na tentativa de impedir o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.

Os discursos enfatizaram temas recorrentes da campanha petista: combate à pobreza, defesa dos programas sociais, valorização da democracia e crítica ao adversário. A presença de nomes como Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Simone Tebet e Marina Silva reforçou a estratégia de apresentar Lula não apenas como líder partidário, mas como ponto de encontro de diferentes setores políticos.

A centenas de quilômetros dali, o último compromisso de Flávio Bolsonaro oferecia outra fotografia do país. Na zona oeste do Rio, bastião bolsonarista e militar, motocicletas, carros adesivados e bandeiras verde-amarelas começaram a ocupar as vias de Campo Grande ainda durante a tarde. O ambiente lembrava os grandes eventos do clã Bolsonaro da última década, combinando estética patriótica, forte presença de símbolos religiosos e militares, e ostensivas manifestações de rejeição ao PT.

Bolsonarista exibe fantasia de "Lula na prisão" durante ato do PL hoje em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro.
Bolsonarista exibe fantasia de "Lula na prisão" durante ato do PL hoje em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro.
Foto: RFI

O percurso seguiu até Bangu, transformando uma extensa área da região em corredor político de apoio ao candidato do PL. Em vez da caminhada cercada por lideranças partidárias observada em São Paulo, o evento fluminense privilegiou a conexão direta com a militância mais fiel do campo conservador. 

Pelos acostamentos e calçadas do bairro pobre da zona oeste carioca, multiplicavam-se referências que se tornaram familiares nas manifestações bolsonaristas. Bandeiras de Israel dividiam espaço com bandeiras brasileiras, enquanto caixas de som reproduziam músicas nacionalistas e palavras de ordem. Fantasias, cartazes e provocações dirigidas ao adversário davam ao evento o tom de uma celebração identitária tanto quanto eleitoral.

Flávio desfilou de colete antibalas

As conversas com participantes revelavam um sentimento recorrente de pertencimento. Muitos descrevem o bolsonarismo menos como uma preferência partidária e mais como uma comunidade política consolidada ao longo dos últimos anos. Entre preocupações com segurança pública, valores conservadores e críticas às elites políticas tradicionais, predominava a sensação de que o movimento sobreviverá independentemente do resultado das urnas.

Quando Flávio Bolsonaro chegou ao local da concentração vestido com colete antibalas, recebeu uma recepção marcada por fogos de artifício, buzinaços e aclamações dos simpatizantes, por quem era amplamente tratado como "01". Do alto de um caminhão adaptado, Flávio percorreu o trajeto acompanhado por uma longa coluna de motociclistas e veículos, repetindo um formato que se tornou uma das marcas visuais do bolsonarismo desde 2018.

Flávio Bolsonaro (PL) desfilou de colete antibalas durante carreata e motociata hoje na zona oeste do Rio de Janeiro.
Flávio Bolsonaro (PL) desfilou de colete antibalas durante carreata e motociata hoje na zona oeste do Rio de Janeiro.
Foto: RFI

O contraste entre os dois atos sintetizou a campanha de 2026. De um lado, uma aposta na frente ampla, na diversidade de apoios e na defesa institucional. De outro, uma mobilização baseada na identidade conservadora, no patriotismo e no vínculo emocional entre líder e militância. As diferenças programáticas estiveram presentes, mas frequentemente ficaram em segundo plano diante de uma disputa carregada de simbolismo.

Ao longo dos últimos meses, temas como segurança pública, custo de vida, benefícios sociais, religião e funcionamento das instituições ocuparam o centro do debate. Ao mesmo tempo, episódios de confronto retórico e campanhas intensas nas redes sociais aprofundaram a percepção de que a eleição transcendeu a simples escolha de um governante, e se converteu - empobrecendo a democracia brasileira - em mais um capítulo da polarização política que marca o país há mais de uma década.

A principal incógnita para este domingo é se Lula conseguirá converter a vantagem registrada pelas pesquisas em vitória no primeiro turno ou se a força demonstrada pelo bolsonarismo levará a disputa para uma segunda rodada, prevista para 25 de outubro. A decisão a partir de agora está na mão dos 158,7 milhões de brasileiros aptos a ir às urnas neste 4 de outubro de 2026. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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