Designação terrorista dos EUA para PCC e CV ameaça cooperação policial com o Brasil, dizem fontes
A designação pelo governo dos Estados Unidos do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês), que entra em vigor na sexta-feira, ameaça romper uma histórica cooperação bilateral entre os dois países no combate ao tráfico de drogas e armas, disseram fontes.
O Departamento de Estado dos EUA, por meio do secretário Marco Rubio, anunciou a designação em 28 de maio, com vigência a partir de 5 de junho.
O PCC e o CV estão entre as maiores organizações criminosas do Brasil, com amplo envolvimento em tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, extorsão e atividades criminosas transnacionais. Os dois grupos começaram como alianças dentro de presídios — o CV no Rio de Janeiro, no final dos anos 1970, e o PCC em São Paulo, no início dos anos 1990 — e expandiram sua atuação para países sul-americanos, Europa e Estados Unidos.
O novo enquadramento das facções surpreendeu autoridades e especialistas ouvidos pela Reuters por ter ocorrido três semanas após uma reunião na Casa Branca em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tratou de cooperação policial bilateral com o presidente dos EUA, Donald Trump.
"Me pareceu, sobretudo, um gesto político à extrema-direita latino-americana que não traz qualquer acréscimo em termos de qualidade de combate ao crime organizado ao Brasil", disse Mario Sarrubbo, ex-secretário nacional de Segurança Pública e um dos maiores especialistas do país sobre o PCC. "Muito pelo contrário, é um retrocesso."
O anúncio foi feito por Rubio um dia após ele se encontrar com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL. Na véspera do encontro com o secretário de Estado, Flávio Bolsonaro havia se reunido com o próprio Trump.
A troca diária de informações de inteligência e a organização de ações conjuntas com o FBI, a agência antidrogas DEA e a agência de imigração ICE podem ser descontinuadas com a decisão, segundo investigadores do Estado de São Paulo, base do PCC.
Embora considerem o risco baixo, autoridades do governo Lula temem que a designação possa abrir caminho para ações militares e secretas dos EUA no Brasil, a exemplo do que ocorreu na Venezuela e em incursões contra cartéis mexicanos.
"Não permitiremos qualquer tipo de intervenção estrangeira em nosso país", disse à Reuters o secretário Nacional de Segurança Pública, Chico Lucas.
O governo brasileiro argumenta que tem avançado no combate às organizações, com a aprovação da Lei Antifacção e sucessivas operações para asfixiar seu fluxo financeiro. Um marco ocorreu em agosto passado, com a operação Carbono Oculto, que expôs o controle do PCC sobre importações de combustíveis e postos de gasolina — esquema que movimentou cerca de R$52 bilhões entre 2020 e 2024.
Dois investigadores paulistas disseram reservadamente à Reuters que esperam que a cooperação Brasil-EUA seja mantida apesar da decisão do governo norte-americano.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, disse à Reuters que prefere aguardar os efeitos práticos da "decisão política" norte-americana, afirmando que ela não tem impacto na atuação do governo brasileiro.
"É esse momento de nós ampliarmos ainda mais a integração interna, de nós ampliarmos a cooperação com todos os países, inclusive com os Estados Unidos, para que todos tenhamos uma região mais segura", defendeu ele.
(Edição de Alexandre Caverni)
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