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RS: ocupação da Câmara de Santa Maria chega ao sexto dia com pizza

Exigência da saída do procurador jurídico do Legislativo segue como um impasse para a saída dos manifestantes; ocupação é "terapêutica"

30 jun 2013
08h29
atualizado às 09h33
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Na frente do prédio da Câmara de Vereadores de Santa Maria, no centro da cidade, grupos de jovens conversam animadamente, alguns sentados no chão, outros nos degraus em frente ao prédio do Legislativo. Ao entrar na Casa do Povo, pedaços de pizzas são distribuídos a quem aparece por lá, em frente ao local que, em dias normais, é a recepção.

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Mais alguns passos à frente e chega-se ao plenário, com pessoas sentadas nas cadeiras das galerias e nos assentos destinados aos vereadores. Também há jovens sentados no chão, participando de um debate sobre pichação.

Esse era o cenário da ocupação da Câmara, que chega ao sexto dia neste domingo. Se não fossem as faixas na frente do prédio e no corredor de entrada, um desavisado poderia até pensar que se trata de um evento qualquer, tamanho é o clima de tranquilidade. A manifestação não reflete a tensão que se instalou no cenário político de Santa Maria.

O impasse segue em relação à exigência dos manifestantes em relação à exoneração do procurador jurídico da Câmara, Robson Zinn, que também é o presidente municipal do PMDB, partido do prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer. Na manhã de sábado, em um telefonema ao presidente da subseção de Santa Maria da Ordem dos Advogados do Brasíl (OAB), Péricles Lamartine, Zinn teria proposto um prazo de 60 dias para deixar o cargo.

Em plenária, os manifestantes negaram a proposta do presidente do Legislativo, Marcelo Bisogno, que solicitou de 30 a 60 dias para emitir um parecer a respeito da exoneração do procurador. A decisão pela continuidade da ocupação foi unânime. Uma nova reunião na manhã deste domingo vai acertar as bases de uma contraproposta do agora batizado “Movimento por Justiça”. No entender do presidente da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Adherbal Ferreira, a possibilidade de esperar 60 dias está descartada.

Enquanto segue o impasse, a ocupação continua. No sábado e no domingo, foram programadas exibições de documentários. No final da tarde de sábado, foi mostrado o filme “Pixo”, sobre a pichação como fenômeno cultural, seguido de um debate que adentrou a madrugada de sábado. A conversa foi realizada no Plenário da Câmara, local das sessões, onde até uma barraca foi instalada.

O presidente da associação de familiares da tragédia, Adherbal Ferreira (esquerda), e o vice, Léo Becker (direita), foram reeleitos
O presidente da associação de familiares da tragédia, Adherbal Ferreira (esquerda), e o vice, Léo Becker (direita), foram reeleitos
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Na entrada da Câmara, foram distribuídas fatias das mais de 10 pizzas que chegaram ao Legislativo, doadas por um empresário do ramo que pediu para não ter o nome divulgado. Enquanto o jantar era servido, chegaram refrigerantes, também doados. Já na madrugada de domingo, foi servido um sopão, enquanto uma roda de violão animava do lado de fora. Muitas refeições são feitas de forma comunitária, e o meio-dia deste domingo reserva um risoto.

A ocupação na Câmara ganhou até um depoimento de apoio gravado em vídeo por Seu Jorge, na sexta-feira à noite, logo depois da apresentação dele no Clube Dores, em Santa Maria. O vídeo teve quase 500 compartilhamentos no Facebook até a manhã deste domingo.

De acordo com o presidente da AVTSM, a ocupação da Câmara não trouxe somente consequências políticas. “Muitos jovens que diziam que eram bagunceiros estão agora tranquilos, pela convivência com todos, especialmente com os pais de vítimas da tragédia, que também estão aprendendo muito com eles. Essa é uma ocupação terapêutica”, diz Adherbal Ferreira.

Presidente e vice da Associação de Familiares das Vítimas são reeleitos
Na manhã de sábado, a AVTSM realizou uma assembleia em que o presidente, Adherbal Ferreira, e o vice, Léo Becker foram reeleitos. Houve algumas mudanças no restante da diretoria e nos conselhos de Administração e Fiscal.


Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

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Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissandro - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

Fonte: Especial para Terra

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