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Estudante morto na Boate Kiss tem cinzas depositadas em jardim da UFSM

Rafael Dias Ferreira estudava Biologia e 'amava a natureza', segundo familiares. Cerimônia ocorrida nesta sexta foi marcada pela emoção

31 mai 2013
20h22
atualizado às 20h33
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O estudante Rafael Dias Ferreira, 21 anos, que morreu no incêndio que atingiu a Boate Kiss em 27 de janeiro deste ano, foi homenageado nesta sexta-feira por familiares, amigos e colegas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Estudante de Biologia na UFSM, Fael, como era chamado, foi cremado e teve suas cinzas depositadas junto a mudas de árvores plantadas no Jardim Botânico da instituição.

Pai de Rafael ajudou a cavar buraco para o plantio de mudas
Pai de Rafael ajudou a cavar buraco para o plantio de mudas
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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Nascido em Belém (PA), ele morava em Santa Maria havia cinco anos com a mãe, Márcia Dias, e o padrasto, Pedro Sousa. Com autorização da UFSM, as cinzas de Fael foram plantadas junto a um ipê-branco e a uma cerejeira. Nos próximos dias, as árvores ganharão a companhia de um banco, para que o local seja um recanto de tranquilidade e devoção. "Meu filho amava a natureza", disse a mãe de Rafael, logo depois de depositar as cinzas junto a uma das árvores.

O cerimonial da homenagem foi comandado pelo presidente da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Adherbal Ferreira, e começou com a mensagem de representantes das religiões católica, batista, espírita e budista. Logo depois, os presentes não conseguiram segurar as lágrimas, quando foi exibido um vídeo com fotos de Rafael nas mais diferentes épocas de uma vida que foi abreviada pela tragédia, além de mensagens. Em um dos vídeos, o próprio estudante cantava uma música, o que trouxe uma emoção extra à cerimônia.

Reinaldo Ferreira, pai de Rafael, deu um depoimento emocionado, lembrando de alguns momentos singelos que passara com o filho, como quando lhe deu um livro, quando o levou a Brasília, onde ele mora, ou quando o estudante tocou teclado na igreja. São momentos que vão ficar para alguém que foi surpreendido pela tragédia. "Para isso, a gente nunca está preparado", comentou Reinaldo.

Citando o que o filho tinha escrito em um diário, sobre "ser uma pessoa melhor em 2013", o pai destacou três coisas que Rafael queria implantar em seu coração e destacou que elas deveriam se estender a todas as pessoas: paz, amor e perdão. No final, em alusão à Boate Kiss, Reinaldo pediu aos pais atenção aos locais aonde os filhos vão. "Que nós possamos aprender a ser mais 'cricris' com as coisas que nossos filhos fazem", sugeriu, citando um senhor que falou com ele durante o velório de Rafael, no Centro Desportivo Municipal, que lhe contou que havia impedido o filho de ir à Kiss na noite da tragédia depois que passou na casa noturna na tarde anterior e achou o local inseguro.

Colegas do curso de Biologia também deram depoimentos emocionados sobre como era o convívio com Rafael. "Todo mundo que ouviu as palavras do Rafael as levou para sempre. Ele era diferente de todos nós, era uma pessoa especial", disse uma estudante. Outra colega contou da dedicação do estudante aos dar aulas no Práxis, pré-vestibular gratuito da UFSM. Ele revelou um desafio especial encarado por Rafael: dar aula a um estudante cego. "Era lindo ver a dedicação dele. Estava sempre pensando em coisas para ensinar melhor", declarou a jovem.

Antes do plantio das árvores, integrantes da AVTSM pediram que todos deem apoio na luta por justiça, especialmente agora que os réus do processo da tragédia foram soltos. Para plantar a cerejeira e o ipê-branco, o pai e o padrasto se encarregaram das pazadas de terra necessárias, que assentaram as árvores e cobriram as cinzas que foram jogadas ao solo pelo pai e pela mãe de Rafael.

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

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Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Especial para Terra
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