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RJ: a PM gosta do 'som da guerra', diz policial em protesto

PM atirou bombas e gás em ato durante a final da Copa e deixou dezenas de jornalistas feridos

14 jul 2014 17h50
| atualizado às 17h55
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<p>Na foto, o fotógrafo do <strong>Terra</strong>, Mauro Pimentel, é atingido por cacetete de um PM durante o protesto contra a realização da Copa</p>
Na foto, o fotógrafo do Terra, Mauro Pimentel, é atingido por cacetete de um PM durante o protesto contra a realização da Copa
Foto: Mauro Pimentel / Terra

Enquanto a bola rolava no Maracanã entre Argentina e Alemanha pela final da Copa do Mundo, a pouco menos de dois quilômetros do estádio, na Praça Saens Pena, no bairro da Tijuca, a Polícia Militar brasileira dava mostras da segurança “padrão Fifa” preparada para o Mundial - ao todo, 25.787 mil policiais foram destacados para fazer o policiamento de áreas estratégicas da cidade neste domingo. Ao menos 15 jornalistas, segundo o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, foram agredidos pela PM ou atingidos por estilhaços de bombas de efeito moral, entre eles o fotógrafo do Terra Mauro Pimentel.

Cerca de 300 manifestantes foram cercados por mais de 500 policiais e impedidos de sair da praça, considerada “perímetro de segurança” pela polícia, reproduzindo o comportamento da polícia repetido desde o início do mundial de usar de violência com anuência do governo  para evitar que manifestantes se aproximassem de estádios ou instalações da Fifa. Ao ver a reportagem do Terra se deslocar para um dos pontos de conflito em que eram disparadas bombas de gás, um PM sorriu e disse: “esse é som que a gente gosta, o som da guerra”.

Questionado sobre o porquê da praça ter sido cercada - nem mesmo jornalistas eram autorizados a deixar o local -, um dos coordenadores da operação, coronel Gaspar, comandante do Batalhão de Cavalaria, respondeu que o objetivo do cerco era “para garantir a segurança das próprias pessoas”, evitando que grupos deixassem o local e se encontrassem com outros manifestantes.

Um vídeo do jornal A Nova Democracia mostra o momento em que o cineasta canadense Jason O’Hara foi agredido com socos e chutes por um policial militar. O documentarista relatou ter tido a câmera roubada por um policial. “Fui roubado por um policial. (Tinha uma) GoPro, ele tirou, e agora estou sem”, afirma O’Hara. O cineasta foi encaminhado ao Hospital municipal Souza Aguiar. A secretaria municipal de Saúde, no entanto, não deu informações sobre o estado de saúde do canadense.

Pimentel, que venceu o prêmio Tim Lopes de Jornalismo com uma imagem de um dos primeiros protestos realizados em junho do ano passado, foi agredido ao tentar cruzar uma linha de PMs para fotografar um manifestante detido pela polícia. O profissional, que estava identificado com crachá da empresa e capacete com a palavra “imprensa”, diz que está foi a primeira vez que foi atacado por policias durante a cobertura de um protesto.

“Eles gritaram: 'Para trás, para trás', começaram a bater e jogaram o spray de pimenta. Só que eu estava de máscara e continuei fotografando. Foi quando um cara [PM] me deu um chute na perna esquerda. Outro policial me segurou e me empurrou para trás. Só vi o cassetete vindo em direção ao meu rosto. O filtro quebrou e a máscara trincou, mas segurou bem a pancada. Se estivesse sem aquela máscara fechada e o capacete, estaria, no mínimo, com o nariz quebrado”, afirmou Pimentel.

O fotógrafo conseguiu registrar a imagem do policial que o agrediu, identificado como Portillo. Ele foi ainda jogado no chão e acertado por cassetetes nas pernas. “Desde o começo do protesto parecia que havia uma ordem para atacar fotógrafos e cinegrafistas. Policias batiam direto nas câmeras, mirando em fotógrafos”, afirmou.

Além de O’Hara e Pimentel, outros 13 jornalistas foram agredidos por PMs ou feridos por estilhaços de bombas, entre eles um fotógrafo peruano e um jornalista italiano. Segundo o sindicato dos jornalistas, esse número sobe para 105 quando somadas as agressões a jornalistas realizadas desde maio de 2013 na cidade.

“Era para ser muito pior”, diz PM
A manifestação começou por voltas das 14h40, e reuniu diversos grupos que protestavam contra a forma como a Copa do Mundo foi organizada e a prisão temporária de 21 ativistas - realizadas no sábado, sob a alegação de que eles formariam uma quadrilha armada que planeja ações violentas em atos públicos. À frente, uma faixa pedia: “libertem os presos políticos - ditadura nunca mais”. Havia também bandeiras da Palestina, de movimentos de favelas e do movimento feminista.

Os manifestantes caminharam duas quadras pela avenida Conde de Bomfim e, ao chegarem na0 altura da rua Pinto de Figueiredo, tiveram a passagem impedida pela polícia, que cercou todo o perímetro da praça. O grupo retornou à praça e tentou, sem sucesso, negociar a saída do protesto. Assim que algumas pessoas tentaram furar a barreira, a polícia passou a disparar bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Alguns aplaudiram a ação, ironicamente, e ouviram de um PM que “era para ser muito pior”.

Além da Polícia Militar, a tropa da Cavalaria também foi chamada para conter a manifestação. Os policiais avançaram com os cavalos sobre os manifestantes e desembainharam as espadas, retornando em seguida para a parte de trás da barreira de policias. A cada nova tentativa dos manifestantes de deixar a praça, a polícia jogava novas bombas, ferindo com cacetetes aqueles que tentavam furar o bloqueio. A estação de metrô da praça Saens Pena foi fechada, e um grupo que tentou deixar o terminal foi perseguido por PMs.

Apesar de o local do protesto não ser dentro do perímetro de isolamento do Maracanã, só era autorizada a passagem de moradores com comprovantes de residência. Eles eram acompanhados até as suas casas pela PM. O cerco durou aproximadamente três horas. As pessoas que estavam dentro da praça passaram a ser liberadas para deixar o local por volta das 18h45.

Em nota, a Polícia Militar disse que “reconhece a importância do trabalho dos jornalistas” e afirma que “todas as denúncias e imagens recebidas relativas à excesso na ação de policiais militares serão encaminhadas à Corregedoria e apuradas”. Segundo a polícia, “dados da Inteligência mostravam que esse grupo tinha a intenção de se dirigir à entrada do Maracanã, colocando em risco a segurança de milhares de torcedores”.  Seis pessoas foram encaminhadas à delegacia.

Fonte: Terra
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