Quem é o MC Negão Original, alvo de mandado de prisão por suspeita de integrar rede de golpes
Foragido, João Vitor Ribeiro tem mais de 11 milhões de ouvintes mensais no Spotify e exibe vida de luxo nas redes sociais; defesa diz que cantor é idôneo e que irá comprovar sua inocência
Com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, João Vitor Ribeiro, conhecido como MC Negão Original, foi um dos principais alvos da megaoperação deflagrada nesta terça-feira, 24, para desarticular um grupo investigado por aplicar golpes a partir de cidades de São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal. Ao menos 12 pessoas foram presas até o momento, todas em território paulista.
- Como mostrou o Estadão, a Operação Fim da Fábula, realizada pela Polícia Civil em parceria com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), busca cumprir, ao todo, 53 mandados de prisão temporária e outros 120 mandados de busca e apreensão contra suspeitos de envolvimento em golpes como do "falso do advogado" e do INSS e da "mão fantasma".
A maior parte dos alvos, como Ribeiro, ainda não foi localizada. No caso do MC, a Polícia Civil chegou a ir a dois endereços ligados a ele na região metropolitana de São Paulo, mas foi em vão. Em nota, a defesa do artista informa que não teve acesso aos autos, afirma que Ribeiro é "uma pessoa idônea, com trajetória profissional consolidada" e diz que a inocência dele será comprovada (mais abaixo).
Em coletiva realizada nesta terça, integrantes do Deic afirmaram que Ribeiro disponibilizava apartamentos que seriam usados como base para a aplicação de crimes de estelionato. Conforme a polícia, notebooks e celulares apreendidos nesses locais vão passar por averiguação.
"Relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) demonstraram uma alta movimentação financeira atípica desse artista, inclusive (relacionadas) com estelionatários", disse o delegado Fernando Santiago, do Deic.
Segundo ele, o MC é investigado também por atuar para uma bet supostamente clandestina, gerando prejuízo a seguidores. "Ela (a casa de apostas) era desenvolvida apenas para a 'banca' ganhar, impossibilitando que a vítima conseguisse os valores que eram prometidos", acrescentou.
Com músicas em parceria com nomes como os MCs Livinho e Ryan SP, o MC Negão Original acumula mais de 11 milhões de ouvintes mensais no Spotify, segundo informações da própria plataforma. Só neste ano, já lançou dois singles (Mini Saia e Carnívoro), ambos com outros artistas.
O cantor ganhou projeção com o sucesso de produções como o álbum A Nata de Tudo - A Ovelha Negra, lançado em fevereiro do ano passado. Até hoje, músicas como Vou pela Madrugada estão entre as mais ouvidas do artista nas plataformas digitais.
Nas redes sociais, o MC esbanja publicações de ostentação, exibindo veículos de luxo e bolos de dinheiro vivo aos seus milhões de seguidores. A trajetória atual, de destaque no funk, contrasta com a origem humilde do artista, marcada por pregação em igrejas evangélicas, conforme ele próprio já disse em entrevistas anteriores.
A pedido do Ministério Público, a Justiça determinou o bloqueio judicial de até R$ 100 milhões em cada uma das 86 contas correntes, de pessoas físicas e jurídicas, identificadas na investigação. As medidas foram autorizadas pela 2ª Vara Especializada em Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital paulista.
Ao menos 66 vítimas de esquemas envolvendo os suspeitos foram identificadas até aqui. Os crimes investigados incluem associação criminosa (para cometimento de fraude) e estelionato por meio digital, além de lavagem de dinheiro inclusive por meio de BETs e fintechs.
Cerca de 300 policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) foram mobilizados para a operação, realizada em parceria com autoridades de outras unidades federativas e com o Grupo de Atuação Especial de Persecução Patrimonial (Gaepp) do MP-SP.
'Mão fantasma', 'falso advogado' e golpe do INSS
Um dos golpes pelos quais o grupo é investigado é o do "falso advogado", em que criminosos obtêm dados dos profissionais e, se passando por eles, entram em contato com clientes com processos em aberto e pedem transferências via Pix, geralmente com a justificativa de que o valor irá destravar algum falso benefício judicial.
O grupo estaria envolvido também na aplicação do chamado golpe do INSS, em que os golpistas se passam por funcionários da previdência para obter dados sensíveis e sacar dinheiro das vítimas, e do golpe da "mão invisível" (ou "mão fantasma"), em que criminosos invadem remotamente os celulares dos alvos após envio de links maliciosos.
"Hoje não estamos apenas cumprindo mandados. Estamos alterando a equação financeira da organização criminosa", afirmou ao Estadão o delegado Clemente Calvo Castilhone Junior, do Deic. "E sem recursos, não há comando. Sem comando, não há estrutura. Sem estrutura, não há organização."
De acordo com a polícia, os mandados são cumpridos, no caso de São Paulo, nas cidades de Arujá, Atibaia, Ferraz de Vasconcelos, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Praia Grande, Santo André, São Bernardo do Campo, São José do Rio Preto, São Paulo e São Vicente. Há frentes ainda em Capitólio e Nova Lima, em Minas; e em Brasília.
2 milhões de crimes de estelionato por ano
Os golpes estão em alta no Brasil. Em 2024, o País registrou mais de 2 milhões de crimes de estelionato pelo segundo ano consecutivo, conforme informações do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A prática aumenta inclusive o receio do roubo de celular, considerado o principal meio para obter informações para, consequentemente, cometer o crime.
Informações preliminares indicam também que o grupo alvo da operação nesta terça é investigado por crimes como clonagem de cartões e aplicação de golpes a partir de falsas centrais telefônicas, focadas em usar "engenharia social" para enganar as vítimas.
Em nota publicada nas redes sociais, o advogado Robson Cyrillo, que representa João Vitor Ribeiro, afirma que "todas as transações financeiras relacionadas ao artista possuem lastro documental e origem lícita, o que será devidamente demonstrado no momento oportuno, tão logo a defesa tenha acesso aos documentos e elementos investigativos".