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Quatro irmãs se reencontram após 30 anos

Adotadas por famílias diferentes em SC e SP, elas se mobilizaram em busca da 'árvore genealógica'

27 jun 2022 - 05h10
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A empresária Camila Buchele, de 33 anos, cresceu na cidade de Itajaí, em Santa Catarina, com o desejo de encontrar as três irmãs entregues para adoção nos primeiros meses de vida. Apesar das buscas, foi Camila que acabou sendo localizada. Mais de 30 anos após a separação, ela conseguiu ter contato com as irmãs.

A jornalista Julia Alberich e a gestora em recursos humanos Juliana Alberich foram adotadas por um casal de São Paulo, enquanto a escrevente Bianca Amorim foi para uma outra família de Santa Catarina. Julia foi a primeira a contatar Camila, em julho de 2020. Com o contato de Bianca neste ano, todas as irmãs se reencontraram virtualmente e presencialmente. Segundo Camila, a mãe fugiu de casa aos 17 anos por problemas familiares e quando paria ou levava a criança para a família ou entregava à adoção no próprio hospital.

Das quatro irmãs, Camila é a única que não foi adotada. Foi ficando entre idas e vindas. Nas contas dela, passou por cerca de dez famílias de conhecidos dos familiares. Mas sempre voltava para a casa do avô.

Referência

A mãe de Camila às vezes aparecia na casa do pai, e depois sumia no mundo. Não tinha relação de mãe e filha, apesar de dividir o mesmo teto em determinados períodos. Camila diz que não se sentia parte da família. Via-se mais como uma "utilidade" para cuidar de uma criança ou ajudar nas tarefas de casa. "Eu sempre fui uma criança triste, mas, por outro lado, eu fui uma criança que se doou muito pelas pessoas", afirma.

Ela tinha pistas das irmãs. Sabia que as gêmeas se chamavam Julia e Juliana e, no verso de uma foto de uma bebê, estava escrito o nome Roberta Caroline Buchele. O tempo foi passando, e a vontade de Camila de construir a própria "árvore genealógica".

Trabalhou como menor aprendiz nos Correios para encontrar "possíveis nomes". Atuou em um hospital da região, mas não conseguiu informações. Ao atender clientes nas lojas na cidade, contava sempre a história e, mesmo assim, a situação se repetia. Frustrava-se, mas recuperava o ânimo. Casou e teve dois filhos. E o interesse por entender a sua história continuava. "Eu nunca me permiti desistir, mesmo se fosse algo improvável", diz.

Camila não estava sozinha nessa busca. Em São Paulo, Juliana Alberich, de 32 anos, conta que já sabia da adoção e foi "uma aceitação tranquila". Mas, na adolescência, um sentimento começou a incomodar. "Eu sentia que algo faltava dentro de mim sempre", afirma. Nas buscas na internet, ela e a sua irmã gêmea, Julia, não conseguiram avançar, mesmo com o sobrenome na certidão da família biológica.

Isso até 6 de julho de 2020. Julia Alberich, de 32, reuniu os documentos para renovar a habilitação. Em meio à documentação, uma ex-namorada sugeriu pesquisar os parentes de Julia a partir do registro da família biológica. Descrente, Julia concordou. Depois de três horas, ela encontrou em uma rede social um tio que passou o contato de Camila. "Sem a certidão, seria impossível encontrar Camila", afirma Julia.

Por uma rede social, Julia conversou com Camila, que confirmou o nome da mãe. Naquela noite, Julia diz que ficou muito nervosa, passou mal e desmaiou.

Demorou um tempo para processar todas as informações e contar para a mãe e os dois irmãos adotivos. "Eu fiquei bem travada. Foi uma carga emocional muito grande", conta ela. No fim do ano passado, Camila encontrou Julia em São Paulo.

Mas Camila ainda tinha de encontrar a terceira irmã, que a família adotiva nomeou como Bianca. E mais um capítulo se abre à história. Bianca Amorim, de 34 anos, não sabia quantos irmãos tinha nem se eram meninas ou meninos. Ela apenas sabia que poderia ter irmãos, após descobrir a adoção. A procura, afirma, "nunca foi um objetivo de vida". Existia um receio: "As pessoas poderiam não saber que eram adotadas ou algo do tipo. Então, isso é muita questão de respeito para com o outro".

Mas a curiosidade permanecia, sem ansiedade, reforça. Amorim conta que abordou a adoção no trabalho de conclusão de curso de Direito e aproveitou a mudança na lei em 2011 para desarquivar o processo dela. Tinha também a certidão da família biológica. Com a ajuda do marido Alysson, o sobrenome Buchele os levou para vários perfis. Entre eles, o de Camila.

Atualmente

O encontro ocorreu em fevereiro deste ano em Itajaí. Agora, as quatro irmãs têm um grupo no WhatsApp chamado "Manas". Lá, elas contam que compartilham as atividades do dia a dia, mandam fotos e comparam a semelhança dos dedos, por exemplo. "Nós não vamos recuperar os 30 anos perdidos, mas temos a chance de escrever uma nova história", afirma Camila.

Estadão
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