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Padre substituído em SP diz que manifestação foi exagerada

9 dez 2014
10h54
atualizado às 16h34
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<p>Padre falou sobre os protestos em sua defesa</p>
Padre falou sobre os protestos em sua defesa
Foto: João Spósito Júnior / Facebook

A manifestação dos jovens realizada durante a missa de Crisma, no interior da Igreja Matriz de Adamantina, no interior de São Paulo,  foi “exagerada”, “inoportuna” e em alguns momentos caracterizada pelo “desrespeito ao bispo e à igreja”. A opinião é do padre Wilson Luís Ramos, cuja saída da paróquia, por determinação do bispo de Marília (SP), Dom Luiz Antonio Cipolini, revoltou os jovens que participaram da manifestação na noite de domingo.

“Não acho que os jovens fizeram por maldade, mas acho que houve exagero e alguns atos de desrespeito à casa de Deus e à autoridade religiosa (bispo)”, disse. Padre Wilson disse que já esperava algo, a exemplo da manifestação realizada na noite de sábado – quando cerca de 2,5 mil pessoas, segundo os organizadores, foram às ruas em passeata pedir a sua permanência na cidade. “Mas não esperava algo nessa intensidade e que pudesse sair fora do controle.

Acho que os jovens se deixaram levar pela emoção e alguns acabaram se excedendo. Foi uma manifestação inoportuna, pois ali não é o lugar e não era o momento”, comentou padre Wilson.

A manifestação dentro da igreja – lotada com 1,2 mil lugares ocupados—não foi a única na noite de domingo. Do lado de fora da igreja outra multidão esperava o bispo sair para lhe cobrar explicações sobre a saída do padre. “Lá fora eu imaginava que haveria muita gente, assim como na noite anterior. Eu tentei explicar a eles que não adiantava esperar, que eles deveriam deixar o bispo e sair e ir embora, mas eles não me ouviram e continuaram lá”, contou. O bispo então foi obrigado a sair escoltado por PMs e foi embora no carro de um PM porque o carro dele teve os pneus esvaziados. O caso foi registrado em Boletim de Ocorrência na polícia de Adamantina.

‘Vou continuar com meu trabalho’
O padre esteve segunda-feira em Dracena, onde assume, neste domingo, 14, o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Ele será substituído pelo padre Rui Rodrigues da Silva. “Vou continuar meu trabalho naquela cidade e sei que meu sucessor aqui em Dracena vai continuar com minhas obras e atender bem a população. Então espero que a nossa comunidade receba bem meu sucessor, assim como sei que serei bem recebido”, comentou.

Embora o padre esteja resignado com a transferência, os moradores de Adamantina, especialmente os jovens, ainda tentam reverter a situação e continuam com o protesto. Nesta segunda-feira, eles iniciaram campanha de enviar e-mails ao Vaticano denunciando a intransigência do bispo em não ouvir a população, que pede a permanência do padre.

A saída do padre foi pedido de um pequeno grupo de fieis, ricos e conservadores, descontentes com o direcionamento da paroquia aos excluídos. “É um pequeno grupo, de fieis colaboradores, que ocupava havia 13 anos alguns postos de coordenação de apoio às atividades da paróquia, mas foi destituído por mim e que não está satisfeito com meu trabalho”, contou o padre Wilson.

Trabalho com os pobres
Desde que chegou em 2012 a Adamantina, o padre mudou o foco da igreja. Passou a se dedicar aos pobres, a visitar as famílias humildes e a dar espaço aos jovens, incluindo os usuários de drogas.  “Essas pessoas passaram a ter lugar na principal igreja da cidade”, contou um dos líderes religiosos. Ao mesmo tempo, a população percebeu que padre Wilson era diferente de seu antecessor, que ficara por 13 anos na cidade.

 “O padre Wilson é simples, usa roupas simples, caminha pela cidade e trata a todos, incluindo os humildes, da mesma maneira. O padre anterior usava roupas de grife, bebia vinho importado e andava pela cidade de carro, sempre dando mais atenção aos de maior renda. Isso não agradou a alguns, mas ganhou a simpatia da grande maioria da população”, disse um dos auxiliares diretos do padre.

Mas além da simpatia da população e dos protestos após o anúncio de sua saída, a administração do padre foi marcada por aumento do faturamento da paróquia com os dízimos e pela recuperação das capelas da cidade. O padre reformou sete delas, construiu uma, no valor de R$ 540 mil, e iria construir outra, quando recebeu o aviso de sua substituição.

A sua gestão também foi marcada por atos de preconceito por parte de alguns fieis, contados pelo próprio padre. “Sofri muito com tudo isso. Foi muita humilhação”, disse padre Wilson. “Outro dia vi duas senhoras dizendo que deveriam substituir o galo que há no alto da torre da igreja por um urubu. Isso me deixou arrasado”, comentou.

Além da falta de explicação sobre a saída do padre, os católicos de Adamantina estão revoltados com a substituição ter sido feita em época de pleno natal, quando as ações de fraternidade são incentivadas pela igreja. Além disso, a divulgação da carta de bispo, na última sexta-feira, pedindo ao padre para desocupar a casa paroquial até esta terça-feira, foi a gota d’água para que coordenadores não tentassem mais evitar as manifestações.

“Essa carta foi divulgada horas depois de o Conselho de Pastoral de Paróquia (CPP) se reunir com o bispo e pedir a ele que adiasse por um ano a decisão (de transferir o padre) para que houvesse um entendimento com o grupo de descontentes. Mas ele não levou em consideração nosso pedido e sem avisar a ninguém divulgou a circular transferindo o padre. E pior: ainda tratou os leigos da igreja com desprezo, o que revoltou muitos colabores da paróquia”, contou um líder religioso de Adamantina.

Decisão do bispo
O bispo dom Luiz Antonio Cipolini disse que retornaria às ligações, mas até o encerramento da reportagem isso ainda não tinha ocorrido. No dia 2 de dezembro, ele contou sobre a troca de padres. Embora tenha admitido que padre Wilson tenha sido vítima de preconceito na cidade, explicou que a transferência dele não tinha relação com este fato. “O que houve foi que ele causou uma divisão na paróquia. E não padre colado. Uma paróquia não pode viver dividida”, afirmou. Segundo o bispo, “uma pessoa quase foi confundida por outra que era contra a permanência do padre”. “Não posso deixar que haja risco de integridade física na paróquia”, contou o bispo.

Dom Luiz disse ainda que tomou a decisão após o padre não aceitar a saída sugerida por ele num primeiro momento e após o Conselho de Presbíteros, acionado por ele, realizar uma consulta na cidade, que constatou a divisão. Em relatório o conselho enumerou depoimentos de leigos sobre a conduta do padre. Foram relacionadas 23 atitudes positivas do padre e oito negativas. Entre as positivas estão a renovação da paróquia com entrada de pessoas humilde e jovens e o caráter do padre, enaltecido devido à sua bondade, humildade e apoio aos doentes e excluídos. Entre as negativas está a insatisfação de parte de um pequeno grupo de fieis e o fato de ter criticado o bispo, além de ter transformado suas missas “em um show de palmas”.

Esta matéria também foi sugerida pela leitora Suelly Tiezzi Belluci , de Adamantina (SP), por meio do vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra. Se você também quiser mandar fotos, textos ou vídeos, clique aqui ou envie pelo aplicativo WhatsApp, disponível para smartphones, para o número +55 11 97493.4521.

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Fonte: Terra
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