'Nunca vou entender 45 tiros como protocolo', diz mãe de jovem morto pela PM em Moema
Santiana Munis contesta versão do secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, sobre a morte do filho; familiares apontam despreparo. Corporação investiga o caso
A mãe de Gustavo Munis contestou a versão da Segurança Pública de SP, que alegou cumprimento de protocolo na ação da PM que matou o jovem em crise psicológica com 27 tiros. O episódio integra uma série recente de três mortes cometidas por policiais contra pessoas em surto na capital paulista, levantando denúncias de despreparo e excesso de força. Sob investigação pelo DHPP, os casos levaram o governador Tarcísio de Freitas a admitir a necessidade urgente de rever os procedimentos da corporação.
A mãe de Gustavo Munis de Santana, morto com 27 tiros disparados por policiais militares em São Paulo, criticou a declaração do secretário da Segurança Pública do Estado, Osvaldo Nico Gonçalves, de que os agentes agiram em legítima defesa e seguiram o protocolo. A declaração foi dada em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, no último domingo, 18.
"Nunca vou entender um secretário de Segurança Pública falar que 45 tiros é protocolo", disse Santiana Munis ao programa. O jovem foi morto na madrugada de sábado, 10, no Planalto Paulista, próximo a Moema, na zona sul da capital.
Segundo a mãe, os policiais sabiam que se tratava de uma tentativa de suicídio e que Gustavo estava psicologicamente fragilizado. "Ninguém que vai querer se suicidar está normal", afirmou.
Santiana também questionou a conduta dos agentes diante da situação. "Em caso de suicídio, você vai lá e mata?", indagou. Para ela, os policiais não estavam diante de um criminoso, mas de alguém em situação de surto psicológico.
Na semana passada, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que a abordagem policial que terminou com a morte de Gustavo foi uma ação legítima e não desrespeitou os protocolos da corporação.
"A gente lamenta, mas foi uma ação legítima dos policiais, né? Eles foram afrontados, você viu que a pessoa ameaça dizendo que tem uma arma, vai pro canto, espera de quebrada os policiais chegarem", afirmou o secretário.
A mãe também disse ao programa que o filho nunca havia tentado suicídio e nem apresentado episódios de surto. Até então, Gustavo fazia tratamento para ansiedade. A irmã dele, que também conversou com o programa, apontou despreparo na atuação policial.
Outro caso citado pela reportagem aconteceu em 3 de outubro e envolveu o caçula de uma família da zona norte. Na ocasião, policiais militares dispararam ao menos 24 vezes contra Antonio Nunes Batista, de 40 anos, durante uma abordagem na Vila Dionísia, na zona norte de São Paulo.
Segundo familiares ouvidos pelo Fantástico, ele tinha esquizofrenia e enfrentava problemas com drogas, e já havia sido preso duas vezes.
José Nunes Batista, irmão de Antônio, afirmou temer que outros casos semelhantes aconteçam. "Creio que a história do meu irmão não vai ser a única. Porque estão sem preparo", disse ao programa. Em seguida, relatou que policiais já haviam abordado Antônio anteriormente e deixado o seu rosto todo desfigurado.
A violência dos dois casos, marcada pela quantidade de tiros efetuados pelos agentes, levantou a questão sobre protocolo e treinamento dos policiais em situações como essas. Nesta sexta, 16, o governador de SP, Tarcísio de Freitas (Republicanos) admitiu "a necessidade de rever procedimentos".
Nas últimas semanas, três abordagens feitas pela Polícia Militar de pessoas em surto psicótico terminaram com mortes. No caso mais recente, ocorrido na quinta, 16, na zona norte de São Paulo, Camila Pereira da Silva, de 32 anos, que estava possivelmente em surto, foi baleada à queima-roupa enquanto caminhava pela rua portando uma faca.
O policial da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam), André Coelho Máximo, acusado de disparar contra Camila, foi preso em flagrante após o delegado do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), João Pedro Murgolo, responsável pela investigação, apontar seis excessos na abordagem policial que causou a morte de Camila.
Ele foi solto após audiência de custódia realizada na sexta-feira, 16.
As mortes de Gustavo, Antônio e Camila são investigadas pelo DHPP. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo informou ainda que não tolera desvios de conduta.
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